Como assim?
Perguntas que inquietam os docentes
OUTUBRO/NOVEMBRO 2026 | nº 9 | Nesta seção, especialistas convidados por YVIRÁ respondem a perguntas enviadas por professores que integram a Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE) como “Amigos da Rede”.
Para esta edição, contamos com o conhecimento especializado de Rosa Maria Vicari, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), referência em Inteligência Artificial aplicada à Educação. Ela coordena a Cátedra UNESCO em Tecnologias de Comunicação e Informação na Educação, ligada a temas como sistemas tutores inteligentes e agentes educacionais. No texto abaixo, a pesquisadora aborda o uso da IA na solução de problemas, e como ela pode impactar a imaginação e a criatividade dos estudantes. Ainda assim, afirma, existem diferentes maneiras de introduzir a IA na educação. Confira a seguir.
ILUSTRAÇÃO: C. FLEURY COM GEMINI
IA na educação
“Quais são os riscos da dependência de IA para a resolução de problemas educacionais e como isso pode afetar o desenvolvimento da capacidade dos alunos de lidar com desafios cognitivos complexos?”
Enviada por Virgínia Baptista Chaves Duarte de Lima, educadora/ fundadora da Glia Neurociência Educacional, neurocientista e professora da educação básica, Rio de Janeiro/RJ
Rosa Maria Vicari
Professora do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Pessoalmente, considero que o uso da IA na solução de problemas, sejam complexos ou não, impacta a imaginação e a criatividade dos estudantes, pois são duas dimensões que a IA não possui.
A linha que nosso grupo de pesquisa defende é a do letramento em IA, que contempla o letramento em dados, em algoritmos e em modelos, como proposto pela UNESCO em 2022.
Rosa Maria Vicari
Professora do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Muitos países e escolas optam por apenas utilizar a inteligência artificial como apoio ao aprendizado nas diferentes disciplinas (por exemplo, a Estônia e o Equador).
Na minha opinião, esse não é o único caminho e talvez não seja o melhor. A IA pode colaborar com sugestões, mapas conceituais, indicação de bibliografia, etc., em etapas que envolvem a solução de problemas. Ela pode também, simplesmente, entregar uma solução para os estudantes. Os estudantes que já tinham acesso à tecnologia (em dispositivos eletrônicos, internet e buscadores) já a utilizavam para apoio na resolução de problemas mesmo antes da IA. A IA só aumentou o uso da tecnologia. Mas ainda é cedo para se dizer se afeta ou não a capacidade dos alunos de lidar com desafios cognitivos.
Alguns estudos realizados principalmente nos EUA apontam que estudantes que utilizam a IA de diferentes formas para resolver problemas ativam áreas diferentes do cérebro em comparação com estudantes que não usam tecnologia. Por exemplo, um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) realizado em 2025 com 54 estudantes que usaram o ChatGPT para escrever textos mostrou que essa utilização ativou áreas distintas do cérebro deles em relação a estudantes que não usaram a IA. Relatórios do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, 2025) de 2026 apontam a melhoria do desempenho de estudantes de Macau (China), que obtiveram melhor rendimento, em nível mundial, no quesito resolução de problemas. As autoridades educacionais da ilha creditaram esse bom desempenho ao uso corrente de tecnologias pelos estudantes.
Pessoalmente, considero que o uso da IA na solução de problemas, sejam complexos ou não, impacta a imaginação e a criatividade dos estudantes, pois são duas dimensões que a IA não possui. Logo, a IA não serve nem para substituir nem para estimular estas dimensões nos estudantes. A IA fornece respostas baseadas no conhecimento preditivo (conhecimento factual). O professor, sabendo destas limitações da IA, pode desafiar os estudantes para que eles as desenvolvam.
Pessoalmente, considero que o uso da IA na solução de problemas, sejam complexos ou não, impacta a imaginação e a criatividade dos estudantes, pois são duas dimensões que a IA não possui.
Ainda assim, existem diferentes maneiras de introduzir a IA na educação. A linha que nosso grupo de pesquisa defende é a do letramento em IA, que contempla o letramento em dados, em algoritmos e em modelos, como proposto pela UNESCO em 2022. Além disso, defendemos o pensar com a IA, que é o uso da IA para resolver problemas, e o pensar sobre a IA, que envolve compreender como a IA resolve os problemas. Quanto mais os estudantes entenderem como a IA faz isso, mais eles se tornam conscientes dos limites e das potencialidades dessa tecnologia. Esse entendimento leva ao uso mais consciente. Outro ponto que desenvolve nos estudantes o uso com critério está relacionado à conscientização sobre os recursos (água, energia, minerais críticos etc.) consumidos pela IA e à responsabilidade dos usuários pelo seu uso.
A linha que nosso grupo de pesquisa defende é a do letramento em IA, que contempla o letramento em dados, em algoritmos e em modelos, como proposto pela UNESCO em 2022.


