Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
AGOSTO/SETEMBRO 2026 | nº8

Três educadores premiados, três formas de ensinar e aprender

Elisa Martins
Jornalista, especial para a Yvirá

Sou professor de Química do Ensino Médio e, em 2024, começamos um projeto a partir de uma inquietação trazida pelos alunos: “Qual era o sentido da prática científica no dia a dia?”.

Parece brincadeira, mas é carregada de intencionalidade pedagógica. É tudo planejado antes, numa dinâmica que une diversão e emoção associadas à aprendizagem.

Reunimos as famílias e fizemos uma assembleia: era preciso recuperar nosso território. Uma das propostas foi o reflorestamento da mata destruída pelo incêndio criminoso.

Falta apoio, incentivo, e às vezes até dinheiro para comprar material, que às vezes pago do próprio bolso. Mas acredito no poder transformador da educação.

A alfabetização corre em paralelo com o letramento de matemática. E temos tido uma grande divulgação e compartilhamento de boas práticas com outros professores.

Partimos do convencimento para a intersetorialidade, que não é ponte, ela é base. A escola precisa de parcerias para executar suas ações.

Elisa Martins
Jornalista, especial para a Yvirá

OUTUBRO/NOVEMBRO 2026 | nº 9 | Vencedores do III Prêmio Rede CpE na Sala de Aula explicam como se reinventam no dia a dia com projetos que aproximam alunos e sociedade a partir da ciência e da sustentabilidade social FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

Uma professora de alfabetização da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, outra de atendimento educacional especializado numa creche municipal de Manaus e um professor do Ensino Médio de uma escola pública em Caraúbas, no interior da Paraíba. Três educadores, três perfis de alunos, três formas de ensinar e aprender. Em comum, trajetórias ligadas à sustentabilidade social e à ciência para educação, que levaram os três docentes a serem os ganhadores deste ano do III Prêmio Rede CpE na Sala de Aula.

Alef Santos, da Escola Cidadã Integral Serveliano de Farias Castro, Luziene Rosa, da Escola Municipal Maria Quitéria, e Maria Raquel Souza dos Santos, da Creche Municipal Magdalena Arce Daou, conversaram com YVIRÁ sobre como incorporam na prática pedagógica temas como bem-estar, justiça social e ambiental, inclusão e redução da desigualdade social – por meio, claro, da Educação baseada em Ciência. Ao dar voz a essas iniciativas, a Rede CpE e a Cátedra Unesco, responsáveis pela publicação de YVIRÁ, reforçam seu compromisso em aproximar a produção científica da sociedade, conectar escolas, cientistas e instituições de pesquisa e valorizar experiências desenvolvidas em sala de aula. Confira.

Qual foi a sensação ao receberem o resultado do prêmio? E como o trabalho pedagógico que desenvolvem se relaciona aos critérios de sustentabilidade social?

ALEF SANTOS: Quando saiu o resultado, fiquei em choque e feliz. Sabia que competíamos com projetos significativos. Sou professor de Química do Ensino Médio e, em 2024, começamos um projeto a partir de uma inquietação trazida pelos alunos: “Qual era o sentido da prática científica no dia a dia?”. Daí surgiu o projeto Sociobiodiversidade e Culturas Vivas. Os alunos buscaram familiares e moradores antigos da região do Cariri, em Caraúbas, interior da Paraíba. A ideia era entender como era a vida antigamente e por quais transformações o mundo e aquele ambiente estavam passando. Vários temas e problemáticas surgiram a partir dessas narrativas, que levamos para discussão em sala de aula. A principal questão foi a desertificação da Caatinga e a escassez hídrica. Os moradores já sofriam com a falta de água, e relataram que tinham de cavar poços ou caminhar longas distâncias para encontrar água em açudes e lagos ou esperar o período de chuva. Os alunos trouxeram essas informações e começamos a pensar como o conhecimento popular, unido ao conteúdo científico, poderia nos inspirar para minimizar o impacto da escassez hídrica. Observamos os telhados das casas, que já serviam para captação de água, mas que poderiam ter um formato mais eficiente. Do jeito que ficavam as laterais das calhas, boa parte da água se dissipava quando entrava com contato com a telha. Estudamos e desenvolvemos um telhado em forma de “V”. A calha ficava no centro do telhado para captar e escoar o maior volume possível de água, sem mudar a estrutura da casa. Nos testes, o volume acumulado de água era maior. Usamos ciência, tecnologia, engenharia, arte, matemática. Conversamos também sobre o tratamento mais adequado para a água da chuva coletada. Antes, os moradores apenas coavam a água com um pano ou ferviam. A turma teve então a ideia de acoplar o escoamento dessa água a um filtro de baixo custo, cuja manutenção poderia ser feita pelos próprios moradores. Era um filtro formado por uma camada de manta, uma camada de cascalho, areia, carvão ativado e algodão e que agia antes da água chegar no reservatório. Uma inovação e tecnologia social produzida a partir do conhecimento da comunidade, posta em prática para ajudar famílias em regiões com baixo volume pluviométrico. Os moradores também vieram à escola, deram sugestões para aprimorar o projeto. Seguimos trabalhando para que o escoamento fique cada vez mais eficiente e não se perca nenhuma gotinha de água.

Sou professor de Química do Ensino Médio e, em 2024, começamos um projeto a partir de uma inquietação trazida pelos alunos: “Qual era o sentido da prática científica no dia a dia?”.

LUZIENE ROSA: Fiquei muito feliz com a premiação. Apresentei o projeto Alfabetização Divertida: integrando fantasia, ludicidade e evidência na sala de aula. Meus alunos são crianças em situação de vulnerabilidade social, moradoras de comunidades violentas no Rio de Janeiro e que geralmente apresentam grande dificuldade na alfabetização. As famílias não costumam promover um ambiente letrado e nem sempre entendem a importância da escola. Mas, uma vez que as crianças estão lá, saio da aprendizagem tradicional mecanizada na alfabetização e entro no mundo da fantasia delas, com um alfabeto repleto de personagens e heróis. Para apresentar a letra “B”, por exemplo, mostro o desenho da letra, explico o som, pergunto palavras que as crianças conhecem. Explico que o “B” se juntou com o “A”, fez “BA” e pergunto o que eles conhecem ou gostam de ver com “BA”. Alguém escolhe o “Batman”. E daí vamos puxando o alfabeto, a partir do que elas mesmas dizem: “C” de Capitão América, D de “Doutora Brinquedos”, que já foi “Doutora Estranha”. Tem Flash, Gato de Botas, Homem-Aranha. Imprimo os nomes dos personagens citados e fixo no mural, para dar um apoio visual. Dali vão sair os grupos silábicos. As crianças seguem sugerindo e aprendendo. E tem um dia de “lançamento” do grupo silábico que estamos vendo, quando usamos acessórios do herói/ personagem escolhido. Faço máscaras, escudo do Capitão América. E uso a fantasia mesmo, eu viro Batman. Parece brincadeira, mas é carregada de intencionalidade pedagógica. É tudo planejado antes, numa dinâmica que une diversão e emoção associadas à aprendizagem. A atenção é outra, a frequência é outra. E a família também se envolve. Toda semana envio algo para a criança ler em casa, de papéis com algumas sílabas escritas, saquinho com palavrinhas, textos, frases, um livro. Já no segundo semestre as famílias vão à escola ler algo para a turma inteira. No começo, os pais ficam com vergonha, mas aos poucos se aproximam. Alguns se sentem incentivados a voltar a estudar, inclusive, entram no programa EJA (Educação de Jovens e Adultos) à noite. É um movimento que começa na escola e chega à comunidade.

Parece brincadeira, mas é carregada de intencionalidade pedagógica. É tudo planejado antes, numa dinâmica que une diversão e emoção associadas à aprendizagem.

MARIA RAQUEL: Sabíamos que nosso trabalho era feito de muitas mãos, que tinha potencial e valia a pena tentar. E, para nossa surpresa e felicidade, conseguimos. Nosso projeto Da queiMATA ao reflorestar: mudanças climáticas, infâncias periféricas e propostas para adiar o fim do mundo foi aplicado na Creche Municipal Magdalena Arce Daou, onde sou professora de atendimento educacional especializado e trabalho com crianças com deficiências e necessidades específicas. É uma creche periférica de Manaus que fica às margens de um igarapé poluído que corta toda a cidade. Numa época de estiagem do meio do ano, uma pessoa foi até a nossa instituição e cortou os cabos de energia para furtar cobre. Entrou pelo espaço da mata ciliar e colocou fogo, causando um grande incêndio. O fogo não só arrasou a mata como teve repercussões respiratórias complicadas para nossas crianças. Reunimos as famílias e fizemos uma assembleia: era preciso recuperar nosso território. Uma das propostas foi o reflorestamento da mata destruída pelo incêndio criminoso. Fomos às casas da comunidade, convencemos as famílias a que juntassem forças conosco. Buscamos as secretarias municipais de Educação, de Meio Ambiente, de Limpeza Urbana. Conseguimos mudas, adubos, mão de obra, ajuda com logística. Fizemos passeatas contra as queimadas urbanas. Levamos a temática ambiental para o currículo trabalhado em sala com as crianças. Quando inscrevi o projeto no prêmio, havíamos plantado 300 mudas de árvores nativas. Hoje são mais de mil. O projeto continua progredindo. Criamos um pomar urbano que já dá frutos e as crianças fazem a coleta. Trouxemos artistas amazônicos para trabalhar a arte no contexto sustentável, em diferentes linguagens. Produzimos um livro no qual uma de nossas crianças, Rael, um aluno surdo, se transformava num defensor das matas e dos igarapés. Implementamos um jardim dos sentidos, em que as árvores trabalham o envolvimento sensorial das nossas crianças. Fizemos mutirões de coleta de lixo, retirando mais de oito mil garrafas PET jogadas no igarapé. Foi um movimento realmente muito bonito, com desdobramentos e resultados.

Reunimos as famílias e fizemos uma assembleia: era preciso recuperar nosso território. Uma das propostas foi o reflorestamento da mata destruída pelo incêndio criminoso.

Como é trabalhar com um perfil de alunos inseridos num mundo cada vez mais em transformação e garantir que a escola continue parte ativa da comunidade, com um papel relevante na sociedade?

ALEF: Comecei na área de educação em 2016 e, desde 2022, estou na escola pública em que trabalho no interior da Paraíba. Minhas inquietações se assemelham às dos alunos. Sempre me pergunto de que forma eles podem aplicar o conhecimento que passamos, ao mesmo tempo em que aprendo com as perguntas deles e busco novas atividades, tecnologias e estratégias que façam sentido. É muito gratificante quando não ficamos apenas no campo abstrato e podemos aproximar a ciência da realidade dos estudantes. A temática da sociobiodiversidade e das culturas vivas veio daí. E é um projeto que continua se desenvolvendo. Ainda falaremos mais sobre a cultura tradicional do cordel, que faz parte da minha pesquisa de doutorado, e em como abordar a inteligência artificial não apenas para obter respostas, mas para provocar uma discussão e problematizar as informações dadas por ela.

LUZIENE: A escola não é um espaço à parte, ela faz parte da vida dessas famílias. E esse aprendizado pode continuar mesmo depois que as crianças avançam de ano ou mudam de escola. Acompanho ex-alunos que continuam sendo crianças leitoras. Saem das telas. O hábito de leitura fica e contagia toda a família. Recebo vídeos das mães, dos pais, com as crianças comentando os livros que estão lendo. É uma leitura com compreensão, e é isso que faz valer a pena.

MARIA RAQUEL: As crianças vão crescendo, então muitas que faziam parte do projeto no começo, como o Rael, já saíram da creche. Mas logo chegam novas crianças, com outras necessidades específicas, e nosso trabalho continua. Assim como continua a parceria com as famílias que vão se agregando. Pulamos os muros da instituição e passamos, de fato, a dialogar com a comunidade. Todos fazemos parte de um mesmo processo, que é a educação. A educação que muda trajetórias e dialoga com todos os atores sociais, perpassa o muro físico e tem um impacto muito maior do que se tivesse ficado no âmbito circunscrito de uma sala de referência.

Do lado da escola, é um trabalho solitário. Há apoio institucional? Como lida com os desafios da própria educação brasileira, expressos muitas vezes na falta de amparo, incentivo e formação para os professores que vivenciam o dia a dia das salas de aula?

ALEF: Minha família é minha grande inspiração na tentativa de vencer as adversidades que aparecem. Venho de uma família de educadores: mãe, tios…, mas o precursor foi meu avô, que morava na zona rural e começou a alfabetizar os filhos antes mesmo que eles fossem para a escola. Depois, outros moradores da região que não sabiam ler começaram a ir para a casa dele aprender também. Meu avô dava aulas no alpendre, sem cobrar nada, e anos depois doou parte do próprio terreno para que a prefeitura construísse uma escola na qual minha mãe estudou, eu também, e que recebeu o nome de uma tia já falecida. Quando me lembro dessa trajetória e do que meu avô e minha família conseguiram por meio da educação, não dá para desistir. Falta apoio, incentivo, e às vezes até dinheiro para comprar material, que às vezes pago do próprio bolso. Mas acredito no poder transformador da educação, vejo o crescimento e os resultados dos estudos e acredito que é possível mudar a realidade.

Falta apoio, incentivo, e às vezes até dinheiro para comprar material, que às vezes pago do próprio bolso. Mas acredito no poder transformador da educação.

LUZIENE: Sou privilegiada nesse sentido, pois sempre tive apoio na escola em que trabalho desde 2018. Antes eu fazia as dinâmicas de alfabetização com as crianças, as fantasias, mas quieta no meu cantinho. Foi a diretora, Márcia Regina, quem me animou e convenceu a mostrar o projeto para os outros professores da escola, depois para a própria prefeitura e a coordenadoria de educação. Conseguimos recursos para que as crianças também tivessem acesso a tablets e outros materiais, como papéis e jogos para trabalhar conceitos matemáticos que são às vezes muito abstratos. A alfabetização corre em paralelo com o letramento de matemática. E temos tido uma grande divulgação e compartilhamento de boas práticas com outros professores. Quanto mais crianças beneficiadas, melhor. Nosso desempenho na alfabetização vem evoluindo e ainda ajudamos outras escolas com uma prática divertida, com as crianças sorrindo, e aprendemos junto com elas.

A alfabetização corre em paralelo com o letramento de matemática. E temos tido uma grande divulgação e compartilhamento de boas práticas com outros professores.

MARIA RAQUEL: O maior desafio, para mim, é convencer as pessoas a agir. Quando levo as questões para o coletivo, para outros educadores que trabalham comigo, preciso usar do meu convencimento. E explicar o que deveríamos fazer, como isso vai reverberar, que melhoras pode trazer. Por isso é tão importante trabalhar com parcerias intersetoriais, que fazem muita diferença na educação. Sozinhos conseguimos muito pouco ou quase nada. Muitas vezes a escola faz um trabalho solitário, mas precisa dar um primeiro passo, chegar a outros espaços, buscar parcerias. No nosso projeto, contamos também com a ajuda de universidades. A Universidade Federal do Amazonas nos deu suporte na área de agronomia, forneceu insumos de adubagem. O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Manaus, que já tinha um Jardim dos Sentidos em suas instalações, nos ajudou a replicar esse espaço na nossa escola. Partimos do convencimento para a intersetorialidade, que não é ponte, ela é base. A escola precisa de parcerias para executar suas ações.

Partimos do convencimento para a intersetorialidade, que não é ponte, ela é base. A escola precisa de parcerias para executar suas ações.

Pensando no futuro, como o prêmio da Rede CpE pode ser uma inspiração para seguir pensando a ciência e a sustentabilidade na educação? Como imagina a continuidade de sua trajetória como educador(a)?

ALEF: Temos apoio da gestão local da escola, da coordenação e direção, mas precisamos também de apoio em escala estadual. Espero que esse prêmio nos ajude a abrir portas. Pretendo continuar o desenvolvimento do projeto até quando for possível com os estudantes, crescer cada vez mais e mostrar a eles como a educação pode oferecer melhores perspectivas para o futuro de cada um.

LUZIENE: Receber o prêmio da Rede CpE não é apenas uma conquista, é a prova viva que confirma que tudo que construí, muitas vezes em silêncio, estudando, pesquisando e enfrentando os desafios de uma sala de aula tem sentido, pode romper muros, atravessar fronteiras e tocar o coração da alfabetização de tantos outros professores e alunos. Quero continuar me aprimorando e compartilhando esse projeto através de palestras, formações e consultorias para redes públicas e privadas, mostrando que é possível alfabetizar crianças no primeiro ano do ensino fundamental, juntando evidências e prática inovadora, com intencionalidade, ludicidade, fantasia, afeto e significado. A médio prazo, pretendo unir minha prática à pesquisa, realizando um mestrado em educação. Sonho em ampliar esse trabalho para alcançar cada vez mais professores, especialmente aqueles que alfabetizam crianças no primeiro ano do ensino fundamental. Contribuir para que eles tenham mais segurança, recursos e possibilidades para enfrentar as dificuldades da alfabetização, compreendendo que todas as crianças precisam de oportunidade, intencionalidade e de ensino explícito, pois aprender a ler e a escrever não é algo biológico, precisa ser ensinado de forma clara e significativa.

MARIA RAQUEL: Esperamos que o prêmio amplie nossa voz e traga mais visibilidade a um trabalho que já impacta cerca de 5 mil pessoas no território. Que ele possa ser energia para que os professores se sintam valorizados e animados a replicar essa iniciativa em outros espaços. Isso já começa a acontecer. Nosso jardim sensorial e os esforços de reflorestamento já são replicados em outras instituições. Torcemos para que possa ser uma política de governo, em creches, escolas, no espaço urbano. Do estado do Amazonas, da região Norte, queremos mostrar que isso é possível. E que ações como essas não se circunscrevam apenas a esses espaços, que elas extrapolem todos os muros possíveis. Nosso trabalho não pode parar.

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