Fernando Louzada
Neurocientista e professor da Universidade Federal do Paraná
Integrante da Rede CpE e do Comitê Editorial de Yvirá
Os episódios seguem uma estrutura semelhante: as apresentadoras Alexandra Equey e Laura Chaloub dialogam, contextualizam e comentam as falas de um(a) pesquisador(a) convidado(a).
Alexandra e Laura mostram que falar de ciência para crianças vai muito além de elencar fatos curiosos.
É possível abordar temas sérios e relevantes, conectados com o momento atual, despertando reflexões que atravessam todas as faixas etárias.
Fernando Louzada
Neurocientista e professor da Universidade Federal do Paraná
Integrante da Rede CpE e do Comitê Editorial de Yvirá
JUNHO/JULHO 2026 | nº 7 | Lançamento do Instituto Ciência Hoje, ‘Nariz de Tamanduá’ mostra como o mundo digital pode integrar a sala de aula a favor da aprendizagem
IMAGENS EXTRAÍDAS DO INSTAGRAM @NARIZDETAMANDUA
Há tempos o Brasil produz ótimos podcasts de ciência — em maior número para adultos, mas também voltados às crianças. Isso não impede que celebremos a chegada de mais uma excelente produção infantil, especialmente quando traz a chancela do Instituto Ciência Hoje, responsável há décadas pela revista Ciência Hoje das Crianças. É o caso de Nariz de Tamanduá, disponível nas principais plataformas digitais e que, no momento desta publicação, está em sua primeira temporada, com episódios cujos temas refletem a abrangência da proposta: Sono dos Bichos, A Lua, Baleias e Tartarugas, Olfação, Recifes de Coral e Nossas Raízes Africanas e ecoansiedade.
Os episódios seguem uma estrutura semelhante: as apresentadoras Alexandra Equey e Laura Chaloub dialogam, contextualizam e comentam as falas de um(a) pesquisador(a) convidado(a). Além do esforço bem-sucedido em adotar uma linguagem acessível, elas também se preocupam em explicar termos que surgem ao longo da conversa e podem soar como “grego” para as crianças, como “cromatografia gasosa”, uma técnica utilizada para identificar componentes de uma mistura. O mesmo ocorre com o tema de um dos episódios, ecoansiedade (ou ansiedade climática), termo criado para designar o medo crônico do colapso ambiental.
Os episódios seguem uma estrutura semelhante: as apresentadoras Alexandra Equey e Laura Chaloub dialogam, contextualizam e comentam as falas de um(a) pesquisador(a) convidado(a).
Após os dois primeiros episódios, com entrevistados homens, surgiu a preocupação de que o podcast pudesse reforçar a ideia de que a ciência é predominantemente masculina. Felizmente, os episódios seguintes trouxeram pesquisadoras como convidadas, restabelecendo um equilíbrio importante.
Com certeza, crianças e adultos terão interesse em ouvir curiosidades sobre o sono dos animais, o lado oculto da Lua – principalmente com a recente Missão Artemis, da NASA -, a reprodução das baleias e tartarugas, o universo dos cheiros, a importância da preservação dos recifes de coral e o rico legado da cultura africana. Além disso, percebe-se nos episódios uma bem-vinda atenção às questões ambientais, com discussões sobre mudanças climáticas e espécies ameaçadas de extinção.
Alexandra e Laura mostram que falar de ciência para crianças vai muito além de elencar fatos curiosos. É possível abordar temas sérios e relevantes, conectados com o momento atual, despertando reflexões que atravessam todas as faixas etárias.
Alexandra e Laura mostram que falar de ciência para crianças vai muito além de elencar fatos curiosos.
É possível abordar temas sérios e relevantes, conectados com o momento atual, despertando reflexões que atravessam todas as faixas etárias.
Inevitavelmente, devido à curta duração dos episódios — cerca de 15 a 20 minutos —, sentimos falta de tópicos que poderiam ser mais aprofundados. No primeiro episódio, sobre sono, o pesquisador associa sua função à economia de energia, deixando de lado outros papéis já demonstrados, ligados ao sistema imunológico e à cognição. Talvez sejam escolhas devidas à necessidade de concisão, mas o ouvinte pode concluir que a privação de sono se resume ao cansaço, quando sabemos que ela traz diversas consequências para a saúde e o desempenho cognitivo. Talvez essa opção por concisão possa servir de ponto de partida para desdobramentos nas próximas temporadas.
Nariz de Tamanduá mostra como o mundo digital pode integrar a sala de aula a favor da aprendizagem. Muitas atividades podem nascer da escuta do podcast — especialmente quando feita de forma compartilhada entre crianças e famílias, com a mediação das professoras, ampliando ainda mais as possibilidades de troca e construção de conhecimento.


