Janaina Weissheimer
Ao longo de uma vida inteira, esse exercício constante mobiliza uma reserva cognitiva que, entre outros benefícios, pode proteger o nosso cérebro do declínio cognitivo que naturalmente experienciamos ao envelhecermos.
E tem mais, o efeito foi proporcional ao número de idiomas que a pessoa falava: quanto mais línguas, mais lento o envelhecimento.
Se pesquisas como essas chegarem aos responsáveis por políticas públicas, a cultura do bilinguismo e multilinguismo poderá vir a ser mais valorizada e encorajada na nossa educação básica.
Janaina Weissheimer
Você sabia que a nossa trajetória de envelhecimento é influenciada por fatores de risco, mas também por fatores protetivos? Esses incluem alimentação saudável, atividade física regular e, mais recentemente, , também conhecido como multilinguismo.
Para entender como o multilinguismo pode desacelerar o envelhecimento, imagine que você trabalha e coloca todo mês um dinheirinho na poupança, durante toda a vida, para ter uma reserva quando se aposentar. Agora, pense que uma pessoa multilíngue faz uma poupança cognitiva, gerada a partir do exercício mental de ora ativar ora inibir línguas. Ao longo de uma vida inteira, esse exercício constante que, entre outros benefícios, pode proteger o nosso cérebro do declínio cognitivo que naturalmente experienciamos ao envelhecermos.
Um estudo recente publicado na revista mostra que pessoas multilíngues têm a metade de chances de apresentar sinais de envelhecimento cognitivo do que as pessoas que falam apenas uma língua. Esse estudo avança em relação aos anteriores em dois sentidos.
Primeiro, ele usa uma amostra de escala ampla e geograficamente diversificada, com mais de 80.000 participantes saudáveis, residentes em 27 países europeus. Isso faz com que resultados inconclusivos de estudos anteriores, com amostras reduzidas e populações que já apresentavam demência e/ou declínio cognitivo, possam ser reavaliados.
Outro avanço do estudo em questão é a metodologia de pesquisa utilizada, bastante inovadora, com uma abordagem computacional que permitiu calcular, para cada indivíduo, o que os pesquisadores denominaram lacuna de idade biocomportamental, ou seja, a diferença entre a idade cronológica – o número de anos que a pessoa já viveu – e a idade projetada – que considera fatores fisiológicos, socioeconômicos e de estilo de vida, como, por exemplo, o nível educacional.
Ao longo de uma vida inteira, esse exercício constante mobiliza uma reserva cognitiva que, entre outros benefícios, pode proteger o nosso cérebro do declínio cognitivo que naturalmente experienciamos ao envelhecermos.
Lacunas biocomportamentais
Em geral, escores maiores que zero indicavam envelhecimento rápido e, menores que zero, envelhecimento lento. Por exemplo, se um participante tinha 53 anos e uma idade projetada de 60 anos, a lacuna biocomportamental era de 7 anos, e este indivíduo estava envelhecendo rapidamente. Em seguida, os pesquisadores compararam essas lacunas biocomportamentais, de todos os participantes, com a quantidade de línguas que eles falavam.
E tem mais, o efeito foi proporcional ao número de idiomas que a pessoa falava: quanto mais línguas, mais lento o envelhecimento.
O resultado? Pessoas que falavam apenas uma língua tinham o dobro de chances de ter uma alta lacuna biocomportamental, ou seja, de envelhecer mais rápido. E tem mais, o efeito foi proporcional ao número de idiomas que a pessoa falava: quanto mais línguas, mais lento o envelhecimento.
Sabemos que, na Europa, fronteiras mais próximas e uma cultura de movimentos migratórios fizeram do multilinguismo norma e não exceção. O Brasil, por outro lado, é um país de dimensões continentais e essencialmente monolíngue. Embora haja mais de 200 línguas convivendo diariamente no país, entre idiomas de povos originários, de fronteiras e de imigração, são só duas as línguas oficiais, o português brasileiro e a língua brasileira de sinais. Portanto, é preciso ter cautela ao extrapolar os achados do estudo mencionado ao contexto brasileiro.
Políticas públicas
Ainda assim, o estudo traz reflexões importantes sobre a situação brasileira. Se pesquisas como essas chegarem aos responsáveis por políticas públicas, a cultura do bilinguismo e multilinguismo poderá vir a ser mais valorizada e encorajada na nossa educação básica. Na verdade, há precedente.
O Conselho Nacional de Educação (CNE) emitiu em 2020 o Parecer CNE/CEB nº 02/2020, que aborda as , fornecendo orientações claras sobre a inclusão e a promoção de práticas bilíngues e plurilíngues no sistema educacional brasileiro.
A importância e urgência na homologação deste parecer reside na sua capacidade de oferecer um marco regulatório que facilite a implementação de práticas pedagógicas que valorizam a nossa diversidade linguística e cultural.
A longo prazo, com políticas públicas que regulamentem o acesso ao plurilinguismo, poderemos promover trajetórias de envelhecimento mais saudáveis, em que a população idosa tenha uma vida funcional mais longa e com menos sintomas cognitivos associados a doenças neurodegenerativas.
Além disso, a nível educacional, poderemos dar um importante passo para garantir oportunidades de aprendizagem equitativas e inclusivas, propostas pela da UNESCO, que incluem uma sociedade que trata falantes de outras línguas, sejam elas majoritárias ou minoritárias, com mais respeito e equanimidade.
Se pesquisas como essas chegarem aos responsáveis por políticas públicas, a cultura do bilinguismo e multilinguismo poderá vir a ser mais valorizada e encorajada na nossa educação básica.


