Sonia Maria Guedes Gondim
Sonia Maria Guedes Gondim
Sonia Maria Guedes Gondim
O desenvolvimento de um repertório de competências socioemocionais (CSE) faz parte de nosso processo de socialização para lidar com as diversas esferas de vida, tanto a pessoal quanto a profissional.
Todos testemunhamos com frequência o crescimento de manifestações de intimidação verbal e agressão física contra docentes e o ambiente escolar.
Identificar e entender como as emoções se manifestam nos comportamentos são cruciais para a prática pedagógica eficaz.
Sonia Maria Guedes Gondim
Seria um desafio pensar em uma vida sem emoções. Provavelmente, nossa espécie não teria sobrevivido ao longo de todo o processo de desenvolvimento humano. As emoções cumprem diversas funções vitais: servem à expressão de estados internos, comunicando aos demais o que estamos sentindo, contribuem para o funcionamento de processos cognitivos básicos (aprendizagem, memória, pensamento, criatividade etc.) e zelam pela qualidade de nossas interações sociais, além de assegurar rapidez nas respostas adaptativas aos estímulos internos ou do ambiente que nos colocam em risco. Mas como lidar com demandas emocionais na sala de aula?
As manifestações emocionais podem ser de dois tipos. Os apetites e as paixões, que compõem o primeiro tipo, mostram-se instáveis e intensos, sendo bastante desafiadores para se lidar no dia a dia. Os afetos ou sentimentos, segundo tipo, são mais estáveis e tendem a perdurar, relacionados aos processamentos cognitivos, especialmente o pensamento e a autorreflexão.
Ao considerar que somos seres sociais e reagimos ao ambiente em que estamos inseridos, a qualidade de vida e o nosso bem-estar associam-se a como manejamos eventos emocionais que se apresentam no nosso cotidiano pessoal e profissional. O desenvolvimento de um repertório de competências socioemocionais (CSE) faz parte de nosso processo de socialização para lidar com as diversas esferas de vida, tanto a pessoal quanto a profissional.
Interações e regulação de emoções no ambiente escolar
A educação básica tem como finalidade central desenvolver pessoas, promovendo a formação integral do alunado. Apesar de ainda pouco valorizada em comparação com a docência de nível de ensino superior, a docência no ensino básico é muito mais complexa. Além de promover aprendizagens centrais para o desenvolvimento cognitivo e emocional, o docente de ensino básico apresenta-se como um modelo de adulto, no qual a criança se espelha para orientar suas ações, e em particular para formar padrões atitudinais e comportamentais de sociabilidade, cujos alicerces se apoiam em fortes vínculos afetivos com os alunos. Isso, entretanto, está se tornando um desafio cotidiano.
Todos testemunhamos com frequência o crescimento de manifestações de intimidação verbal e agressão física contra docentes e o ambiente escolar. O aponta para o aumento assustador de casos de violência extrema, incluindo o uso de armas de fogo em diversas escolas por todo o país. Alerta ainda que, apenas em 2023, houve registro de 13.117 vítimas de violência interpessoal nas escolas brasileiras. No período de 2013 a 2023, o número total de vítimas atingiu o patamar de mais de 60 mil, sendo cerca de 9 mil vítimas de violência autoprovocada (atos contra a própria pessoa, como tentativas de suicídio, automutilações etc.). Estes últimos cresceram de maneira alarmante nesse período, saltando 900 %.
A influência das competências socioemocionais nas práticas pedagógicas
Competências socioemocionais de docentes podem ser definidas como “ resultantes da articulação de um amplo conjunto de conhecimentos, habilidades e motivações para lidar apropriadamente com demandas emocionais e sociais inerentes às relações docente-aluno, aluno-docente e aluno-aluno no contexto da sala de aula”.
O desenvolvimento de um repertório de competências socioemocionais (CSE) faz parte de nosso processo de socialização para lidar com as diversas esferas de vida, tanto a pessoal quanto a profissional.
As CSE apoiam-se em quatro dimensões: (i) atitudes positivas diante dos desafios da aprendizagem e do próprio processo regulatório, (ii) consciência emocional de estados afetivos do próprio docente e de seus alunos, (iii) capacidade de manifestar sociabilidade, potencializando os ganhos nas interações, e (iv) maior percepção de autonomia para a autorregulação.
A regulação emocional é uma dimensão importante na atividade docente, pois assegura o melhor uso de estratégias para lidar com acontecimentos na sala de aula. A regulação emocional atende tanto a razões hedônicas (prazer) quanto instrumentais (atingir um objetivo). Esses objetivos instrumentais, no caso da atividade docente, encontram-se atrelados a ajudar os alunos a gerenciarem melhor as suas próprias emoções.
Identificar e entender como as emoções se manifestam nos comportamentos são cruciais para a prática pedagógica eficaz. As emoções dos docentes repercutem no ambiente de sala de aula, e ter autoconsciência dos estados afetivos contribui para prevenir o acirramento de tensões, além de favorecer o uso de estratégias pedagógicas mais pertinentes para lidar com as situações de aprendizagem geradoras de ansiedade. Emoções positivas de docentes podem elevar o engajamento e a motivação dos alunos, contribuindo para a melhoria de seu desempenho.
Os processos regulatórios, fundamentais na expressão de CSE, são uma resposta às demandas emocionais da vida em todas as suas esferas. A crença de que as emoções são boas ou más e se são controláveis ou não se mostra implicada nas atitudes e nos comportamentos relacionados às demandas emocionais cotidianas, especialmente no trabalho. A crença de que as emoções podem ser controladas melhora a saúde psíquica, assim como a crença de que as emoções são ruins nos leva a tolerar pouco o estresse, aumentando os riscos de adoecimento psíquico.
Assim, na natureza as emoções respondem a uma dupla necessidade de adaptação: de modo automático, preservando a espécie, e de modo controlado, ampliando o alcance do domínio regulatório ante situações imprevistas. O modo controlado é o responsável pela aprendizagem das competências socioemocionais. Aprender a usar a melhor estratégia para lidar com cada situação exige capacidade de compreensão da demanda emocional de contexto e flexibilidade mental para decidir.
Todos testemunhamos com frequência o crescimento de manifestações de intimidação verbal e agressão física contra docentes e o ambiente escolar.
Aceitar estados afetivos desconfortáveis é também fundamental. Pessoas que aceitam seus pensamentos e emoções negativas, sem desgastar-se lutando insistentemente contra eles, respondem menos negativamente aos estressores. Aceitar um estado emocional negativo não se confunde com aceitação da situação. A rigor, a autoconsciência e autoaceitação de estados desconfortáveis provisoriamente contribuem para assegurar escolhas futuras mais adaptativas. O meio ambiente e o processo de socialização desenham o repertório emocional, o que abre espaço para novos aprendizados que constituem o background profissional. Diferenças individuais, como experiência e maturidade do docente, também têm efeitos nas CSE.
A melhoria de nossa capacidade de lidar com as emoções pessoais e alheias pode nos ajudar a preservar o nosso bem-estar, a nossa saúde psíquica e melhorar as relações com os outros e com o mundo. É um requisito essencial no exercício profissional de educadores.
A qualidade do conteúdo é outro importante componente a ser observado. A exposição a conteúdos adultos, violentos ou não apropriados à idade das crianças foi associada a problemas cognitivos, comportamentais e emocionais desde os primeiros anos do desenvolvimento.
Conteúdos violentos, mesmo em videogames “divertidos”, podem dessensibilizar as crianças à violência e aumentar comportamentos agressivos, ansiedade e medo, com alterações em circuitos cerebrais relacionados à regulação do comportamento.
Diretrizes para o uso de mídias digitais protegendo a saúde das crianças são recomendadas e precisam ser seguidas. Hoje se sabe que os efeitos do uso inadequado de telas não se restringem à primeira infância. Na segunda infância e na adolescência, observou-se associação entre maior tempo de uso de telas e problemas de saúde mental e de desempenho acadêmico, sintomas depressivos, bullying e cyberbullying.
Identificar e entender como as emoções se manifestam nos comportamentos são cruciais para a prática pedagógica eficaz.
Papel da família e estratégias alternativas
No entanto, o uso mediado por adultos com supervisão e orientação, equilibrado e com qualidade das tecnologias digitais, pode oferecer alguns benefícios. Interações por videochamadas com familiares, conteúdos educativos adequados à idade das crianças e aplicativos interativos mediados por adultos podem favorecer a linguagem, alfabetização inicial e funções executivas.
No contexto educacional, intervenções pedagógicas bem estruturadas com uso de tecnologia, conduzidas por professores qualificados, podem favorecer aprendizagens específicas, como matemática e leitura. Tecnologias assistivas também promovem a inclusão de crianças com necessidades educativas especiais.
A parentalidade positiva é um fator central de proteção ao desenvolvimento das crianças. Pais, mães e cuidadores devem mediar o uso de telas, monitorar o tempo de exposição, selecionar conteúdos apropriados, assistir junto às crianças e modelar comportamentos saudáveis.
Pessoas que aceitam seus pensamentos e emoções negativas, sem desgastar-se lutando insistentemente contra eles, respondem menos negativamente aos estressores.
O uso excessivo de telas pelos próprios adultos pode interromper interações afetivas e prejudicar o desenvolvimento socioemocional infantil. O uso de telas como estratégia para acalmar crianças compromete exatamente o desenvolvimento da autorregulação emocional e comportamental que é um processo que se dá na fase da primeira infância.
Destaca-se ainda o fenômeno negativo do sharenting, uma junção dos termos em inglês share (compartilhar) e parenting (cuidado parental) para definir a ação dos pais que expõem crianças nas redes, com riscos à sua privacidade, identidade e segurança digital, exigindo reflexão ética e responsabilidade parental.
Na primeira infância, deve-se estimular atividades tais como o brincar livremente, leitura compartilhada, contação de histórias, atividades ao ar livre, esportes e contato com a natureza, que são fundamentais para o desenvolvimento infantil. O brincar, especialmente o faz-de-conta, promove funções executivas, linguagem, criatividade e habilidades sociais. O uso de telas restringe o acesso às atividades que são estimuladoras do desenvolvimento das crianças, que são brincar e interagir socialmente.
Leis, guias e políticas públicas
O Brasil possui um robusto arcabouço legal de proteção à infância, incluindo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Marco Legal da Primeira Infância, a Lei Geral de Proteção de Dados, legislações contra o cyberbullying e normas de regulação do uso de celulares nas escolas.
Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria, da Organização Mundial da Saúde e de outras associações e organizações nacionais e internacionais recomendam evitar telas antes dos dois anos, limitar o tempo de uso nas idades subsequentes e priorizar a mediação adulta. Destaca-se o Guia sobre uso de dispositivos digitais para crianças e adolescentes, produzido pelo Governo do Brasil. Recentemente, avanços consideráveis foram realizados com o ECA Digital, que propõe a regulação efetiva das plataformas digitais e estratégias de monitoramento e controle protetivo às crianças e adolescentes.
O principal foco de ação deve ser na criação de políticas públicas efetivas com abordagens intersetoriais baseadas em evidências, promovendo educação digital, proteção de direitos, formação de profissionais, campanhas de conscientização e criação de espaços seguros e comunitários para as crianças brincarem.
Proteger a primeira infância frente aos desafios da era digital é um imperativo humano, ético e social para a garantia dos direitos das crianças. O uso consciente, mediado e equilibrado das tecnologias, aliado à valorização das interações presenciais e do brincar, constitui a estratégia mais eficaz para promover um desenvolvimento saudável. A primeira infância é uma fase que se leva para a vida toda. Portanto, investir na primeira infância equivale a uma “vacina” para o desenvolvimento humano, com benefícios duradouros para indivíduos e para a sociedade. A leitura completa do material para o NCPI que embasa essa conclusões está disponível neste link.
O principal foco de ação deve ser na criação de políticas públicas efetivas com abordagens intersetoriais baseadas em evidências, promovendo educação digital, proteção de direitos, formação de profissionais, campanhas de conscientização e criação de espaços seguros e comunitários para as crianças brincarem.


