Elisa Martins
Jornalista, especial para a Yvirá
Os professores precisam integrar a elite dos profissionais brasileiros.
Entendemos que a formação de professores exige não a presencialidade de forma genérica, mas interação e colaboração, numa forte integração entre teoria e prática.
O país padece muito da descontinuidade das políticas educacionais. Não quer dizer que mudanças ou aperfeiçoamentos não sejam necessários. Mas que isso seja feito com o devido respeito às políticas em desenvolvimento, para que elas não sejam simplesmente eliminadas porque alguém ganhou a eleição.
A linha que seguimos é que a utilização dos recursos tecnológicos, inclusive da IA, seja sempre feita de maneira ética, responsável, com intencionalidade pedagógica e jamais no sentido de substituir o humano, seja ele professor ou estudante.
Elisa Martins
Jornalista, especial para a Yvirá
AGOSTO/SETEMBRO 2026 | nº 8 | Presidente do Conselho Nacional de Educação César Callegari defende formação de nova geração de professores e fim da descontinuidade de políticas educacionais atrelada a ciclos eleitorais FOTO: ARQUIVO PESSOAL
Principal órgão normativo do sistema educacional brasileiro, o Conselho Nacional de Educação (CNE), ligado ao Ministério da Educação (MEC), produz as orientações infralegais que organizam o sistema educacional. Com a aprovação do Sistema Nacional de Educação, no fim do ano passado, sua responsabilidade aumentou. O CNE passa a presidir o Fórum dos Conselhos, integrado por representantes dos conselhos estaduais e conselhos municipais de educação, na tarefa de traçar uma pauta estratégica dos temas educacionais que demandam recomendações normativas – uma missão que ganha ainda mais força em ano eleitoral.
Em entrevista à YVIRÁ, o sociólogo, educador e presidente do CNE César Callegari debate os desafios do órgão e do país, como um todo, para transformar a variedade de diagnósticos produzidos sobre a educação brasileira em avanços concretos. E sugere as prioridades e metas educacionais que políticos e candidatos deveriam ter, independentemente do resultado das urnas e da duração dos mandatos. Confira.
Quais seriam, na sua visão, as três grandes prioridades para a educação brasileira nos próximos anos, independentemente do resultado eleitoral?
CC: Difícil enumerar apenas três. Mas, se olharmos da creche à pós-graduação, as metas de educação só poderão ser cumpridas e implementadas de fato quando tivermos profissionais qualificados, apoiados com uma estrutura de carreira que os valorize, com remuneração adequada. A primeira prioridade deveria ser construir uma nova geração de professores no Brasil. Isso não quer dizer negligenciar os 2.300.000 professores que atuam na educação básica. Mas precisamos avançar muito na formação continuada, no fortalecimento da carreira, das condições de trabalho, do desenvolvimento nas escolas e da remuneração. O trabalho com os professores que já estão atuando é muito importante, mas além disso, precisamos de uma decisão de natureza política e estratégica de formar uma nova geração de professores. Precisamos de um currículo de formação avançado que responda aos desafios do século 21 e ao que já se projeta em desafios econômicos, sociais, climáticos e culturais para os próximos anos. Por isso defendo que a formação de professores deve acontecer em período integral, e de maneira presencial, durante quatro anos, com bolsas de permanência, para garantir que se dediquem à atividade formativa. Articulado a isso, é preciso criar um marco referencial da carreira docente que valorize não apenas tempo e título, como acontece, mas principalmente que valorize a atividade criativa de desenvolvimento inovador tão necessária para todos os profissionais, e em especial para os profissionais de educação. Somaria ainda uma remuneração que atraia os melhores entre os melhores para o magistério. Tem que ser assim, os professores precisam integrar a elite dos profissionais brasileiros.
Os professores precisam integrar a elite dos profissionais brasileiros.
A qualidade de formação docente tem relação com a qualidade do ensino aos alunos. Como a modalidade remota de capacitação de professores deve ser equilibrada com a carga presencial?
CC: Acabamos de aprovar as novas diretrizes de formação inicial de professores no Brasil. Produzimos avanços, e o principal é a proibição veemente de que a formação inicial de professores seja feita 100% à distância, como vem acontecendo em larga escala no nosso país. Entendemos que a formação de professores exige não a presencialidade de forma genérica, mas interação e colaboração, numa forte integração entre teoria e prática. Claro que se deve considerar que muitas pessoas que desejam ser professoras são trabalhadoras, possuem outras atividades em sua jornada diária ou moram em locais distantes. Daí a admissão de que parte da carga horária de formação seja feita de maneira remota. Mas avançando para que nesse remoto tenhamos o que chamamos de síncrono mediado, ou seja, mesmo que estudantes e professores não estejam no mesmo espaço físico, eles podem estar juntos de forma remota, com a mediação de um profissional da educação. A ciência da educação mostra e demonstra que aprendemos quando criamos. Aprendemos muito mais quando fazemos isso de uma maneira colaborativa. Não se trata apenas de fornecer conteúdo. Evidentemente há algumas partes da formação de um professor que envolvem mais a leitura de textos e podem ser feitas de maneira individual e assíncrona. Mas isso não pode acontecer em larga escala. Não é possível formar um professor 100% em EAD.
Entendemos que a formação de professores exige não a presencialidade de forma genérica, mas interação e colaboração, numa forte integração entre teoria e prática.
O país produz muitos diagnósticos sobre os maiores gargalos da educação brasileira. O que ainda impede que esses diagnósticos se transformem em soluções e avanços concretos?
CC: Temos de fato muitas informações produzidas sobre educação no Brasil, e elas embasam o próprio Plano Nacional de Educação. Temos muito conhecimento acumulado também, seja nas universidades, nas instituições e principalmente nas próprias escolas, que precisa ser mobilizado. O que falta é uma decisão política e estratégica. O Plano Nacional de Educação contribui para uma política estratégica, mas há um processo de decisão que precisa ser estabelecido, acompanhado e implementado com forte participação não apenas dos integrantes do campo educacional, mas de toda a sociedade. Os dados da educação básica brasileira são alarmantes. Mais de um terço das crianças chegam ao final do ciclo de alfabetização sem que estejam alfabetizadas. E os resultados disso na progressão educacional de uma criança já são conhecidos. Ela terá dificuldades crescentes ao longo da sua trajetória educacional e da própria vida se não for alfabetizada quando tem o direito de estar alfabetizada. No que se refere ao final da educação básica, apenas 5% dos jovens que concluem o Ensino Médio no Brasil têm proficiência elementar em matemática. É uma catástrofe que repercute em outros níveis de educação, como é o caso da educação superior. Há uma evasão de 80% dos estudantes que ingressam nos cursos de engenharia porque não conseguem acompanhar. Afinal, já na estreia das disciplinas no curso vem a de Cálculo. Todos esses são dados que implicam em providências fundamentais. Uma delas é a que falamos, das diretrizes gerais de formação inicial de professores. Além disso, no seu planejamento estratégico, o Conselho Nacional de Educação estabelece que a partir dessas diretrizes gerais de formação inicial vamos lidar e trabalhar com uma atualização em profundidade das diretrizes específicas de cada uma das licenciaturas, começando por matemática e pedagogia. Professores de licenciatura em pedagogia são os professores alfabetizadores. Se na formação inicial eles não recebem os conhecimentos não apenas de conteúdo, mas de métodos e técnicas para alfabetização dificilmente conseguirão alfabetizar uma criança. O mesmo se aplica aos professores que ministram disciplinas específicas, como matemática. Sem aprender na formação o que ensinar e como ensinar matemática, os alunos não conseguirão atingir o objetivo de aprendizagem. Voltamos, então, à prioridade número 1, que deveria ser formar uma nova geração de professores, sem descuidar da valorização e do apoio aos que já estão em atividade na rede de educação básica.
Para que isso tudo também seja possível, é importante falar em políticas públicas para a educação, tema que sempre surge nas campanhas eleitorais. Quais compromissos e propostas educacionais o senhor considera indispensáveis para qualquer candidato que pretenda governar o país?
CC: O primeiro compromisso é zelar pelos objetivos e metas estratégicas já estabelecidos nos planos de educação, seja o nacional ou os estaduais e municipais. O segundo deveria ser escapar do complexo de Penélope, aquela figura mitológica que à noite desfazia o tecido que produzia durante o dia à espera de que seu companheiro voltasse da guerra. Isso significa analisar cuidadosamente as políticas que já estão em curso no município ou estado do candidato, e mesmo do país, e avaliá-las com respeito, porque foram todas produzidas com recursos públicos, pela sociedade brasileira, e não se desfazer delas só por assumir um novo cargo. O país padece muito da descontinuidade das políticas educacionais. Não quer dizer que mudanças ou aperfeiçoamentos não sejam necessários. Mas que isso seja feito com o devido respeito às políticas em desenvolvimento, para que elas não sejam simplesmente eliminadas porque alguém ganhou a eleição. Escapar do complexo de Penélope é uma atitude responsável de qualquer gestor público e parlamentar, que deve ser muito cuidadoso em suas proposições legislativas em relação ao que o país vem fazendo ao longo de anos. Há muitos acordos internacionais, inclusive, dos quais o Brasil é signatário, e que devem ser respeitados. É preciso ainda que se integre a educação infantil como uma política para a primeira infância, envolvendo também a área da saúde, da promoção e assistência social, segurança, segurança alimentar. Essas políticas que muitas vezes são distribuídas em diferentes ministérios e secretarias precisam estar integradas.
O país padece muito da descontinuidade das políticas educacionais. Não quer dizer que mudanças ou aperfeiçoamentos não sejam necessários. Mas que isso seja feito com o devido respeito às políticas em desenvolvimento, para que elas não sejam simplesmente eliminadas porque alguém ganhou a eleição.
O uso de inteligência artificial na educação é um tema que tem mobilizado toda a comunidade escolar. Como o CNE aborda essa questão, e que ações foram desenvolvidas nos últimos meses em relação ao tema?
CC: Estamos para aprovar no CNE as diretrizes sobre o uso de inteligência artificial no ambiente educacional , não apenas na educação básica, mas também na educação superior. A linha que seguimos é que a utilização dos recursos tecnológicos, inclusive da IA, seja sempre feita de maneira ética, responsável, com intencionalidade pedagógica e jamais no sentido de substituir o humano, seja ele professor ou estudante. O fundamental é que nas atividades educacionais propriamente ditas o uso da IA e de outras tecnologias educacionais mais recentes sempre favoreça a formação de uma visão crítica. Queremos formar bons perguntadores, bons questionadores. Isso favorece a presença humana e faz com que essas tecnologias estejam a serviço da educação e do desenvolvimento, e que não sejam elas as que nos comandam. Nós devemos ser os pilotos.
A linha que seguimos é que a utilização dos recursos tecnológicos, inclusive da IA, seja sempre feita de maneira ética, responsável, com intencionalidade pedagógica e jamais no sentido de substituir o humano, seja ele professor ou estudante.
Considerando o trabalho do CNE ao longo dos anos e os desafios do país na educação, como o Brasil pode melhorar o acesso à escola e garantir um melhor aprendizado, pensando no futuro dos estudantes brasileiros?
CC: Os formuladores de políticas públicas têm que ter consciência profunda de que, nesse instante, estamos produzindo uma geração que estará em atividade no século 22. Essa visão de futuro precisa estar muito presente, seja do ponto de vista do Executivo ou do Legislativo. Não é possível mais olhar para trás. Temos um estoque de divisas educacionais imenso a superar, mas, ao mesmo tempo, também o grande desafio de investir mais e melhor na educação. Trata-se, afinal, do futuro de um presente que já é muito desafiador. A crise climática vai deslocar milhões de humanos de seu habitat, produzindo emergências alimentares, habitacionais e de segurança ainda maiores. As novas tecnologias eliminarão milhares de profissões e criarão outras milhares. Os regimes democráticos estão em risco, o que exige maiores esforços para a formação de uma cidadania global. Tudo isso requer fortes investimentos educacionais que promovam a civilização contra a barbárie.


