Como assim?
Perguntas que inquietam os docentes
AGOSTO/SETEMBRO 2026 | nº 8 | Nesta seção, especialistas convidados por YVIRÁ respondem a perguntas enviadas por professores que integram a Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE) como “Amigos da Rede”.
Para esta edição, Daniel Domingues dos Santos, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEA-RP/USP), mergulha num desafio tão conhecido quanto persistente quando falamos de ciência na educação. Afinal, como conciliar o rigor metodológico acadêmico e o desenvolvimento de pesquisas relevantes do ponto de vista social, pensando efetivamente nas escolas?
IMAGEM: ADOBESTOCK
Teoria, prática e AngryBirds
“Como equilibrar o rigor metodológico da pesquisa acadêmica com a complexidade e variabilidade do ambiente escolar, evitando que estudos excessivamente controlados se tornem distantes da prática docente?”
Enviada por Virgínia Baptista Chaves Duarte de Lima, educadora/ fundadora da Glia Neurociência Educacional, neurocientista e professora da educação básica, Rio de Janeiro/RJ
Daniel Domingues dos Santos
Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEA-RP/USP)
Aprender a ler, por exemplo, exige aprender a decodificar, o que significa conseguir percorrer um texto de forma fluente sem muito esforço para unir letras em sílabas, sílabas em palavras e palavras em sentenças. É inegável que este seja um dos objetivos da educação, mas não o único.
A grande dificuldade está em fazer pesquisa relevante do ponto de vista social e rigorosa do ponto de vista acadêmico com aspectos do processo educacional nos quais a especificidade do contexto importa muito, e a replicabilidade (ou validade externa) de conclusões obtidas em outros contextos é baixa.
Daniel Domingues dos Santos
Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEA-RP/USP)
Excelente pergunta, e que me permite discutir um pouco até onde acredito que podemos fazer ciência na educação. Primeiramente veja que, para muita gente, aprender significa desenvolver habilidades até o ponto no qual o indivíduo consiga realizar novas tarefas com elevada precisão e pouco dispêndio de energia. Aprender a ler, por exemplo, exige aprender a decodificar, o que significa conseguir percorrer um texto de forma fluente sem muito esforço para unir letras em sílabas, sílabas em palavras e palavras em sentenças. É inegável que este seja um dos objetivos da educação, mas não o único. É igualmente importante conseguir fazer uso destas habilidades para obter vantagens no contexto em que se vive.
Aprender a ler, por exemplo, exige aprender a decodificar, o que significa conseguir percorrer um texto de forma fluente sem muito esforço para unir letras em sílabas, sílabas em palavras e palavras em sentenças. É inegável que este seja um dos objetivos da educação, mas não o único.
Continuando o exemplo da alfabetização, de nada adianta automatizar a leitura sem entender o texto nas circunstâncias em que se apresenta. A primeira parte (desenvolvimento e automatização de habilidades) muitas vezes é necessária em diferentes culturas e ocorre em estágio semelhante do processo de aprendizagem. Estas características se ajustam melhor ao método científico, que envolve formulação de perguntas (ex: como um ser humano aprende?); elaboração de hipóteses (ex: determinada estratégia pedagógica é mais eficaz do que outras…); experimentação (estratégia empírica para testar a hipótese proposta), e replicação (se esta hipótese for de fato verdadeira, deveria ser também validada em outros contextos).
Cautela no uso da evidência científica
Neste campo, a pesquisa consegue seguir com maior rigor e levar implicações ainda assim relevantes para a prática em sala de aula. A grande dificuldade está em fazer pesquisa relevante do ponto de vista social e rigorosa do ponto de vista acadêmico com aspectos do processo educacional nos quais a especificidade do contexto importa muito, e a replicabilidade (ou validade externa) de conclusões obtidas em outros contextos é baixa.
A grande dificuldade está em fazer pesquisa relevante do ponto de vista social e rigorosa do ponto de vista acadêmico com aspectos do processo educacional nos quais a especificidade do contexto importa muito, e a replicabilidade (ou validade externa) de conclusões obtidas em outros contextos é baixa.
Nestes casos, o uso da evidência científica deve ser feito com mais cautela, o que remete a uma famosa polêmica recente: os nobelistas Angus Deaton e Esther Duflo (ver mais aqui e Angry Birds Economics). Seguindo o argumento de Deaton, com o qual concordo, devemos utilizar a evidência científica assim como usamos nosso conhecimento de física no jogo Angry Birds, no qual o objetivo é acertar um pássaro com um tiro de estilingue.
Sabemos que o posicionamento da arma e a tensão colocada no elástico determinam a trajetória da pedra, mas não temos a fórmula exata na tela naquele contexto, e por isso vamos ajustando o tiro por aproximações até o sucesso. Ou seja, o uso de experiências cientificamente documentadas deve ser adaptado ao contexto por sucessivas aproximações, e respeitando características culturais e institucionais. Já na perspectiva da produção da evidência, penso que se pudermos ser rigorosos, tanto melhor.


