Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
JUNHO/JULHO 2026 | nº7
O que virá? REPORTAGEM

O poder dos clubes de leitura

Elisa Martins
Jornalista, especial para Yvirá

Giselle Soares
Jornalista, Rede CpE

Assim como a própria leitura, os clubes vão na contramão dessa pressa dos tempos modernos. Eles exercitam o pensamento crítico, a atenção plena no presente e valorizam as impressões de todos.

Além de ser a alma de bairros periféricos, os clubes de leitura trazem não só uma discussão da estética da literatura, mas também a capacidade de imaginação, de criação de outros mundos, resolução de problemas, mediação de conflitos e engajamento coletivo.

Na sala de aula, o clube de leitura colabora para que a turma vivencie uma metodologia menos hierarquizada. Os estudantes se envolvem com o conteúdo e se sentem motivados a participar das discussões e opinar.

Os encontros acontecem na biblioteca da escola, num momento que fortalece vínculos afetivos, estimula o desenvolvimento integral das crianças e semeia o prazer pelo livro e pela leitura, para além das obrigações escolares.

Elisa Martins
Jornalista, especial para Yvirá

Giselle Soares
Jornalista, Rede CpE

AGOSTO/SETEMBRO 2026 | nº 8 | Espaços de literatura e debate fortalecem vínculos afetivos, estimulam o desenvolvimento e a aprendizagem e semeiam o prazer pelo livro

Espaços valiosos de leitura e debate de obras literárias, os clubes de leitura se popularizaram no Brasil a partir dos anos 2000, contra a corrente de fechamento de livrarias, e se expandiram principalmente com a pandemia, reforçando a necessidade de socialização, trocas e convivência, mesmo que em plataformas online. Hoje, os clubes de leitura são também faróis de resistência e atenção para movimentos de mulheres, LGBT+, negros e indígenas. Ao mesmo tempo, mostram-se relevantes no ambiente escolar, onde trazem benefícios tanto para alunos quanto para professores.

“A leitura é uma atividade solitária e nisso reside uma de suas magias. No entanto, digerimos melhor o que lemos quando falamos sobre isso. E os clubes dão essa oportunidade. Eles juntam pessoas que leram e se interessaram pela mesma obra e podem trocar ideias sobre ela e outros interesses similares. É um momento de troca de percepções e de sentimentos, que acaba também sendo muito terapêutico”, afirma Ana Carolina Teixeira Pinto, professora de Literatura Hispânica, coordenadora adjunta do Curso de Licenciatura em Letras: Português e Espanhol, da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS – Campus Realeza) e uma das coordenadoras do projeto Leia Mulheres – Realeza, clube de leitura com encontros mensais sobre obras escritas por mulheres surgido em 2019, a partir do movimento Me Too, de combate à violência de gênero.

Nos clubes de leitura não há hierarquia, e todos têm seu momento de fala, organizado por um mediador ou mediadora que levanta diferentes questões sobre a obra e cuida para que todos possam comentar. “Assim como a própria leitura, os clubes vão na contramão dessa pressa dos tempos modernos. Eles exercitam o pensamento crítico, a atenção plena no presente e valorizam as impressões de todos”, diz a professora Ana Carolina Teixeira Pinto.

Assim como a própria leitura, os clubes vão na contramão dessa pressa dos tempos modernos. Eles exercitam o pensamento crítico, a atenção plena no presente e valorizam as impressões de todos.

O aumento dos clubes de leitura – e consequentemente dos leitores e leitoras – têm também relação com um trabalho comunitário crescente no Brasil, diz a professora da Universidade Estadual do Ceará (UECE) Claudiana Alencar, mediadora de leitura em bibliotecas de iniciativa popular e coordenadora do Programa “Viva a Palavra: circuito de linguagem, paz e resistência da juventude negra da periferia de Fortaleza”.

“Produtores culturais, mediadores e mediadoras de leitura têm enfrentado um grande desafio em bairros com grandes vulnerabilidades, mas têm aberto suas casas e construído espaços de leitura, modificando o que seriam territórios marcados pela violência, como favelas, periferias e subúrbios. Esses territórios estão sendo ocupados pelas juventudes, pelas mulheres, pela população indígena e pela população negra, numa verdadeira mudança cultural”, conta Claudiana Alencar.

A mudança começou nos anos 2000, diz, com a ascensão de saraus como lugares de encontros nas periferias. “Nesses saraus começa a haver um estímulo para os letramentos de resistência, como chamados pela professora Ana Lúcia Silva Souza, da Universidade Federal da Bahia, puxados pelos movimentos juvenis, organizados em coletivos”, diz Claudiana, que também estuda grupos formados por mulheres e é integrante da “Coletiva Elaspoemas: escritas periféricas”. “Os clubes de leitura crescem nessa profusão de espaços de esperança nas periferias”.

Além de ser “a alma de bairros periféricos”, diz a professora, os clubes de leitura trazem não só uma discussão da estética da literatura, mas também a capacidade de imaginação, de criação de outros mundos, resolução de problemas, mediação de conflitos e engajamento coletivo: “É um microfone aberto, como uma tribuna popular nas periferias”.

Além de ser a alma de bairros periféricos, os clubes de leitura trazem não só uma discussão da estética da literatura, mas também a capacidade de imaginação, de criação de outros mundos, resolução de problemas, mediação de conflitos e engajamento coletivo.

Integração com a sala de aula

Nas salas de aula, os clubes de leitura reforçam o empoderamento de trajetórias e se integram ao processo de ensino-aprendizagem. “Foi uma forma diferente de motivar os alunos com um clube dentro da universidade, com leituras em espanhol, num debate horizontalizado. Os alunos entendem que eles também podem ter suas próprias interpretações e vivências. Nos surpreendemos positivamente com as ideias dos outros, aprendemos juntos. E eles levam isso adiante depois, com os alunos deles”, diz a professora Ana Carolina Teixeira Pinto, também coordenadora de um clube de leitura na universidade sobre obras em espanhol, chamado “Libros com té” (Livros com chá, em português).

Para a professora, o clube de leitura em sala de aula colabora para que a turma vivencie uma metodologia menos hierarquizada. Os estudantes se envolvem com o conteúdo e se sentem motivados a participar das discussões e opinar – numa conversa humana, sem espaço para consultas à inteligência artificial.

Na sala de aula, o clube de leitura colabora para que a turma vivencie uma metodologia menos hierarquizada. Os estudantes se envolvem com o conteúdo e se sentem motivados a participar das discussões e opinar.

“Quanto mais novos os alunos começarem com uma atividade de clube de leitura, mais vão se desenvolver. Trata-se de ir além de ler um livro e fazer um resumo: é conversar sobre o que se leu, dividir com os colegas. Assim, desde pequenos os alunos aprendem que as pessoas querem escutar sobre aquilo. É também um exercício de elaboração de oralidade e articulação que ajuda a desenvolver consciência crítica, o debate e a escuta do outro, que pode pensar diferente”, afirma Ana Carolina.

Na educação infantil, os clubes de leitura transportam a lugares mágicos, onde é possível sonhar e ser o que quiser, enfrentar vilões, conhecer histórias incríveis… basta ter um livro em mãos e muita imaginação, conta Karinne Alves, professora alfabetizadora da rede pública municipal em Ouro Branco, Minas Gerais. Em março de 2026, quando a Secretaria de Educação do município adquiriu livros de literatura infantil para as crianças alunas do primeiro ano do Ensino Fundamental I das escolas públicas, ela montou um clube de leitura infantil.

“Com os livros em mãos, eu e meus alunos nos encontramos semanalmente para conversarmos sobre as histórias contidas nos livros, seu conteúdo e seus objetivos. Nessa prática de leitura, enquanto os alunos ainda estão em processo de alfabetização, eles ouvem a minha leitura da história selecionada para aquela semana”, explica.

“Contudo, antes de iniciarmos a leitura, as crianças participam de um ‘ritual’ preparatório. Elas se divertem com brincadeiras cantadas e se preparam emocionalmente para o momento da história. Apresento o livro, conversamos sobre as ilustrações, identificamos o título, o nome dos autores e ilustradores. Conversamos sobre como a escrita se apresenta, sobre o formato do livro e outros detalhes que se apresentam de acordo com o interesse e contribuição dos alunos. É encantador vê-los manusear os livros com intencionalidade e se apropriarem do livro de maneira tão significativa dos símbolos que compõem este material”.

Karinne afirma que as crianças vão além do que foi ouvido e trazem contribuições pessoais acerca do tema. Os encontros acontecem na biblioteca da escola, num momento que fortalece vínculos afetivos, estimula o desenvolvimento integral das crianças e semeia o prazer pelo livro e pela leitura, para além das obrigações escolares.

Os encontros acontecem na biblioteca da escola, num momento que fortalece vínculos afetivos, estimula o desenvolvimento integral das crianças e semeia o prazer pelo livro e pela leitura, para além das obrigações escolares.

Outros mundos e possibilidades

No trabalho com a educação infantil, os clubes de leitura funcionam bem quando focados nas literaturas locais, sugere a professora Claudiana Alencar, da UECE. “É um trabalho associado ao prazer, ao lúdico, ao local e à vivência da criança. Os poemas da literatura indígena são fortes nesse sentido, porque crianças são muito ligadas à natureza, aos animais, à ideia de que não somos diferentes. É uma forma de trazer a criança para a literatura e que remete à força dos clubes de leitura”, diz ela, reforçando o sentido da leitura compartilhada dos clubes baseada na solidariedade, na amizade e na empatia.

Para as faixas etárias escolares mais avançadas, a leitura se torna ainda mais importante como “projeção” de outras possibilidades e representatividades. “Crianças e jovens começam a se identificar com aquela literatura e a perceber que o que lhes espera não é uma porta sem saída, mas uma vida com outros mundos, outras rotas. Surgem trajetórias de inspiração para pessoas indígenas, pessoas negras, mulheres, trazendo novas formas de acreditar e ser”, diz. “A leitura tem um grande papel nesse sentido”.

A prática e seus benefícios se estendem à comunidade escolar. A professora Gabriela Arruda, diretora pedagógica da educação infantil na rede privada de São Paulo, vivencia a experiência de um clube de leitura para professores. O objetivo, diz, é o desenvolvimento da capacidade interpretativa da equipe docente.

“Como formar um adulto preparado se esse adulto nunca parou para situar seu próprio trabalho dentro de uma narrativa maior? (A educadora italiana) Maria Montessori foi precisa ao afirmar que ‘o segredo de um bom ensino é considerar a inteligência da criança como um campo fértil onde as sementes podem ser semeadas e crescer sob o calor de uma imaginação ardente.’ Isso exige de quem ensina uma imaginação igualmente viva, alimentada por estudo genuíno”, afirma a diretora.

O formato do clube de leitura dos professores é quinzenal, com leitura prévia individual e, depois, uma discussão guiada. O primeiro título lido pelo grupo foi “Para Educar o Potencial Humano”, de Maria Montessori.

“Os efeitos do clube são observáveis e consistentes. As reuniões pedagógicas apresentam falas conceitualmente mais fundamentadas. As observações sobre as crianças tornam-se interpretativas, não apenas descritivas. A coesão da equipe se amplia pela via do pensamento compartilhado, que é distinta da coesão produzida por convivência ou alinhamento de procedimentos. As divergências de leitura de um mesmo texto revelam divergências de prática, e esse é um dado diagnóstico que nenhum outro formato formativo acessa com a mesma clareza”, enumera Gabriela Arruda.

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