Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
JUNHO/JULHO 2026 | nº7
Cadê a prova? ARTIGO

Envelhecer não significa parar de aprender

Lilian Cristine Hübner
Professora Titular da Escola de Humanidades – Programa de Pós-Graduação em Letras – Linguística da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) / Pesquisadora do Instituto de Geriatria e Gerontologia (PUCRS) / Pesquisadora da Rede Nacional da Ciência para a Educação (Rede CpE)

Maria Teresa Carthery-Goulart
Professora Associada do Centro de Matemática, Computação e Cognição – Programa de Pós-Graduação em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC / Docente da Unidade de Comunicação Humana, Aprendizagem e Desenvolvimento da Faculdade de Educação da Universidade de Hong Kong / Pesquisadora da Rede Nacional da Ciência para a Educação (Rede CpE)

É por meio das palavras que conseguimos “revisitar” uma experiência logo depois de vivê-la, contando para alguém ou recordando mentalmente. Sem essa revisitação, a memória não se consolida.

Estudos mostram que pessoas que mantêm hábitos regulares de leitura e de escrita tendem a apresentar melhor desempenho em testes neuropsicológicos, mesmo quando têm baixa escolaridade.

Estimular a mente com treinos cognitivos é uma recomendação comum para manter a cognição no envelhecimento típico e diante de quadros de declínio cognitivo. Mas não há uma forma única de treinar.

Promover a aprendizagem no envelhecimento é, portanto, investir em saúde pública, inclusão social e dignidade. O envelhecimento não representa o fim da aprendizagem, mas uma transformação em sua dinâmica.

Lilian Cristine Hübner
Professora Titular da Escola de Humanidades – Programa de Pós-Graduação em Letras – Linguística da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) / Pesquisadora do Instituto de Geriatria e Gerontologia (PUCRS) / Pesquisadora da Rede Nacional da Ciência para a Educação (Rede CpE)

Maria Teresa Carthery-Goulart
Professora Associada do Centro de Matemática, Computação e Cognição – Programa de Pós-Graduação em Neurociência e Cognição da Universidade Federal do ABC / Docente da Unidade de Comunicação Humana, Aprendizagem e Desenvolvimento da Faculdade de Educação da Universidade de Hong Kong / Pesquisadora da Rede Nacional da Ciência para a Educação (Rede CpE)

AGOSTO/SETEMBRO 2026 | nº 8 | Ciência mostra que cérebro humano permanece capaz de se transformar e de se adaptar ao longo de toda a vida, e que a linguagem é uma das ferramentas mais poderosas para manter vitalidade cognitiva CRÉDITO: ILUSTRAÇÃO C. FLEURY COM FIREFLY

O envelhecimento não afeta a cognição de modo uniforme. Algumas funções perdem um pouco de velocidade: processamos informações novas mais lentamente, temos mais dificuldade de dividir a atenção entre várias tarefas ao mesmo tempo e demoramos mais para aprender algo novo. Por outro lado, o vocabulário e o conhecimento acumulado ao longo da vida continuam crescendo. Na velhice, aprendemos menos pela rapidez e mais pela capacidade de conectar o novo ao que já sabemos. Isso tem uma consequência prática importante: estratégias de ensino que valorizam a experiência de vida e o significado pessoal do conteúdo funcionam muito melhor para pessoas mais velhas do que métodos que exigem memorização rápida.

Além disso, pesquisas com ressonância magnética mostram que o cérebro idoso tem uma capacidade surpreendente de compensação: quando uma região perde eficiência, outras entram em ação para cobrir a lacuna. O cérebro mais velho não desiste — ele encontra caminhos alternativos.

Entre todas as funções cognitivas, a linguagem é a que melhor resiste a alterações no envelhecimento. E o importante nisso é que ela não é apenas um meio de comunicação, mas o sistema pelo qual organizamos nossos pensamentos, acessamos a memória e construímos significados.

Você sabe por que quase não guardamos lembranças dos nossos primeiros dois ou três anos de vida? Uma das explicações é que, nessa fase, a linguagem ainda não está desenvolvida. É por meio das palavras que conseguimos “revisitar” uma experiência logo depois de vivê-la, contando para alguém ou recordando mentalmente. Sem essa revisitação, a memória não se consolida. Ou seja, a linguagem é um potente facilitador para que as memórias se formem e se fixem.

É por meio das palavras que conseguimos “revisitar” uma experiência logo depois de vivê-la, contando para alguém ou recordando mentalmente. Sem essa revisitação, a memória não se consolida.

Ao longo da vida, cada palavra nova funciona como um atalho mental: condensa um conjunto de informações em um único conceito e libera espaço para pensar de forma mais complexa e organizada. Quanto mais rico o repertório linguístico de uma pessoa, mais eficiente é o seu funcionamento cognitivo, em qualquer idade.

Na velhice, manter e ampliar as habilidades de linguagem é como usar uma âncora para fortalecer toda a cognição. Uma pessoa idosa que continua enriquecendo seu vocabulário, lendo e escrevendo preserva também uma memória mais viva, um pensamento mais flexível e uma maior capacidade de continuar aprendendo.

Ler e escrever: muito além das letras

Leitura e escrita são, provavelmente, as práticas mais completas de exercício cognitivo que existem. Quando lemos, nosso cérebro precisa, ao mesmo tempo, reconhecer palavras, integrar seu significado, fazer inferências sobre o que não está explícito e verificar se o texto está fazendo sentido. Tudo isso mobilizando memória, atenção e funções executivas de forma integrada.

A escrita exige ainda mais: é preciso planejar o que se quer comunicar, organizar as ideias em sequência lógica, escolher as palavras certas, acionar a movimentação das mãos e dedos, e monitorar se o resultado está claro. Escrever um diário, um relato de memórias ou uma carta é, sem exagero, um treino cognitivo completo. E se for à mão, no papel, melhor ainda para a cognição!

Estudos mostram que pessoas que mantêm hábitos regulares de leitura e de escrita tendem a apresentar melhor desempenho em testes neuropsicológicos, mesmo quando têm baixa escolaridade. Isso sugere que essas práticas podem compensar, ao menos parcialmente, os efeitos da pouca instrução formal ao longo da vida.

Estudos mostram que pessoas que mantêm hábitos regulares de leitura e de escrita tendem a apresentar melhor desempenho em testes neuropsicológicos, mesmo quando têm baixa escolaridade.

Para quem ficou décadas afastado da leitura e da escrita, retomar essas atividades tem um efeito ainda mais marcante: reativa circuitos neurais pouco utilizados, estimula a cognição, amplia o repertório linguístico e fortalece a autoestima. E nunca é tarde.

Reserva cognitiva: o segredo da mente que resiste ao tempo

Existe um conceito chamado reserva cognitiva: a capacidade do cérebro de resistir a alterações e continuar funcionando bem, mesmo quando começam a ocorrer mudanças estruturais decorrentes da idade ou de doenças. Imagine o cérebro como sendo uma boa malha viária: não importa apenas quantas estradas existem, mas como elas se conectam. Um cérebro com conexões eficientes encontra atalhos, desvia de obstáculos e mantém o fluxo mesmo quando algumas vias precisam de reparos.

Atividades linguísticas são uma das principais formas de construir essa reserva. Estudos indicam que atividades mentais complexas, como ler, fazer palavras-cruzadas ou caça-palavras, ou ainda jogar damas, podem reduzir o risco de desenvolver demência. Isso não significa que a pessoa nunca terá uma doença como o Alzheimer, mas sim que levará mais tempo para que os sintomas e a perda de funcionalidade apareçam. Um benefício impressionante para algo tão acessível e prazeroso.

Estimular a mente com treinos cognitivos é uma recomendação comum para manter a cognição no envelhecimento típico e diante de quadros de declínio cognitivo. Mas não há uma forma única de treinar: estudos mostram que atividades como palavras-cruzadas, feitas de forma sistemática, podem gerar efeitos iguais ou até melhores do que jogos computadorizados desenvolvidos especificamente para esse fim. Em um estudo realizado com pessoas com comprometimento cognitivo leve acompanhadas por um ano e meio, quem se engajou em resolver palavras-cruzadas perdeu menos volume no hipocampo, região essencial para a memória e uma das primeiras afetadas no Alzheimer, na comparação com os que interagiram com jogos computadorizados.

Estimular a mente com treinos cognitivos é uma recomendação comum para manter a cognição no envelhecimento típico e diante de quadros de declínio cognitivo. Mas não há uma forma única de treinar.

Aprender um novo idioma também protege

Os estudos sobre bilinguismo trazem descobertas igualmente animadoras. Pessoas que falam duas (ou mais) línguas, mesmo que tenham aprendido a segunda língua já na vida adulta, apresentam padrões de ativação cerebral mais eficientes. Em idosos bilíngues, a cognição se mantém mais preservada mesmo quando há sinais de atrofia no cérebro.

Uma pesquisa recente comparou um grupo de pessoas idosas que usou o aplicativo Duolingo por 16 semanas com outro grupo que fez treino cognitivo tradicional. Ambos tiveram ganhos semelhantes nas funções executivas. A diferença? Quem aprendeu o idioma relatou mais prazer, o que aumenta muito as chances de manter o hábito.

Unindo os pontos

A aprendizagem na velhice apresenta especificidades que devem ser consideradas. Em geral, há maior dependência de significado e contexto, necessidade de ritmo mais lento e maior importância da repetição e da prática distribuída. A motivação também desempenha um papel central, sendo frequentemente impulsionada pela relevância pessoal do conteúdo. Nesse sentido, ambientes de aprendizagem acolhedores, colaborativos e livres de pressão excessiva tendem a favorecer o engajamento e a retenção de informações. Abordagens multimodais, que combinam estímulos visuais, auditivos e motores, também contribuem para otimizar o processamento cognitivo.

A educação na velhice deve ser compreendida não apenas como transmissão de conhecimento, mas como uma forma de intervenção cognitiva e social. Programas educacionais que incorporam atividades linguísticas, especialmente leitura e escrita, têm demonstrado diversos efeitos positivos, como aumento da complexidade do discurso e melhora na memória episódica. A memória episódica é um tipo de memória de longo prazo responsável por armazenar experiências pessoais específicas, vinculadas a um contexto particular de tempo e lugar; ou seja, é a memória que temos de “o quê”, “quando” e “onde” algo aconteceu. Além disso, programas educacionais que exploram o uso da linguagem oral e escrita podem favorecer o engajamento social quando desenvolvidos em grupo, representando uma atividade prazerosa entre pessoas que compartilham a mesma faixa etária. Além dos benefícios cognitivos, essas práticas promovem autonomia, participação social e qualidade de vida.

No contexto brasileiro, estudos na interface entre linguagem e envelhecimento têm evidenciado que práticas regulares de letramento podem atenuar os efeitos do envelhecimento sobre a cognição, funcionando como fatores de proteção. Esses achados reforçam a necessidade de políticas públicas que incentivem a educação ao longo da vida, com especial atenção à população idosa. Programas educacionais devem valorizar a experiência dos participantes, promover atividades cognitivamente estimulantes e incentivar o uso contínuo da linguagem em diferentes contextos.

Promover a aprendizagem no envelhecimento é, portanto, investir em saúde pública, inclusão social e dignidade. O envelhecimento não representa o fim da aprendizagem, mas uma transformação em sua dinâmica. O cérebro permanece plástico e capaz de adaptação, especialmente quando estimulado de maneira significativa e contextualizada. Nesse cenário, a linguagem e, de modo particular, a leitura e a escrita, ocupam uma posição central, funcionando simultaneamente como instrumento de aprendizagem, mecanismo de proteção cognitiva e meio de participação social.

Promover a aprendizagem no envelhecimento é, portanto, investir em saúde pública, inclusão social e dignidade. O envelhecimento não representa o fim da aprendizagem, mas uma transformação em sua dinâmica.

Mais do que nunca, é necessário reconhecer que aprender não tem idade. O engajamento contínuo com a linguagem ao longo da vida não apenas sustenta a cognição, mas também amplia as possibilidades de interação, autonomia e bem-estar. Investir em práticas de leitura e escrita na velhice é, em última instância, investir na qualidade de vida e na construção de trajetórias de envelhecimento mais ativas, significativas e cognitivamente saudáveis.

Leia +