Raimundo da Silva Soares Junior
Neurocientista e pesquisador de Pós-Doutorado em Neurociências do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR)
João Ricardo Sato
Neurocientista e professor Titular da Universidade Federal do ABC
Introduzir esses conceitos na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental representa um grande desafio pedagógico. Nessa fase, as crianças ainda estão em processo de aquisição de alfabetização e dependem muito do raciocínio concreto.
O raciocínio espacial ajuda a criança a compreender as relações de forma, tamanho, posição, distância e orientação. Usamos esse tipo de raciocínio, por exemplo, para imaginar como girar e posicionar uma peça até que ela se encaixe em um quebra-cabeça.
Essas vivências integradas são fundamentais porque permitem que o aluno transite da manipulação física para o raciocínio lógico-abstrato, consolidando as bases da criatividade e da resolução de problemas que servirão de alicerce para todo o seu desenvolvimento.
Raimundo da Silva Soares Junior
Neurocientista e pesquisador de Pós-Doutorado em Neurociências do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR)
João Ricardo Sato
Neurocientista e professor Titular da Universidade Federal do ABC
OUTUBRO/NOVEMBRO 2026 | nº 9 | Proposta de modelo pedagógico com atividades práticas reforça como manipular peças concretas ajuda as crianças a estruturarem representações mentais complexas
ILUSTRAÇÃO: C. FLEURY COM FIREFLY
O pensamento computacional tornou-se uma competência essencial para o século XXI. Muito além de simplesmente aprender a programar softwares ou aplicativos, trata-se de um conjunto de processos cognitivos que envolve a resolução de problemas por meio de habilidades como decomposição, abstração, reconhecimento de padrões e raciocínio algorítmico. Decompor significa dividir um problema maior em partes menores, enquanto abstrair é identificar o que realmente importa e deixar de lado os detalhes desnecessários. Já reconhecer padrões é perceber semelhanças entre diferentes situações, enquanto raciocinar de forma algorítmica é organizar uma sequência de passos para chegar a uma solução. Introduzir esses conceitos na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental representa um grande desafio pedagógico. Nessa fase, as crianças ainda estão em processo de aquisição de alfabetização e dependem muito do raciocínio concreto.
Introduzir esses conceitos na educação infantil e nos anos iniciais do ensino fundamental representa um grande desafio pedagógico. Nessa fase, as crianças ainda estão em processo de aquisição de alfabetização e dependem muito do raciocínio concreto.
Para transpor essa barreira, alguns estudos de educação, neurociências e psicologia do desenvolvimento nos convidam a olhar para uma ferramenta clássica e acessível: os blocos de montar. Quando utilizamos materiais físicos, engajamos o que a ciência chama de “cognição corporificada” (embodied cognition). Esse princípio sugere que nossos processos cognitivos e a capacidade de resolução de problemas estão profundamente enraizados nas interações do nosso corpo com o ambiente físico. Dessa forma, manipular peças concretas ajuda as crianças a estruturarem representações mentais complexas.
A partir dessa fundamentação, desenvolvemos uma proposta de modelo pedagógico estruturado em atividades práticas que não dependem de telas ou dispositivos digitais (ou seja, são “atividades desplugadas”). Essas dinâmicas funcionam como andaimes cognitivos para o desenvolvimento tecnológico, sendo elas:
Construção Livre
Tutoriais Ilustrados
Programação Desplugada
Desafios de Engenharia com Restrições
Nosso estudo sugere que a jornada de aprendizagem pode começar pela Construção Livre. Ao empilhar peças e criar narrativas de forma desestruturada, a criança vai se familiarizando com formas e funções, exercitando o raciocínio espacial, a abstração e a decomposição visual de objetos.
O raciocínio espacial ajuda a criança a compreender as relações de forma, tamanho, posição, distância e orientação. Usamos esse tipo de raciocínio, por exemplo, para imaginar como girar e posicionar uma peça até que ela se encaixe em um quebra-cabeça. Essas habilidades contribuem para a aprendizagem de conteúdos matemáticos como geometria, medidas e resolução de problemas.
O raciocínio espacial ajuda a criança a compreender as relações de forma, tamanho, posição, distância e orientação. Usamos esse tipo de raciocínio, por exemplo, para imaginar como girar e posicionar uma peça até que ela se encaixe em um quebra-cabeça.
Com o tempo, o professor pode introduzir os Tutoriais Ilustrados. Pedir para a turma montar uma estrutura seguindo um passo a passo visual exige a tradução de imagens 2D para modelos mentais 3D. Essa prática pode tornar o raciocínio algorítmico mais tangível, afinal, a criança vivencia na prática que tarefas complexas podem ser divididas em etapas menores e lógicas. Uma variação interessante é a construção a partir de múltiplas perspectivas, onde a criança cria um objeto com base apenas em fotografias tiradas de diferentes ângulos, estimulando a dedução analítica.
Um passo mais sofisticado é a Programação Desplugada. Nela, os próprios blocos se tornam “linhas de código”. Por exemplo, peças amarelas podem significar “ande para frente”, e vermelhas, “vire à esquerda”. Em grupos, as crianças criam caminhos para um personagem alcançar um alvo em um tabuleiro. Quando o código falha, entra em cena o processo que chamamos de depuração ( debugging, em inglês). As crianças testam, encontram o erro e o corrigem, desenvolvendo resiliência, metacognição e trabalho em equipe.
Por fim, os Desafios de Engenharia com Restrições elevam o engajamento. Construir uma ponte que suporte peso utilizando um número limitado de blocos estimula a inovação sob limitações do mundo real, a otimização de recursos e a adaptabilidade. Essas vivências integradas são fundamentais porque permitem que o aluno transite da manipulação física para o raciocínio lógico-abstrato, consolidando as bases da criatividade e da resolução de problemas que servirão de alicerce para todo o seu desenvolvimento.
Essas vivências integradas são fundamentais porque permitem que o aluno transite da manipulação física para o raciocínio lógico-abstrato, consolidando as bases da criatividade e da resolução de problemas que servirão de alicerce para todo o seu desenvolvimento.
Proteger a primeira infância dos riscos do uso precoce e não mediado de tecnologias digitais é fundamental para o desenvolvimento cerebral e socioemocional (leia A primeira infância na era digital). Contudo, isso não significa privá-las do letramento tecnológico. O uso intencional e guiado de blocos de montar oferece uma via lúdica e embasada cientificamente para preparar nossos alunos para as complexidades do amanhã. Ao trocar temporariamente o clique do mouse pelo encaixe das peças, cultivamos mentes mais ativas, criativas e preparadas para construir o futuro.
Para aprofundamento teórico e metodológico, acesse o estudo completo aqui.


