Relato concedido a Ana Cláudia de Souza
Membro e pesquisadora da Rede CpE
Nossa história tem início a partir de inquietações profundas com os modelos tradicionais de ensino, muitas vezes marcados pela fragmentação do conhecimento, pela centralidade do professor como transmissor e pela pouca conexão com a realidade dos estudantes.
A metodologia que desenvolvemos pode ser compreendida como uma alternativa em construção, que busca romper com a rigidez curricular e propor um currículo vivo, flexível e contextualizado.
Outro aspecto fundamental diz respeito ao papel do educador. Na Escola dos Sonhos, todos são educadores: gestores, professores, equipe de apoio e merendeiras.
Nossos referenciais teóricos não são adotados de forma acrítica, mas ressignificados à luz de nossa realidade.
Relato concedido a Ana Cláudia de Souza
Membro e pesquisadora da Rede CpE
JUNHO/JULHO 2026 | nº 7 | Para além do ensino, escola em Bananeiras (PB) se propõe como organismo vivo de aprendizagem, escuta e reinvenção das práticas pedagógicas
FOTO: SERGIO MELO
Localizada no município de Bananeiras, na Paraíba, a Escola dos Sonhos é um espaço de resistência e de esperança. Sua fundadora, a professora Leila Rocha Sarmento Coelho, explica: é resistência a modelos que desconsideram a diversidade, a identidade e a complexidade dos sujeitos; e esperança na possibilidade de construir uma educação mais significativa, equitativa e transformadora.
Nossa história tem início a partir de inquietações profundas com os modelos tradicionais de ensino, muitas vezes marcados pela fragmentação do conhecimento, pela centralidade do professor como transmissor e pela pouca conexão com a realidade dos estudantes.
O relato preparado por Leila em conjunto com o grupo de pessoas que constitui a escola mostra que não se trata de um modelo acabado, mas de uma experiência em permanente construção, na qual nada está previamente posto. Do currículo à avaliação, formação de educadores e relação com as famílias, reforça a professora, tudo se constrói no processo, no encontro, na escuta e na ação. Confira a seguir.
A metodologia que desenvolvemos pode ser compreendida como uma alternativa em construção, que busca romper com a rigidez curricular e propor um currículo vivo, flexível e contextualizado.
Leila Rocha Sarmento Coelho
Outro aspecto fundamental diz respeito ao papel do educador. Na Escola dos Sonhos, todos são educadores: gestores, professores, equipe de apoio e merendeiras.
Fundadora da Escola dos Sonhos
Nossos referenciais teóricos não são adotados de forma acrítica, mas ressignificados à luz de nossa realidade.
Texto escrito em parceria com a comunidade escolar
Ao longo de nossa trajetória na Escola dos Sonhos, temos construído, de forma coletiva e intencional, uma experiência educativa que nasce do território, das relações e do compromisso ético com uma educação mais humana e transformadora. Situada em um contexto que articula comunidades rurais e urbanas, nossa escola emerge no município de Bananeiras, na Paraíba, não apenas como um espaço de ensino, mas como um organismo vivo de aprendizagem, escuta e reinvenção constante das práticas pedagógicas.
Nossa história tem início a partir de inquietações profundas com os modelos tradicionais de ensino, muitas vezes marcados pela fragmentação do conhecimento, pela centralidade do professor como transmissor e pela pouca conexão com a realidade dos estudantes. Foi nesse cenário que nos propusemos a sonhar — e mais do que isso, a concretizar — uma escola que acolhesse a integralidade do sujeito, respeitando seus tempos, suas potências e suas singularidades. Assim, nasce a Escola dos Sonhos como uma iniciativa comunitária que se constrói com as famílias, educadores, crianças e jovens, em uma perspectiva de corresponsabilidade.
Inspirada nos princípios da educação popular e nas contribuições de Paulo Freire e Carlos Rodrigues Brandão, entre outros, nossa proposta compreende a educação como prática de liberdade, na qual os sujeitos não são receptores passivos, mas protagonistas do processo de aprendizagem. Nesse sentido, organizamos nosso trabalho pedagógico a partir de projetos de pesquisa que emergem das curiosidades dos/as educandos/as, de círculos de diálogo, ateliês arteducativos e experiências inter e transdisciplinares que partem de problemas reais e interesses dos estudantes.
Um dos aspectos que mais nos diferencia das escolas tradicionais é a ausência de seriação. Não organizamos os estudantes por anos ou faixas etárias rígidas, mas promovemos a integração entre diferentes idades a partir dos projetos de aprendizagem. Essa convivência amplia as possibilidades de troca, fortalece a cooperação e respeita os diferentes ritmos e trajetórias, rompendo com a lógica homogênea e linear da escolarização convencional.
Currículo vivo e escuta ativa
A metodologia que desenvolvemos pode ser compreendida como uma alternativa em construção, que busca romper com a rigidez curricular e propor um currículo vivo, flexível e contextualizado. Trabalhamos com a ideia de territórios educativos, reconhecendo que a aprendizagem não se limita à sala de aula, mas se expande para a comunidade, para a natureza e para as relações estabelecidas no cotidiano.
Nessa perspectiva, o currículo não está previamente dado: ele se constrói no encontro entre sujeitos, saberes e experiências, articulando curiosidades, ações no território, valores, arte, cultura e referenciais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos pela ONU.
A arte e a cultura constituem-se como pilares estruturantes de nossa proposta pedagógica, compreendidas não como elementos acessórios, mas como dimensões essenciais da formação humana e da afirmação dos territórios. Ao reconhecermos e valorizarmos as expressões culturais locais — saberes populares, tradições, linguagens artísticas e manifestações simbólicas das comunidades com as quais atuamos — contribuímos para o fortalecimento das identidades e do sentimento de pertencimento dos/as estudantes.
Outro elemento central de nossa prática é a escuta ativa. Acreditamos que uma escola verdadeiramente democrática se constrói a partir da participação efetiva de todos os sujeitos. Nesse sentido, estruturamos espaços como assembleias, comitês e rodas de conversa, nos quais crianças e jovens têm voz e participam das decisões que impactam o cotidiano escolar, desenvolvendo autonomia, responsabilidade e pensamento crítico.
A avaliação, em nossa escola, também se distancia dos modelos tradicionais. Não trabalhamos com provas ou notas, mas com uma avaliação diagnóstica, participativa, emancipatória, dialógica, processual e reflexiva. Avaliar, para nós, é acompanhar trajetórias, compreender processos, reconhecer avanços e identificar desafios, fortalecendo a autonomia dos estudantes e sua consciência sobre o próprio aprender — em consonância com uma perspectiva freireana de educação.
Outro aspecto fundamental diz respeito ao papel do educador. Na Escola dos Sonhos, todos são educadores: gestores, professores, equipe de apoio e merendeiras. Entendemos que a formação humana se dá nas múltiplas relações do cotidiano, e não apenas em momentos formais de ensino. Essa compreensão amplia o conceito de educar e rompe com a ideia de que o conhecimento está centralizado em uma única figura.
Da mesma forma, não nos organizamos a partir da lógica da aula tradicional. Não há um professor que “dá aula” enquanto os estudantes escutam passivamente. O que se estabelece é uma relação dialógica, na qual todos ensinam e aprendem simultaneamente. O conhecimento não é transmitido como algo pronto, mas construído coletivamente, por meio da investigação, da experiência, do diálogo e da problematização da realidade, como propõe Paulo Freire.
Carta-aliança com as famílias
A relação com as famílias é outro pilar de nossa proposta. Enquanto escola comunitária, compreendemos que a educação é um processo compartilhado. Por isso, construímos dispositivos como a carta-aliança, na qual estabelecemos compromissos éticos mútuos, e promovemos encontros formativos e vivências coletivas que fortalecem os vínculos entre escola e comunidade, consolidando uma rede de apoio comprometida com o desenvolvimento integral dos estudantes.
No que se refere à inclusão, assumimos o compromisso de construir uma escola que acolha a diversidade em todas as suas dimensões. Reconhecemos os desafios desse processo, especialmente em contextos de recursos limitados, mas buscamos, de forma colaborativa, criar estratégias que garantam a participação e a aprendizagem de todos, reafirmando o caráter comunitário de nossa proposta.
Do ponto de vista formativo, investimos na construção contínua dos/as educadores/as, compreendendo que não há transformação na educação sem o desenvolvimento daqueles que a constroem. Realizamos encontros de estudo, planejamento coletivo e práticas de pesquisa-ação, nas quais refletimos criticamente sobre nossas experiências e nos reconhecemos como pesquisadores de nossa própria prática.
Nossos referenciais teóricos não são adotados de forma acrítica, mas ressignificados à luz de nossa realidade. Nesse movimento, aproximamo-nos do que Paulo Freire denomina de “inédito viável”: a construção coletiva de caminhos possíveis, ancorados na leitura crítica do contexto e no compromisso com a transformação social. Assim, nossa proposta não se orienta por modelos prontos, mas pela criação contínua de práticas que façam sentido para os sujeitos e seus territórios.
Ao compartilhar nossa experiência, buscamos contribuir para o fortalecimento de outras possibilidades em educação. Seguimos, assim, sonhando e realizando, certos de que a escola que queremos se constrói todos os dias, no coletivo, no diálogo e na coragem de fazer diferente.


