Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
AGOSTO/SETEMBRO 2026 | nº8
Cadê a prova? ARTIGO

A busca da eternidade nas escolas

Luiz Roberto Liza Curi
Sociólogo e doutor em economia pela Unicamp
Titular da Cátedra Paschoal Senise de Pós-graduação da USP
Reitor do UniSENAI SP

O Brasil não terá futuro sem que consigamos ressuscitar as vocações das crianças e jovens matriculados na educação básica.

A ausência de um claro compromisso do Estado com o conhecimento, a educação e a cultura, entregou em 2024 o número de 68.036.330 de pessoas que não concluíram a educação básica no país.

Por outro lado, há exemplos de estados e municípios brasileiros que implantaram verdadeiras políticas de Estado destinadas ao aprendizado, corrigindo trajetórias independentemente da renda dos estudantes, como o alcance das escolas.

Os currículos de cursos superiores, em sua maioria, sejam em instituições públicas ou particulares no país, são conteudistas, segmentados por disciplinas, hipossuficientes em interdisciplinaridade, de difícil aproximação aos ambientes e intrincados requisitos profissionais ou demandas da sociedade, além de irreverentes na consideração da natureza da dedicação docente.

Milhões de estudantes egressos do Ensino Médio público não ingressam na educação superior, milhões o fazem mas não se formam e milhões se formam sem aprender e sem arrumar emprego.

Luiz Roberto Liza Curi
Sociólogo e doutor em economia pela Unicamp
Titular da Cátedra Paschoal Senise de Pós-graduação da USP
Reitor do UniSENAI SP

OUTUBRO/NOVEMBRO 2026 | nº 9 | País não terá futuro se não conseguirmos ressuscitar as vocações das crianças e jovens matriculados na educação básica CRÉDITO: VINCENT VAN GOGH – THE RAISING OF LAZARUS (AFTER REMBRANDT), PUBLIC DOMAIN, VIA WIKIMEDIA COMMONS

A busca da eternidade, por diversas formas, pode representar o abandono da vida. O escritor russo Leonid Andreiév (1871-1919) fornece sua visão literária acerca do retorno do personagem bíblico Lázaro, cuja alma renasce, mas o corpo continua em decomposição. O autor americano Isaac Azimov (1920-1992) aplica a ciência finita em tempos e espaços infinitos em seu romance O Fim da Eternidade. Já o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) relata no conto “O Imortal” uma comunidade de imortais que perdem o sentido e o interesse pela vida e se imobilizam como rochas. A eternidade paralisa o tempo e tenta eliminar o futuro. E o autor e pensador Italiano Giovanni Papini (1881-1956), em seu conto “O Espelho que foge”, nos alertava que a perda de crença no futuro acabava por destruir o presente. O Brasil não terá futuro sem que consigamos ressuscitar as vocações das crianças e jovens matriculados na educação básica.

O Brasil não terá futuro sem que consigamos ressuscitar as vocações das crianças e jovens matriculados na educação básica.

Em 2025, foram registradas cerca de 37 milhões de matrículas nas escolas públicas, contra cerca de 9 milhões em particulares. No mesmo ano, havia 7,3 milhões de estudantes matriculados no Ensino Médio, sendo 6,3 milhões na escola pública. Há, no entanto, uma série de índices que evidenciam, como indicadores mórbidos, desafios vividos pelos estudantes da escola básica pública. Dentre eles, está o da evasão.

Mais da metade dos ingressantes na 5ª série do Ensino Fundamental I não ascendem ao Ensino Médio, que por sua vez apresenta uma desistência de mais de 400 mil matrículas. Cerca de 74% dos estudantes evadidos não queriam sair.

A ausência de um claro compromisso do Estado com o conhecimento, a educação e a cultura, entregou em 2024 o número de 68.036.330 de pessoas que não concluíram a educação básica no país. Destas, 4.636.176 estão na faixa dos 18 aos 24 anos. A esses números, de certa forma, se agregam 29% da população em situação de analfabetismo funcional. Dentre os concluintes do Ensino Médio, 17% são analfabetos funcionais, e dentre os diplomados no Ensino Superior 12% caem na mesma categoria.

A ausência de um claro compromisso do Estado com o conhecimento, a educação e a cultura, entregou em 2024 o número de 68.036.330 de pessoas que não concluíram a educação básica no país.

Desempenho oculto

Por outro lado, nos dois últimos resultados anunciados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), em 2024 e 2026, foram apontados 5% e 8%, respectivamente, proficientes em matemática de cada 100 jovens no terceiro ano do Ensino Médio. Uma proporção que indica a ruína do aprendizado na escola pública. Embora o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) divulgado em 2026 demonstre uma melhoria, essa está mais associada às ginásticas das redes em ampliar a aprovação de estudantes que ao aprendizado.

É visível a baixa energia em priorizar o aprendizado na escola pública, não só com o empenho governamental demonstrado, mas sobretudo com o desempenho oculto. O mais extraordinário é que ao Saeb nacional se somam as avaliações das redes públicas locais que, no entanto, parecem não servir para orientá-las na melhoria contínua do aprendizado. A sensação é que as provas, necessárias e essenciais, se estruturam de forma a serem utilizadas mais politicamente, abastecendo rankings e não os interesses dos estudantes.

Por outro lado, há exemplos de estados e municípios brasileiros que implantaram verdadeiras políticas de Estado destinadas ao aprendizado, corrigindo trajetórias independentemente da renda dos estudantes, como o alcance das escolas. É o caso de Piauí, Ceará, Pernambuco, Paraná, São Paulo e Joinville (SC), entre outros.

Por outro lado, há exemplos de estados e municípios brasileiros que implantaram verdadeiras políticas de Estado destinadas ao aprendizado, corrigindo trajetórias independentemente da renda dos estudantes, como o alcance das escolas.

Neles, a partir de diagnósticos bem elaborados foram construídas ações articuladas que compõem a avaliação como forma de acompanhamento e de indicação de medidas imediatas para corrigir o aprendizado individual dos estudantes. A avaliação, assim, flexível e apropriada a casos gerais e específicos, acompanha e orienta ações e, principalmente, impactos. Infelizmente, após décadas construindo o acesso de estudantes à escola básica pública, a busca por impactos tem se limitado mais às políticas de efeito passageiro do que à inclusão dos jovens na economia ou na cultura.

Ao acompanharmos a trajetória dos egressos do Ensino Médio, o paroxismo nos acomete. Em 2024, foram 2,4 milhões – destes, cerca de 1,7 milhão pertencem à escola pública, que matricula cerca de 27% de seus egressos na educação superior, contra 60% dos egressos das escolas particulares. Se considerarmos as universidades públicas como protagonistas do maior impacto na sequência direta dos egressos do Ensino Médio, verificaremos que a presença desses estudantes se deve à lei de cotas em associação às próprias políticas de acesso de universidades consolidadas, como USP, Unicamp, UFRJ, etc.

Currículos conteudistas e hipossuficientes

Essas ações localizadas estão longe de ser suficientes. Grande parte do acesso das universidades, mesmo com as cotas, é feito pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), e não por construções de acesso nas quais as universidades, especialmente as públicas, poderiam ter maior protagonismo na articulação com o Ensino Médio. Nesse caso, os cursos de licenciatura são os mais disponíveis aos critérios do acesso seletivo que se dá pela pontuação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), cujo êxito ocorre a partir dos 400 pontos para esses cursos. Outro aspecto essencial se dá na própria circunstância de organização da graduação da universidade pública que, para além de um ou outro processo seletivo adequado, ignoram a origem socioeducacional dos matriculados.

O fator preponderante dessa ausência de relevância dos egressos do setor público se dá mesmo na organização dos currículos que, se não fossem muito ruins, seriam elitistas. Não é difícil de entender. Os currículos de cursos superiores, em sua maioria, sejam em instituições públicas ou particulares no país, são conteudistas, segmentados por disciplinas, hipossuficientes em interdisciplinaridade, de difícil aproximação aos ambientes e intrincados requisitos profissionais ou demandas da sociedade, além de irreverentes na consideração da natureza da dedicação docente.

Os currículos de cursos superiores, em sua maioria, sejam em instituições públicas ou particulares no país, são conteudistas, segmentados por disciplinas, hipossuficientes em interdisciplinaridade, de difícil aproximação aos ambientes e intrincados requisitos profissionais ou demandas da sociedade, além de irreverentes na consideração da natureza da dedicação docente.

Esses currículos evitam a contextualização dos conteúdos frente à geração de competências e habilidades, já que essa ação dependeria de flexibilização das aulas tradicionais, quase sempre inúteis, ampliando o contato do aprendizado com ambientes profissionais, sejam científicos e de docência, sejam industriais ou de serviços públicos. A maioria das estruturas curriculares remete aos anos 1970, como se fosse possível aos egressos terem um passado pela frente.

Nessas circunstâncias, estudantes com baixo padrão de aprendizado devido a um Ensino Médio deficiente não encontram nenhum acolhimento, nem mesmo o incentivo de associar as então disciplinas básicas a contextos profissionais em estruturas que há décadas os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) praticam. O resultado é a altíssima evasão. Nas universidades públicas, os indicadores de trajetória dos estudantes no curso de ingresso alcançaram 54% de evasão em 2024 e, nas universidades particulares, 63%. Já os cursos de licenciatura e os de engenharia chegam a 70% de evasão.

Além da realidade da educação superior, ou motivado por ela, em 2023 o Instituto IDados identificou 5,4 milhões de diplomados sem emprego. No mesmo ano, o jornal O GLOBO publicou reportagem indicando 14% de diplomados que trabalhavam em sua área de formação. Nas áreas de saúde, esse número cai para 12%.

Milhões de estudantes egressos do Ensino Médio público não ingressam na educação superior, milhões o fazem mas não se formam e milhões se formam sem aprender e sem arrumar emprego.

Milhões de estudantes egressos do Ensino Médio público não ingressam na educação superior, milhões o fazem mas não se formam e milhões se formam sem aprender e sem arrumar emprego.

As vidas desses milhões de brasileiros e brasileiras não só se apresentam descoladas das perspectivas de desenvolvimento próprio e do país, mas indelevelmente foram coladas em profunda desigualdade que, diferentemente das laterais considerações literárias acerca da eternidade, acabará sendo um legado de mortalidade para além de suas próprias vidas.

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