Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
NOVEMBRO/ DEZEMBRO 2025 | nº4
Como assim? Como assim?

Como assim?

Perguntas que inquietam os docentes

JANEIRO/FEVEREIRO 2026 | nº5 | Nesta seção, especialistas convidados por YVIRÁ respondem a perguntas enviadas por professores que integram a Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE) como “Amigos da Rede”.

Nesta edição, explicamos como fatores como a desnutrição, o estresse crônico e várias formas de violência podem afetar o cérebro em desenvolvimento e, consequentemente, influenciar a aprendizagem e o desempenho escolar. Quem responde é o professor Claudio Serfaty, pesquisador do Laboratório de Plasticidade Neural da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“Como os fatores neurobiológicos e o ambiente influenciam a aprendizagem e o desempenho escolar?” 

IMAGEM: ADOBESTOCK

(Enviada por Por Léa Aparecida dos Anjos Alves, neuropsicopedagoga clínica, município de Pedro Leopoldo, Minas Gerais)

Claudio A. Serfaty
Laboratório de Plasticidade Neural
Programa de Pós-Graduação em Neurociências
Universidade Federal Fluminense

A má nutrição tem o potencial de impactar o desenvolvimento e a formação apropriada dos circuitos neurais.

Claudio A. Serfaty
Laboratório de Plasticidade Neural
Programa de Pós-Graduação em Neurociências
Universidade Federal Fluminense

Durante os primeiros anos de vida, o cérebro, em processo de desenvolvimento, necessita de estimulação e interação parental e social para que possa desenvolver a plenitude do potencial genético de cada indivíduo. Assim ocorre o desenvolvimento progressivo das habilidades sensoriais, motoras, linguísticas e cognitivas. Este é um longo processo que se estende até a adolescência. No entanto, o cérebro em desenvolvimento pode ser gravemente afetado por outros fatores como a desnutrição, estresse crônico e várias formas de violência, condições associadas à desigualdade social.

Isto ocorre porque células do sistema imune também são capazes de colonizar o tecido cerebral e responder a sinais de estresse e promover respostas adaptativas características de inflamação. Um exemplo disso está na população de células microgliais (subtipo de célula glial, que compartilha com os neurônios o funcionamento cerebral). Elas se originam fora do cérebro, a partir de progenitores semelhantes a macrófagos (as células que combatem diretamente as infecções). Estas células participam diretamente do desenvolvimento, atuando  na eliminação de inúmeras sinapses não funcionais do cérebro imaturo (ou “poda sináptica”) em um processo normal do desenvolvimento que permite  que o cérebro ajuste suas redes neurais, possibilitando a compreensão e decodificação dos estímulos ambientais. Esse processo se chama neuroplasticidade.

A má nutrição tem o potencial de impactar o desenvolvimento e a formação apropriada dos circuitos neurais.

Ativação por patógenos

As células microgliais, por terem origem no sistema imune, respondem à linguagem de moléculas do sistema imune e por isso podem ser ativadas por patógenos (daí a importância da vacinação!), lesões do tecido cerebral, uso de drogas como o álcool e alterações ambientais como o estresse crônico e a desnutrição. Embora algumas destas condições possam ocorrer de forma pontual durante a vida sem qualquer repercussão negativa, a ativação microglial crônica pode resultar na perda da sua função na plasticidade e na otimização dos circuitos neurais, com consequências ao desenvolvimento pleno das capacidades cognitivas.

Neste contexto, a má nutrição tem o potencial de impactar o desenvolvimento e a formação apropriada dos circuitos neurais. Ao contrário da fome, uma condição gravíssima que pode levar à morte pela associação com doenças infecciosas, diarreia e desidratação, certos déficits nutricionais podem ocorrer de forma silenciosa, já que induzem poucos sinais como perda de peso e crescimento mais lento do corpo.

Estas condições ocultas de desnutrição são associadas com as carências de nutrientes dos quais somos dependentes exclusivamente pela dieta – os chamados nutrientes essenciais. Estas condições têm grande potencial para interferir no desenvolvimento das habilidades cognitivas e aprendizado, em especial, em populações sob condições de desigualdade social. Dietas pobres em ácidos graxos ômega-3 ou dietas restritas em quantidades inadequadas de proteínas de alto valor biológico apresentam baixo conteúdo do aminoácido triptofano, único precursor do neurotransmissor serotonina.

Ambas as condições são inflamatórias e perturbam o desenvolvimento normal, a atividade microglial e a poda sináptica durante o desenvolvimento, alterando a plasticidade neural. Por outro lado, dietas ricas em gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados, que inclusive favorecem o ganho de peso e até mesmo a obesidade, também apresentam um efeito inflamatório pronunciado. Dessa forma, dietas inadequadas são todas indutoras de inflamação e perturbação do desenvolvimento neural.

Se algumas destas condições nutricionais se tornarem crônicas durante a primeira infância, o desenvolvimento do cérebro pode ser comprometido, com consequências para o desenvolvimento cognitivo e aprendizagem escolar.

Impacto na infância e na adolescência

Em certas condições, isto é agravado pelo consumo de álcool por gestantes e nutrizes em aleitamento materno. O álcool também induz neuroinflamação e atrasos no desenvolvimento de circuitos neurais adequados, com grande impacto na primeira infância e na adolescência.

Dietas ricas em ácidos graxos ômega-3 e o consumo de proteínas de qualidade são de alto custo para as famílias, que passam a optar por alimentos ricos em gorduras saturadas e frituras  (que aplacam a fome) ou alimentos ultraprocessados (que custam menos). Se algumas destas condições nutricionais se tornarem crônicas durante a primeira infância, o desenvolvimento do cérebro pode ser comprometido, com consequências para o desenvolvimento cognitivo e aprendizagem escolar.

É importante salientar que estas condições podem ser agravadas em populações de baixa renda, mas podem também afetar crianças de todas as classes sociais com maus hábitos nutricionais. Por este motivo, é importante destacar o papel da Escola e de políticas públicas a exemplo do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) que estabelece a inclusão da educação alimentar e nutricional no projeto pedagógico escolar e pré-escolar.

Se algumas destas condições nutricionais se tornarem crônicas durante a primeira infância, o desenvolvimento do cérebro pode ser comprometido, com consequências para o desenvolvimento cognitivo e aprendizagem escolar.

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