Raquel Freitag
Professora do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe (UFS) / Pesquisadora do Grupo de Estudos em Linguagem, Interação e Sociedade (GELINS) / Membro da Rede CpE e do Comitê Editorial de Yvirá
O documento não esconde os problemas que já temos, nos lembrando das desigualdades que já existem nas escolas brasileiras e que a IA pode agravar em vez de resolver.
Uma ideia simples e poderosa é partir da aula de gramática como um exercício de “IA desplugada”. O trabalho reflexivo com análise sintática, morfologia, regras e exceções, permite treinar o tipo de pensamento lógico e estrutural que está por trás dos algoritmos.
Raquel Freitag
Professora do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe (UFS) / Pesquisadora do Grupo de Estudos em Linguagem, Interação e Sociedade (GELINS) / Membro da Rede CpE e do Comitê Editorial de Yvirá
AGOSTO/SETEMBRO 2026 | nº 8 | Documento orientador do MEC alerta para problemas e vieses no uso de inteligência artificial nas escolas e coloca professores no centro das decisões sobre o tema IMAGENS EXTRAÍDAS DO DOCUMENTO “INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA EDUCAÇÃO BÁSICA” · MEC
Você já deve ter ouvido dizer que a inteligência artificial vai mudar tudo na educação. Talvez também já tenha sentido aquela mistura de curiosidade e cansaço diante do assunto: mais uma novidade, mais uma sigla, mais uma cobrança. O MEC acaba de publicar Inteligência Artificial na Educação Básica – Documento orientador sobre caminhos curriculares e práticas éticas de uso de IA nas escolas.
O documento começa separando duas coisas que costumam se confundir: ensinar com IA e ensinar sobre IA. A primeira é usar ferramentas de inteligência artificial como apoio no dia a dia da sala de aula. A segunda, mais profunda, é ajudar nossos estudantes a entender como esses sistemas de IA funcionam, onde erram e por que isso importa. É essa segunda pergunta que interessa a todas as áreas do currículo. Por isso, o documento precisa ser apropriado por cada área do conhecimento, a partir de seus próprios saberes e práticas.
Aqui eu faço um convite de apropriação dirigido para colegas da área de Língua Portuguesa.
O documento não esconde os problemas que já temos, nos lembrando das desigualdades que já existem nas escolas brasileiras e que a IA pode agravar em vez de resolver. Alerta também para a profusão de normas e documentos sobre o tema, no Brasil e no mundo, o que dificulta bastante saber por onde começar. Reconhecer esses riscos e problemas é o primeiro passo para não tratarmos a IA como solução mágica, e sim como um tema que precisa ser trabalhado com cuidado, no currículo de cada disciplina.
O documento não esconde os problemas que já temos, nos lembrando das desigualdades que já existem nas escolas brasileiras e que a IA pode agravar em vez de resolver.
A área de Língua Portuguesa tem um papel central: não podemos esperar que nossos estudantes pensem criticamente, se expressem com criatividade ou ajam com responsabilidade se não forem, antes de tudo, leitores fluentes. Todos os letramentos que a escola precisa desenvolver por conta da IA (letramento digital, midiático, computacional) dependem de uma base sólida em leitura.
O documento também alerta para os vieses embutidos nos sistemas de IA que circulam no nosso dia a dia: preconceitos de raça, de gênero, de linguagem. Quem trabalha com Língua Portuguesa sabe bem do que se trata isso na prática. São as variedades linguísticas menos prestigiadas, os falares regionais, os jeitos de escrever que a escola às vezes já tratou como “errados” e que a IA, treinada com dados enviesados, tende a repetir. Discutir isso em sala é ensinar sobre IA a partir daquilo que já sabemos ensinar melhor do que ninguém.
‘IA desplugada’
Mais: uma ideia simples e poderosa é partir da aula de gramática como um exercício de “IA desplugada”. O trabalho reflexivo com análise sintática, morfologia, regras e exceções, permite treinar o tipo de pensamento lógico e estrutural que está por trás dos algoritmos. A aula de gramática, nesse sentido, sempre foi uma aula sobre como o sistema das línguas funciona. O trabalho da Gramaticoteca, por exemplo, é uma excelente oportunidade de levar para a prática de sala de aula a manipulação algorítmica da sintaxe da língua.
Uma ideia simples e poderosa é partir da aula de gramática como um exercício de “IA desplugada”. O trabalho reflexivo com análise sintática, morfologia, regras e exceções, permite treinar o tipo de pensamento lógico e estrutural que está por trás dos algoritmos.
O documento termina com um chamado: a integração da IA na escola só vai dar certo se estivermos no centro das decisões, e não apenas executando orientações vindas de fora. Isso exige que cada área se aproprie do texto e descubra sua própria contribuição, em vez de esperar por um manual pronto. Não existe a figura do “professor de IA”. O que existe – e o documento deixa isso muito claro – é a IA entrando em cada disciplina. Por isso, vale a leitura completa do documento, mas vale ainda mais a leitura feita com as lentes da sua própria área de atuação, da sua disciplina.
Se você é da área de Língua Portuguesa, este é um bom momento para lembrar que a leitura, a gramática, a análise e a reflexão sobre a língua já estão fazendo, sem alarde, o trabalho que todo mundo agora chama de “letramento em IA”.

