Elisa Martins
Jornalista, especial para a Yvirá
Na década de 1980, apenas 20% dos municípios brasileiros tiveram ondas de calor, quer dizer, temperaturas acima de 35 graus por pelo menos três dias consecutivos. Hoje, esse índice chega a 60% dos municípios do país.
Por meio de pontuações e classificação de risco comportamental, os resultados mostraram que cada dia adicional de exposição ao calor durante a gravidez foi significativamente associado a maior irritabilidade e maior dificuldade relatada pelas mães com as rotinas dos bebês.
Nossa percepção é que são problemas que podem ser ainda mais importantes no futuro e afetar o desempenho escolar.
Não adianta olhar só para a criança que já está na escola. Cuidar da saúde mental da mãe também é uma estratégia para proteger o desenvolvimento infantil.
Elisa Martins
Jornalista, especial para a Yvirá
FOTO: ARQUIVO PESSOAL
A emergência climática afeta populações, ecossistemas e ameaça o equilíbrio ambiental no planeta. Pode, ainda, ter amplo efeito sobre o desenvolvimento infantil e o desempenho escolar, como mostra um estudo desenvolvido pelo economista Naercio Menezes Filho, professor da Cátedra Ruth Cardoso, no Insper, e da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP, em conjunto com o pesquisador Bruno Kawaoka Komatsu, também do Insper.
Na década de 1980, apenas 20% dos municípios brasileiros tiveram ondas de calor, quer dizer, temperaturas acima de 35 graus por pelo menos três dias consecutivos. Hoje, esse índice chega a 60% dos municípios do país.
A pesquisa concentrou-se na associação entre a exposição a ondas de calor no útero e os desfechos no desenvolvimento e comportamento infantil. Embora estudos anteriores já tenham relacionado a exposição pré-natal ao calor a desfechos adversos no nascimento, como conta Naercio Menezes Filho, pouco se sabe sobre suas implicações para o desenvolvimento infantil, principalmente sobre a regulação comportamental precoce além do período neonatal, com potencial impacto sobre o aprendizado escolar no futuro. “O estudo mostra que, se queremos uma criança saudável e que aprenda, temos que nos preocupar com a mãe, ainda mais em um mundo em crise climática. Não adianta olhar só para a criança que já está na escola”, diz o pesquisador. Confira na entrevista a seguir.
Por meio de pontuações e classificação de risco comportamental, os resultados mostraram que cada dia adicional de exposição ao calor durante a gravidez foi significativamente associado a maior irritabilidade e maior dificuldade relatada pelas mães com as rotinas dos bebês.
O aumento das ondas de calor é hoje um dos efeitos mais visíveis da crise climática. Por que a gestação deve ser vista como um período especialmente vulnerável a esse fenômeno?
Nossa percepção é que são problemas que podem ser ainda mais importantes no futuro e afetar o desempenho escolar.
NAERCIO MENEZES FILHO: Os dados científicos mostram como as ondas de calor têm aumentado nos últimos anos. Na década de 1980, apenas 20% dos municípios brasileiros tiveram ondas de calor, quer dizer, temperaturas acima de 35 graus por pelo menos três dias consecutivos. Hoje, esse índice chega a 60% dos municípios do país. E as gestantes são particularmente afetadas tendo em vista a quantidade de mudanças fisiológicas que ocorrem durante a gravidez para que a mãe possa sustentar a placenta, o bebê e a própria produção de calor pelo bebê em crescimento. Isso afeta a mãe e, como mostramos no estudo, os efeitos também se estendem às crianças. É um período muito sensível.
Não adianta olhar só para a criança que já está na escola. Cuidar da saúde mental da mãe também é uma estratégia para proteger o desenvolvimento infantil.
O que a literatura científica mostra sobre a relação entre calor extremo durante a gestação e o desenvolvimento infantil? E como o estudo atual avança nesse sentido?
NMF: Já há estudos que mostram o efeito das mudanças climáticas no desenvolvimento infantil com foco em indicadores no nascimento. Por exemplo, já sabemos que há impactos sobre o tempo de gestação, que pode ser antecipado, e sobre o peso do bebê ao nascer, que pode ficar abaixo da média. Mas poucos estudos investigam o efeito das ondas de calor durante a gravidez no desenvolvimento posterior das crianças, ou acabam mais voltados a questões como nutrição e epidemiologia. Nosso estudo de coorte é voltado ao desfecho comportamental infantil, com acompanhamento de psicólogos e outros especialistas. Nossa pesquisa avançou até os 18 meses das crianças examinadas, e a ideia é continuar estudando os impactos nessa geração. Queremos saber se esses efeitos continuam depois dessa fase e se afetam o aprendizado na idade escolar.
Como foi feita essa medição e quais foram os principais efeitos identificados que podem ser associados à exposição a ondas de calor durante a gestação?
NMF: Nosso objetivo final é entender por que as crianças aprendem tão pouco nas escolas públicas. O analfabetismo ainda é muito alto em alunos de 8 anos, e as dificuldades persistem no Fundamental 2. Há estudos que se concentram nas condições escolares, nas condições de renda familiar e nas condições da própria educação. Mas temos uma literatura que mostra que os primeiros seis anos de vida são fundamentais no desenvolvimento humano e formam a base das habilidades cognitivas e socioemocionais. Decidimos associar as mudanças climáticas a esse conjunto de fatores de influência, buscando entender se os problemas de desenvolvimento identificados nesse contexto podem afetar o aprendizado lá na frente. A exposição pré-natal a ondas de calor foi medida usando dados climáticos vinculados aos endereços residenciais maternos. Coletamos informações diárias de satélite que mede a temperatura num raio próximo às moradias das mães do estudo. Nosso estudo é centrado em Ribeirão Preto, no estado de São Paulo, mas muitos hospitais da cidade recebem crianças de outras regiões. Com base nos dados de temperatura relativos à região de moradia materna, analisamos as crianças que vivenciaram ondas de calor quando estavam no útero. Por meio de pontuações e classificação de risco comportamental, os resultados mostraram que cada dia adicional de exposição ao calor durante a gravidez foi significativamente associado a maior irritabilidade e maior dificuldade relatada pelas mães com as rotinas dos bebês.
A depressão materna aparece como mais um termômetro na análise desses efeitos de exposição ao calor no desenvolvimento infantil. Como esse fator de saúde mental foi associado ao estudo?
NMF: As mães que têm depressão antes da gestação tendem a ter depressão depois também. E parece que as ondas de calor estão impactando esse quadro, tanto durante a gravidez quanto nos meses subsequentes ao nascimento do bebê. No estudo, examinamos os sintomas depressivos maternos como uma possível via mediadora que liga os resultados infantis à exposição pré-natal ao calor. Nossas análises indicaram que os sintomas depressivos maternos foram responsáveis por 21 a 33% dessas associações. São descobertas que ressaltam a regulação comportamental precoce como um domínio particularmente sensível no contexto da exposição pré-natal ao calor, e que destacam a saúde mental materna como uma via importante pela qual os estressores relacionados ao clima podem influenciar o desenvolvimento infantil precoce. Sabemos que, na falta de condições normais de saúde mental, a mãe pode ter mais dificuldades de realizar atividades com a criança, estimular, conversar e interagir com ela. Os números não são desprezíveis, ao contrário. Temos um terço das crianças acompanhadas com riscos de atraso de desenvolvimento e que já demonstram questões de comportamento como inflexibilidade, irritabilidade, dificuldades com a rotina. Nossa percepção é que são problemas que podem ser ainda mais importantes no futuro e afetar o desempenho escolar.
Esse impacto sobre a criança ocorre mais pela exposição biológica ao calor ou pela saúde mental materna? Ou pela combinação dos dois fatores?
NMF: Pela combinação dos dois. Existe um efeito que é das ondas de calor, mas também a depressão da mãe influencia os indicadores de desenvolvimento da criança. Nosso primeiro estudo já mostrava que a onda de calor tem um efeito sobre o bebê que pode nascer antes do tempo ideal, com peso menor, com perímetro cefálico menor, com anomalias congênitas. E isso provavelmente pode afetar a criança durante toda a sua vida. Agora mostramos que a depressão materna, no contexto das ondas de calor, mas também sem elas, incide sobre a irritabilidade e dificuldade com a rotina dos bebês. Apesar do nosso foco no tema, as ondas de calor não são o único fator que causa problemas de saúde mental. Mas fiquei impressionado ao constatar, com base em nosso estudo, que 40% das mães já tinham tido um problema de saúde mental diagnosticado antes da gravidez. A maioria era de crises de ansiedade e depressão, todos com diagnóstico. Muitas tomaram remédios. É uma geração muito afetada. O estudo mostra que, se queremos uma criança saudável e que aprenda temos que nos preocupar com a mãe, e antes dela dar à luz o bebê. Não adianta olhar só para a criança que já está na escola. Cuidar da saúde mental da mãe também é uma estratégia para proteger o desenvolvimento infantil. Ainda mais num mundo em crise climática.
As ondas de calor não afetam todas as pessoas da mesma forma. Qual é o risco de a crise climática ampliar desigualdades já existentes no desenvolvimento infantil?
NMF: Claramente, as famílias que têm melhores condições socioeconômicas estão mais preparadas para lidar com as ondas de calor. Famílias vulneráveis terão mais dificuldades de ter ar-condicionado em casa, de levar os filhos para estudar em uma creche com espaço climatizado, jardins e árvores. O fator climático é mais um que pesa sobre a desigualdade. Aí entra o papel da política pública. Prefeituras e governos têm de começar a se preocupar com isso. E, nesse caso, criar avisos, boletins, aplicativos, ou seja, formas diversas de alertar as mães e, especialmente as mulheres grávidas, alguns dias antes da chegada de uma onda de calor. É uma medida preventiva para que essas mulheres possam se proteger, e proteger seus filhos, seja em casa, na escola, na casa de algum familiar, em algum lugar com acesso à água, à hidratação. É preciso oferecer antecedência e previsibilidade para que se possam tomar as precauções.
Esse é um tema ainda pouco debatido fora da academia. Por que ele deveria estar no centro das políticas públicas de saúde, educação e clima?
NMF: É preciso fazer muito mais. É impressionante como o ser humano não está tomando as providências que deveria com as mudanças climáticas. Vivemos aquelas enchentes de Porto Alegre, que destruíram boa parte da cidade, e depois as pessoas voltaram à “normalidade”, como se nada tivesse acontecido. Assim como nosso estudo, há outros que mostram o custo dessas ondas de calor e das mudanças climáticas para pessoas de todas as idades. A ciência está avisando, com base em estudos, em dados de especialistas. Pode ser uma notícia que as pessoas não querem ouvir. Mas as coisas não vão melhorar sozinhas, ao contrário. Sem ações da própria sociedade e sem políticas públicas, ficarão cada vez mais graves.


