Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
ABRIL/MAIO 2026 | nº6
Intervalo RESENHAS DE LIVROS, SÉRIES, FILMES

Diversidade linguística no cotidiano importa, e muito

Juliana Bertucci Barbosa
Professora do Mestrado Profissional em Letras em Rede (PROFLETRAS) da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
PPGLLP-Unesp-Araraquara
Membro da Rede CpE

Partindo de um princípio central da Sociolinguística, o de que nenhuma língua é homogênea, o livro enfatiza o fato de a variação linguística ser condição constitutiva das línguas naturais.

A obra problematiza não apenas o julgamento de quem ouve, mas também os efeitos da variação sobre quem fala. O que ocorre quando um falante cuja variedade é estigmatizada se depara com a variante prestigiada?

Ao defender que o ensino da norma-padrão deve ampliar, e não substituir, as variedades linguísticas dos estudantes, Freitag propõe uma concepção de educação linguística comprometida com a equidade e a inclusão.

Juliana Bertucci Barbosa
Professora do Mestrado Profissional em Letras em Rede (PROFLETRAS) da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
PPGLLP-Unesp-Araraquara
Membro da Rede CpE

ABRIL/MAIO 2026 | nº.6 | Livro reforça que compreender variação inerente às línguas naturais é fundamental para combater o preconceito linguístico e para construir práticas educacionais e sociais mais justas

IMAGEM: DIVULGAÇÃO

A obra “Variação linguística: diversidade e cotidiano”, de Raquel Freitag (Editora Contexto, 2025), constitui uma leitura introdutória e, ao mesmo tempo, conceitualmente consistente para estudantes de Letras, pesquisadores em Linguística e professores da Educação Básica interessados em compreender o fenômeno da variação linguística a partir de uma perspectiva científica, social e pedagógica. Com linguagem acessível e abordagem didática, o livro apresenta uma reflexão instigante e atualizada sobre a diversidade linguística no cotidiano, articulando pressupostos da Sociolinguística, da Psicolinguística e da Psicologia da Linguagem.

A autora da obra, Raquel Freitag, é linguista e professora do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe (UFS), doutora em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com atuação destacada nos estudos sobre processamento da variação linguística. A autora também é co-autora de obras voltadas ao debate público sobre língua e sociedade, como “Não existe linguagem neutra! Gênero na sociedade e na gramática do português brasileiro”, o que reforça o compromisso social e científico de sua produção.

Partindo de um princípio central da Sociolinguística, o de que nenhuma língua é homogênea, o livro enfatiza o fato de a variação linguística ser condição constitutiva das línguas naturais. Diferenças nos níveis fonológico, lexical, morfológico e/ou sintático não são exceções nem desvios, mas manifestações sistemáticas que emergem das práticas comunicativas cotidianas dos falantes. Desde as primeiras páginas, a autora evidencia que, em sociedades marcadas por pluralidade cultural, social e regional, como a brasileira, a diversidade linguística é regra, não anomalia.

Partindo de um princípio central da Sociolinguística, o de que nenhuma língua é homogênea, o livro enfatiza o fato de a variação linguística ser condição constitutiva das línguas naturais.

Julgamento e estigmatização

Um dos méritos da obra está em demonstrar que a maneira como lidamos com a diversidade linguística no cotidiano importa, e muito. A percepção das diferenças linguísticas é tão forte que atravessa registros históricos e religiosos, como exemplificado por passagens bíblicas em que indivíduos foram identificados, reconhecidos ou mesmo perseguidos pelo modo como falavam.

Por exemplo, no episódio de Pentecostes (Atos 2), os ouvintes identificam que os falantes são galileus a partir de sua maneira de falar, o que causa estranhamento diante do fato de estarem usando outras línguas. Em outra passagem (Mateus 26:73), Pedro é reconhecido como seguidor de Jesus porque “o seu modo de falar o denuncia”.

No cotidiano contemporâneo, esse processo permanece ativo: ao ouvir um traço mínimo do sistema linguístico (como a realização “pobrema” em lugar de “problema”), os ouvintes frequentemente acionam inferências automáticas sobre origem social, escolaridade, renda ou pertencimento regional do falante. Quando tais inferências assumem valor negativo, configura-se o preconceito linguístico, amplamente documentado por pesquisas sociolinguísticas.

A obra problematiza não apenas o julgamento de quem ouve, mas também os efeitos da variação sobre quem fala. O que ocorre quando um falante cuja variedade é estigmatizada se depara com a variante prestigiada?

A obra problematiza não apenas o julgamento de quem ouve, mas também os efeitos da variação sobre quem fala. O que ocorre quando um falante cuja variedade é estigmatizada se depara com a variante prestigiada? A diversidade linguística produz impactos distintos em diferentes perfis de falantes e grupos sociais. Nesse ponto, o livro dialoga com contribuições recentes da Psicolinguística, campo que tem ampliado seus objetos, métodos e populações de estudo, como exemplificado em coletâneas contemporâneas dedicadas à diversidade linguística.

É nesse movimento que “Variação linguística: diversidade e cotidiano” se diferencia de introduções mais tradicionais à Sociolinguística. A autora propõe que, para compreender fenômenos como o preconceito linguístico, não basta analisar apenas a produção (como as pessoas usam a língua) ou a percepção (como avaliam os usos alheios). É necessário incorporar a dimensão do processamento da variação linguística, investigando quais variantes são mais salientes, em que contextos, com que frequência e com que custo cognitivo. Questões como por que mudanças profundas na gramática passam despercebidas, enquanto alterações mínimas provocam reações sociais intensas, orientam a reflexão ao longo da obra.

Essa perspectiva é desenvolvida de forma sistemática nos capítulos do livro. Em “Processamento da informação linguística e social”, a variação é apresentada como fenômeno natural, com destaque para os processos cognitivos e sociais que articulam língua, identidade e categorização social, contribuindo para a construção de indexações sociais. Em “Consciência, saliência e frequência”, a autora introduz o conceito de consciência sociolinguística e explora como esses parâmetros explicativos, em diálogo com a Psicolinguística, sustentam a formação das normas linguísticas e os julgamentos sobre a língua, evidenciando a interação entre processos automáticos e controlados.

Já o capítulo “Como medir o processamento” discute métodos observacionais e experimentais, incluindo o uso de biomarcadores sociolinguísticos, que permitem acessar conhecimentos inconscientes sobre a variação.

Aplicações e práticas pedagógicas

No capítulo “Diversidade linguística na sociedade”, a autora consolida as implicações práticas desse conhecimento, explorando aplicações na educação, na comunicação pública e na inteligência artificial. No contexto escolar, a consciência sociolinguística pode favorecer práticas pedagógicas mais inclusivas, que reconheçam os repertórios linguísticos dos alunos e combatam a estigmatização. Na comunicação pública, contribui para evitar a marginalização de grupos sociais por meio da língua. Já no campo da inteligência artificial, a incorporação da variação linguística mostra-se fundamental para o desenvolvimento de tecnologias mais representativas e socialmente responsáveis.

Ao defender que o ensino da norma-padrão deve ampliar, e não substituir, as variedades linguísticas dos estudantes, Freitag propõe uma concepção de educação linguística comprometida com a equidade e a inclusão.

Do ponto de vista pedagógico, a obra oferece subsídios relevantes para a formação inicial e continuada de professores. Ao defender que o ensino da norma-padrão deve ampliar, e não substituir, as variedades linguísticas dos estudantes, Freitag propõe uma concepção de educação linguística comprometida com a equidade e a inclusão. A avaliação de produções orais e escritas, nessa perspectiva, deve considerar o contexto de uso, a finalidade comunicativa e o interlocutor, e não apenas a adequação estrita à norma-padrão.

Com 128 páginas, linguagem clara e exposição didática, o livro consegue articular teoria linguística, evidências empíricas e reflexão social sem recorrer a excessos conceituais, o que o torna acessível a não especialistas. Ao mesmo tempo, apresenta densidade teórica suficiente para instigar leituras mais aprofundadas e diálogos interdisciplinares.

Em síntese, “Variação linguística: diversidade e cotidiano” reafirma que compreender a diversidade linguística é fundamental para combater o preconceito linguístico e para construir práticas educacionais e sociais mais justas. Ao deslocar o foco para o processamento da variação, a obra amplia o horizonte da Sociolinguística e convida o leitor a refletir criticamente sobre como ouvimos, percebemos, julgamos e regulamos a língua no cotidiano. Trata-se, portanto, de uma leitura altamente recomendada para interessados em uma educação linguística democrática, inclusiva e socialmente comprometida.

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