Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
NOVEMBRO/ DEZEMBRO 2025 | nº4
Vale nota VIVÊNCIAS DIVERSAS, DIRETO DAS SALAS DE AULA

Desafios e oportunidades no crescimento da EaD no Ensino Superior

Relatos concedidos a Elisa Martins e Fernando Louzada
Rede CpE

É a primeira vez que a EaD supera a marca do presencial. Essa era uma tendência que vinha ocorrendo desde 2015, ano em que se chegou ao pico das matrículas em cursos presenciais no Brasil.
O fenômeno que os dados mostram é o crescimento da educação superior na camada mais pobre da população, que precisa trabalhar durante o dia.
O crescimento da EaD, antes de tudo, é um sintoma de um problema de base, que é a ausência de políticas públicas para garantir o acesso e a permanência da educação superior.

Proibir a educação à distância é semelhante ao que ocorreu com os celulares na educação básica, que foram banidos formalmente. Voltamos aqui à questão do engajamento.

A personalização proporcionada pelas tecnologias associadas à Educação a distância é, hoje, uma poderosa ferramenta para quem quer aprender autonomamente

Muita controvérsia surgiu, nos últimos anos, acerca da eficiência da expansão da EaD sem regulamentação clara e, de certa forma, restritiva.

Uma das características relevantes da EaD é a possibilidade de diplomar uma quantidade muito maior de pessoas, mas isso parece contrastar com a qualidade da formação.

O afastamento social trazido pelo trabalho remoto, típico da EaD, é apontado como fator relevante na geração de estresse, especialmente entre as pessoas mais novas.

Relatos concedidos a Elisa Martins e Fernando Louzada
Rede CpE

Recorde de alunos na graduação à distância em comparação à modalidade presencial reforça debate sobre avanço dessa modalidade no país

ILLUSTRATION: C. BORGES

As matrículas em cursos à distância no Ensino Superior superaram as presenciais pela primeira vez no Brasil, mostrou o Censo da Educação Superior divulgado no segundo semestre de 2025 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A notícia intensificou o debate de comparações entre os dois modelos. Afinal, a Educação a Distância teria a mesma qualidade do presencial? Quais são os efeitos dessa expansão na formação dos alunos de graduação em diferentes cursos?

Yvirá reuniu duas visões distintas sobre o tema. Na primeira, o cientista digital Maurício Garcia, do Instituto de Tecnologia e Liderança, destaca que atividades à distância, antes de tudo, são recursos pedagógicos. Com base nos dados do Censo, afirma, a modalidade EaD no período noturno cresce como oportunidade de maior acesso à educação superior pela camada da população que precisa trabalhar durante o dia. Já o pesquisador Marco Randi, da Universidade Federal do Paraná, discute diferenças na qualidade da formação e ressalta que a EaD também pode ser um fator estressante para o corpo docente. Além disso, diz, a modalidade remota ainda não resolveu um dos principais problemas que enfrentamos em nosso país: a desigualdade social. Confira a seguir.

Maurício Garcia
Instituto de Tecnologia e Liderança

É a primeira vez que a EaD supera a marca do presencial. Essa era uma tendência que vinha ocorrendo desde 2015, ano em que se chegou ao pico das matrículas em cursos presenciais no Brasil.

O Brasil alcançou 10 milhões de matrículas no Ensino Superior, de acordo com os dados do Censo da Educação Superior de 2024, 3% a mais que o ano anterior, em um crescimento linear e constante, desde os anos 90, a despeito dos diferentes mandatos presidenciais. Mas o que mais chamou a atenção na divulgação da pesquisa foi o fato de que mais da metade das matrículas são em cursos de Educação a Distância (EaD). É a primeira vez que a EaD supera a marca do presencial.

Houve muitos comentários sobre esse predomínio da EaD, majoritariamente negativos, expressando uma preocupação com a qualidade desses cursos, bem como a precarização dos cursos presenciais. Vale analisar, porém, esses mesmos dados sob outra perspectiva. Quando se separa por turno, nota-se que as matrículas em cursos presenciais diurnos seguem estabilizadas em pouco mais de 2 milhões, praticamente o mesmo valor há 14 anos. Por outro lado, quando se somam as matrículas dos cursos presenciais noturnos com as dos cursos à distância, o crescimento é evidente e praticamente linear, sem grandes alterações ao longo dos últimos 30 anos. Ou seja, esse segmento cresce consistentemente há muito tempo.

O fenômeno que os dados mostram é o crescimento da educação superior na camada mais pobre da população, que precisa trabalhar durante o dia.

Esse segmento (EaD + Noturno) reúne alunos de condições socioeconômicas semelhantes. Normalmente são adultos trabalhadores, pessoas que não podem frequentar cursos presenciais diurnos, pois precisam gerar renda. Em outras palavras, o fenômeno que os dados mostram é o crescimento da educação superior na camada mais pobre da população, que precisa trabalhar durante o dia. O que está havendo é a migração de alunos de cursos presenciais noturnos para a modalidade à distância, seja pela comodidade de evitar deslocamentos, seja pelo valor da mensalidade, usualmente mais baixo que dos cursos presenciais.

Além disso, os cursos EaD estão também absorvendo antigos egressos do ensino médio, pessoas que haviam parado de estudar. A combinação dessas duas vertentes (noturno e ex-egressos) justifica o crescimento das matrículas em cursos à distância.

Fica claro dessa forma que não está havendo o crescimento da EaD em detrimento da modalidade presencial. Temos, assim, uma importante questão de financiamento por trás desse fenômeno. Não é possível discutir a modalidade da oferta (presencial versus à distância) sem incluir essa questão do financiamento. Provavelmente, se os alunos à distância tivessem isenção das mensalidades e bolsas de permanência, muitos estudariam presencialmente durante o dia, pois não precisariam trabalhar.

O crescimento da EaD, antes de tudo, é um sintoma de um problema de base, que é a ausência de políticas públicas para garantir o acesso e a permanência da educação superior.

O crescimento da EaD, antes de tudo, é um sintoma de um problema de base, que é a ausência de políticas públicas para garantir o acesso e a permanência da educação superior. Assim, ao invés de estarmos discutindo políticas públicas de inclusão na educação superior, para aumentar pontos tão importantes como o engajamento cidadão e crítico da sociedade, o fortalecimento da força de trabalho e a competitividade internacional do Brasil, a tônica das discussões da EaD estão centradas na apenas em como limitá-la ou bloqueá-la.

Atividades à distância, antes de tudo, são recursos pedagógicos, e deveriam ser consideradas dessa forma. Por exemplo, afirmar que não dá para aprender medicina à distância é uma generalização rasa. É evidente que, em tese, dá para aprender temas como histologia, fisiologia e até mesmo patologia à distância. Mas também é evidente que habilidades como inspeção, palpação, percussão e auscultação, fundamentais para um bom clínico, não podem ser desenvolvidas à distância.

O mesmo raciocínio pode ser feito em outros cursos. No Direito, por exemplo, dá para aprender o ordenamento jurídico à distância, mas a hermenêutica e a retórica demandam a presencialidade. Não é necessário ter muita experiência em educação para perceber que, dentro de um mesmo curso, há coisas que podem ser aprendidas à distância e outras não.

Na minha opinião, o único argumento consistente contra a EAD, em termos de qualidade, é o engajamento do aluno. As pessoas engajam mais e interagem mais em atividades presenciais. Embora os congressos à distância continuem numerosos, os centros de convenções seguem lotados com eventos presenciais, com as pessoas interagindo não apenas durante as palestras, mas principalmente nos coffee breaks, nos estandes e nos corredores. Discussão semelhante ocorre no contexto do trabalho remoto versus presencial, com muitas empresas limitando ou mesmo abolindo o trabalho remoto.

Então, se esse é o único argumento consistente contra a EaD, não faria sentido proibi-la em determinados cursos e permiti-la em outros. Além disso, existe no Brasil um sistema de avaliação da qualidade da educação superior há décadas. Se esse sistema está falhando em avaliar a qualidade da educação à distância, certamente está falhando também na avaliação da educação presencial. Não deveríamos discutir qualidade da EaD sem questionar o sistema como um todo

Proibir a educação à distância é semelhante ao que ocorreu com os celulares na educação básica, que foram banidos formalmente. Voltamos aqui à questão do engajamento. Deixar as crianças com os celulares durante a aula é o mesmo que ter dois telões ao lado do professor passando outra programação, muito mais engajante. Não dá para competir. Mas, nesse caso, a solução é apenas uma questão de tecnologia. No dia que inventarem um dispositivo capaz de bloquear o 5G dentro da sala de aula, esse problema estará resolvido, já que a instituição poderá controlar o acesso pela rede interna wifi, deixando ao professor a liberação apenas dos recursos que fizessem sentido para as suas atividades.

Proibir a educação à distância é semelhante ao que ocorreu com os celulares na educação básica, que foram banidos formalmente. Voltamos aqui à questão do engajamento.

Em outras palavras, a proibição dos celulares na educação básica é um tiro de canhão, dada a impossibilidade técnica de serem usados tiros de snipers. Proibir a EaD é algo parecido. Ora, se não dá para garantir a qualidade, seria melhor proibir tudo então.

A minha aposta é que, no futuro, ambas as proibições serão revistas. Quando sistemas de avaliação mais modernos e “tecnologias snipers” forem viáveis em termos práticos, certamente haverá flexibilização dessas normas para que seja feito o melhor uso da tecnologia em prol de uma educação inclusiva e de qualidade.

Marco Randi
Núcleo de Concursos
Universidade Federal do Paraná

Educação a Distância (EaD) não é novidade no Brasil. Lembro-me, criança, de ver a grande oferta de cursos variados, do Instituto Universal Brasileiro (fundado em 1941), no meio ou na contracapa dos gibis que lia. Eram os anos 1970. Cheguei a comprar um destes cursos, de eletrotécnica, que vinha em fascículos e kits de eletrônica. Não concluí.

No início do século 20, já havia cursos de datilografia por correspondência anunciados no Jornal do Brasil. Nesta primeira fase, o material impresso dominava a EaD. Nos anos 1920, a radiodifusão possibilitou certa expansão do sistema de Educação a distância até que, a partir dos anos 1960, principalmente com a chegada dos meios audiovisuais como a TV aberta, um novo salto se deu. Um bom exemplo das iniciativas em EaD nessa mídia é o Telecurso, criado pela Fundação Roberto Marinho, que existe desde 1977.

Já a partir dos anos 1990, novas tecnologias agregaram novas possibilidades, especialmente com a chegada da internet. Um depoimento contundente sobre estas alternativas foi feito por Isaac Asimov, escritor e bioquímico estadunidense, em 1988, em uma entrevista a Bill Moyers. Na ocasião, ele afirmou que o que estava por vir revolucionaria o aprendizado, que deixaria de acontecer da mesma forma, no mesmo momento, no mesmo local (a escola), para todas as pessoas.

A personalização proporcionada pelas tecnologias associadas à Educação a distância é, hoje, uma poderosa ferramenta para quem quer aprender autonomamente.

A personalização proporcionada pelas tecnologias associadas à Educação a distância é, hoje, uma poderosa ferramenta para quem quer aprender autonomamente. Poder escolher o horário de estudar (educação assíncrona) e o local, a partir dos dispositivos móveis de acesso à internet e a facilidade de acesso, conferiram à EaD uma via de obtenção de certificação profissional sem precedentes.

A Constituição Federal de 1988, pela primeira vez no Brasil, definiu o ensino fundamental como “direito público subjetivo” (Art. 208, § 11), garantindo o acesso ao ensino fundamental para todas as pessoas. Quase uma década depois, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) reconheceu, definitivamente, a EaD como modalidade de formação na educação.

Não se pode falar de educação sem considerar professoras e professores para atender a este direito garantido, especialmente professoras e professores com formação adequada. E aí está um problema difícil de ser equacionado.

O estímulo do Estado para a educação de todos acarretou a necessária expansão do ensino superior, incluindo a formação à distância, na formação de professores. Este período foi também caracterizado pela consolidação do neoliberalismo e seu discurso sobre o Estado mínimo, e a emancipação da sociedade civil (geralmente confundida com o “mercado”) sobre o Estado. A expansão do ensino privado foi, assim, uma consequência quase “natural”.

Entre 1990 e 1999, o número de vagas no ensino superior público cresceu 60%, contra um crescimento de 180% no privado, apesar da demanda por estas vagas não ter aumentado na mesma proporção, com as instituições públicas superando as privadas. O investimento principal das instituições privadas concentrou-se em cursos de licenciatura, e a expansão continuou ao longo do século 21.

De acordo com o Censo da Educação Superior de 2024, o Brasil tinha 10 milhões de estudantes na educação superior, sendo 50,7% na modalidade à distância. Enquanto a EaD cresceu 5,6%, o ensino presencial encolheu 0,5% (Inep, 2025), o que reforça a importância de abordar esse tema. 

Em 2017, foi publicado o Decreto 9.057, regulamentando o artigo 80 da LDB, que trata de EaD. Este decreto foi visto com ótimos olhos pela iniciativa privada, pois regulamentava de forma muito genérica a área, permitindo a criação de cursos sem as condições mínimas necessárias. Não foi por acaso que, em 2025, novo decreto foi publicado, revogando aquele: o Decreto 12.456.

Muita controvérsia surgiu, nos últimos anos, acerca da eficiência da expansão da EaD sem regulamentação clara e, de certa forma, restritiva.

Muita controvérsia surgiu, nos últimos anos, acerca da eficiência da expansão da EaD sem regulamentação clara e, de certa forma, restritiva. Em um estudo de 2018, por exemplo, o professor Carlos E. Bielschowsky apresentou o contraste preocupante sobre a diferença de desempenho, no ENADE, entre estudantes de mesmos cursos de graduação, presenciais e EaD, das mesmas instituições. O ENADE é o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, uma prova realizada por discentes formandos ou recém-formados do ensino superior e que compõe o sistema de avaliação dos cursos de graduação brasileiros.

Uma das características relevantes da EaD é a possibilidade de diplomar uma quantidade muito maior de pessoas, mas isso parece contrastar com a qualidade da formação.

Pois nesse estudo de 2018, para as cinco maiores instituições privadas de ensino superior em número de matrículas em EaD (58% das matrículas), o desempenho dos estudantes no ENADE, na modalidade EaD, era pior que o daqueles que realizaram o mesmo curso na modalidade presencial. Isso não foi observado, na média, para as instituições públicas e para as privadas menores, nas quais o desempenho foi semelhante para estudantes EaD e presencial. Pelos resultados, pode-se afirmar que a formação EaD em massa (grande número de matrículas) leva a resultados piores que a formação presencial.

Uma das características relevantes da EaD é a possibilidade de diplomar uma quantidade muito maior de pessoas, mas isso parece contrastar com a qualidade da formação. Este é um motivo de alerta que acarretou a publicação de nova regulamentação sobre o tema pelo Estado, inclusive proibindo a formação na modalidade à distância para alguns cursos.

Para além da qualidade de quem é formado nessa modalidade, a EaD também pode ser um fator estressante para o corpo docente. A pesquisadora Andressa A. Araújo e colaboradores, da Universidade Estadual do Ceará, mostraram que docentes mais novos (em idade ou em tempo de contrato) percebem o trabalho como mais estressante e menos prazeroso na área de EaD. A expansão das instituições de ensino superior privadas levou a alterações nas relações de trabalho docente, levando ao aumento do estresse e diminuição do prazer no trabalho. O afastamento social trazido pelo trabalho remoto, típico da EaD, é apontado como fator relevante na geração de estresse, especialmente entre as pessoas mais novas.

O afastamento social trazido pelo trabalho remoto, típico da EaD, é apontado como fator relevante na geração de estresse, especialmente entre as pessoas mais novas.

A Educação a Distância é uma modalidade de formação de pessoas que, apesar de já consolidada no Brasil, ainda precisa ser avaliada e melhorada para garantir não apenas a qualidade da formação profissional que proporciona, mas também buscar soluções para a desigualdade de acesso. Na pandemia da Covid-19, 30% dos lares brasileiros não tinham acesso à internet. Nas famílias cuja renda era de até um salário-mínimo, este número subia para 50%. Apesar de ajudar a democratizar o acesso à educação, a EaD ainda não resolveu um dos principais problemas que enfrentamos em nosso país: a desigualdade social.

Leia +