Silvia Koller
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Instituto de Ciências Humanas e da Informação
Universidade Federal do Rio Grande (FURG)
Instituto de Psicologia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil
North West University, África do Sul
Silvia Koller
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
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North West University, África do Sul
JANEIRO/FEVEREIRO 2026 | n°5 | Ao analisar papel do enfrentamento a contextos violentos e sua interação com níveis de cortisol, estudo mostra que não é só o ambiente que importa, mas como cada um lida com as dificuldade.
IMAGEM: ADOBESTOCK
Sabemos que viver em ambientes onde a violência é comum deixa marcas profundas nas pessoas. Não é só uma sensação de insegurança ou medo constante: o corpo também reage, muitas vezes sem que a gente perceba. Um estudo liderado pela pesquisadora Bria Gresham, do Instituto de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, mergulha justamente nessa questão: como a exposição à violência comunitária pode afetar o funcionamento do nosso eixo de estresse, o famoso eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), responsável pela liberação do cortisol (hormônio fundamental na resposta do organismo ao estresse, que ajuda a mobilizar energia, regular a pressão arterial e preparar o corpo para lidar com desafios). A pesquisa vai além: será que certas formas de lidar com os problemas podem proteger — ou piorar — esse impacto?
Gresham e colegas partiram do princípio que a literatura já sugeria: viver em contextos violentos pode “entrar debaixo da pele”, quer dizer, mexer na maneira como o corpo reage ao estresse. Mas ainda se sabe pouco sobre fatores de proteção que poderiam reduzir ou amortecer esses efeitos negativos. É aí que entra o foco dos pesquisadores: entender se as diferentes estratégias que as pessoas usam para lidar com situações estressantes, especialmente a estratégia evitativa, podem modificar a relação entre viver em ambientes de violência e reagir fisiologicamente a situações estressantes.
Sabemos que viver em ambientes onde a violência é comum deixa marcas profundas nas pessoas. Não é só uma sensação de insegurança ou medo constante: o corpo também reage, muitas vezes sem que a gente perceba. Um estudo liderado pela pesquisadora Bria Gresham, do Instituto de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, mergulha justamente nessa questão: como a exposição à violência comunitária pode afetar o funcionamento do nosso eixo de estresse, o famoso eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), responsável pela liberação do cortisol (hormônio fundamental na resposta do organismo ao estresse, que ajuda a mobilizar energia, regular a pressão arterial e preparar o corpo para lidar com desafios). A pesquisa vai além: será que certas formas de lidar com os problemas podem proteger — ou piorar — esse impacto?
Gresham e colegas partiram do princípio que a literatura já sugeria: viver em contextos violentos pode “entrar debaixo da pele”, quer dizer, mexer na maneira como o corpo reage ao estresse. Mas ainda se sabe pouco sobre fatores de proteção que poderiam reduzir ou amortecer esses efeitos negativos. É aí que entra o foco dos pesquisadores: entender se as diferentes estratégias que as pessoas usam para lidar com situações estressantes, especialmente a estratégia evitativa, podem modificar a relação entre viver em ambientes de violência e reagir fisiologicamente a situações estressantes.
É aí que entra o foco dos pesquisadores: entender se as diferentes estratégias que as pessoas usam para lidar com situações estressantes, especialmente a estratégia evitativa, podem modificar a relação entre viver em ambientes de violência e reagir fisiologicamente a situações estressantes.
Estresse social
Os autores do estudo recrutaram 148 jovens adultos, todos estudantes universitários de primeira geração, entre 18 e 25 anos, espalhados pelos Estados Unidos. Esses jovens responderam a questionários sobre características pessoais, o quanto estavam expostos à violência em suas comunidades e quais estratégias costumavam usar para lidar com situações difíceis e estressantes. Depois disso, todos passaram por uma versão online de um teste clássico de indução de estresse: o Trier Social Stress Test Online (TSST-OL).
Basicamente, trata-se de uma situação estruturada que gera estresse social — comumente envolve falar em público ou se apresentar para avaliadores, contextos que costumam deixar qualquer pessoa em estado de tensão. O estudo não expôs ninguém à violência durante o experimento; a violência foi medida apenas por relatos prévios dos participantes sobre suas experiências de vida. O cortisol dos participantes foi medido ao longo desse processo por meio de amostras de saliva, um método amplamente utilizado em pesquisas psicobiológicas por ser confiável e pouco invasivo. Os participantes coletaram saliva seguindo instruções padronizadas, durante diferentes momentos do teste online de estresse.
A análise dos dados foi feita por meio de modelagem multinível, uma técnica estatística que permite acompanhar como o cortisol muda ao longo do tempo em cada pessoa, ao mesmo tempo em que compara essas trajetórias entre diferentes participantes. Esse tipo de análise leva em conta, por exemplo, que cada indivíduo tem um ritmo próprio para atingir o pico de cortisol durante o estresse.
O objetivo principal era verificar se havia uma relação direta entre exposição à violência comunitária e reatividade do cortisol, e se as diferentes estratégias moderaram essa relação.
Jovens que relataram maior exposição à violência comunitária e que utilizavam com mais frequência estratégias evitativas — como fugir do problema, não pensar sobre ele ou evitar sentimentos difíceis — apresentaram respostas de cortisol muito mais fortes diante da situação de estresse social.
Resultados inesperados
Os resultados foram inesperados – e, em parte, surpreendentes também para os próprios pesquisadores.
Primeiro, eles não encontraram uma associação direta entre viver em ambientes violentos e a reatividade do cortisol. Ou seja, simplesmente ter sido exposto à violência ao longo da vida não significou, por si só, que os jovens apresentariam respostas fisiológicas mais intensas ao estresse social. O estudo focou apenas no cortisol; outras respostas fisiológicas, como frequência cardíaca, não foram medidas.
Mesmo sendo um estudo exploratório, a mensagem é clara: não é apenas o ambiente violento que importa, mas também como cada pessoa aprende — ou é levada — a lidar com as adversidades.
Mas aí vem o ponto central do estudo. Quando os pesquisadores analisaram a interação entre exposição à violência e a estratégia evitativa, apareceu um resultado muito relevante. Jovens que relataram maior exposição à violência comunitária e que utilizavam com mais frequência estratégias evitativas — como fugir do problema, não pensar sobre ele ou evitar sentimentos difíceis — apresentaram respostas de cortisol muito mais fortes diante da situação de estresse social. Em outras palavras, quanto maior a violência vivida e maior o uso da evitação, mais intensa foi a reação do organismo.
Para quem tinha níveis médios ou altos de evitação, a violência esteve claramente associada a um aumento mais acentuado nas taxas de cortisol durante o teste. Já entre aqueles que relatavam pouco uso desse tipo de enfrentamento, a violência não fez diferença: não houve aumento significativo da resposta fisiológica ao estresse.
Resultados inesperados
Os resultados foram inesperados – e, em parte, surpreendentes também para os próprios pesquisadores.
Primeiro, eles não encontraram uma associação direta entre viver em ambientes violentos e a reatividade do cortisol. Ou seja, simplesmente ter sido exposto à violência ao longo da vida não significou, por si só, que os jovens apresentariam respostas fisiológicas mais intensas ao estresse social. O estudo focou apenas no cortisol; outras respostas fisiológicas, como frequência cardíaca, não foram medidas.
Mas aí vem o ponto central do estudo. Quando os pesquisadores analisaram a interação entre exposição à violência e a estratégia evitativa, apareceu um resultado muito relevante. Jovens que relataram maior exposição à violência comunitária e que utilizavam com mais frequência estratégias evitativas — como fugir do problema, não pensar sobre ele ou evitar sentimentos difíceis — apresentaram respostas de cortisol muito mais fortes diante da situação de estresse social. Em outras palavras, quanto maior a violência vivida e maior o uso da evitação, mais intensa foi a reação do organismo.
Para quem tinha níveis médios ou altos de evitação, a violência esteve claramente associada a um aumento mais acentuado nas taxas de cortisol durante o teste. Já entre aqueles que relatavam pouco uso desse tipo de enfrentamento, a violência não fez diferença: não houve aumento significativo da resposta fisiológica ao estresse.
Impacto da violência
A estratégia evitativa parece, portanto, funcionar como um verdadeiro amplificador do impacto da violência na saúde fisiológica desses jovens. Em vez de proteger, evitar pensar ou falar sobre experiências violentas pode tornar o organismo ainda mais sensível ao estresse, especialmente em situações de avaliação social — algo muito comum na vida acadêmica e profissional.
Mesmo sendo um estudo exploratório, a mensagem é clara: não é apenas o ambiente violento que importa, mas também como cada pessoa aprende — ou é levada — a lidar com as adversidades. Os resultados sugerem que estratégias mais ativas de enfrentamento, como falar sobre experiências difíceis, buscar apoio e aprender a regular emoções, podem ser caminhos importantes para reduzir os efeitos da violência sobre o corpo.
Isso reforça a necessidade de pensar em intervenções educativas e psicossociais, inclusive em contextos como a sala de aula, que ajudem jovens expostos à violência a desenvolver formas mais saudáveis de lidar com o estresse no dia a dia.
Estratégias mais ativas de lidar com essas situações — como falar sobre experiências difíceis, buscar apoio, refletir sobre emoções e aprender formas de regulação emocional — podem ajudar a reduzir o impacto fisiológico do estresse. Em contextos educacionais, isso reforça a importância de espaços de diálogo, educação socioemocional e práticas que ajudem jovens a nomear, compreender e enfrentar adversidades de forma mais saudável.
Entender o problema é um primeiro passo fundamental — agora, o desafio é transformar esse conhecimento em cuidado e ação concreta para quem vive em contextos de tanta adversidade.

