Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
NOVEMBRO/ DEZEMBRO 2025 | nº4
Intervalo RESENHAS DE LIVROS, SÉRIES, FILMES

Ciência e Educação na prática

Guilherme Brockington
Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino
Membro da Rede CpE

O documentário apresenta como esse espaço propicia o ressurgimento de uma infância saudável e esquecida, e cada dia mais esmagada pelas telas e redes sociais. Ali, naquela roda, o jogo é outro, e lindo.

Mais que reforço escolar, vemos ali um espaço de acolhimento, de convivência saudável, de aprendizagem e de cura.

As estrelas do documentário são mesmo as crianças e essas mulheres incríveis, mas as participações do Mestre João e do capoeira/neurocientista Sidarta Ribeiro são o Médio, que acompanham e preenchem o som do Gunga, que comanda o ritmo e a roda.

Guilherme Brockington
Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino
Membro da Rede CpE

JANEIRO/FEVEREIRO 2026 | n°.5 | Documentário da Rede CpE mergulha no diálogo potente entre olhar científico e prática pedagógica com a Escola no Quintal

IMAGENS EXTRAÍDAS DO DOCUMENTÁRIO “NA PRÁTICA: INTERFACE ENTRE CIÊNCIA E EDUCAÇÃO”

“Capoeira que é bamba escorrega, mas desce sem cair”, já dizia a bela cantiga mandingueira da capoeira Angola, e que sintetiza o espírito do documentário “Na prática: interface entre ciência e educação”, lançado recentemente pela Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede Cpe). A professora Flávia Soares, escapando da queda de um marido violento, se torna a Rainha Guerreira que idealizou e coordena a Escola no Quintal, um projeto sensacional que enche a gente de alegria, amor e fé na vida. A ideia surgiu justamente após a rasteira que levamos com o surgimento da pandemia da covid-19, momento difícil e doloroso para todos, ainda mais para as crianças pobres das famílias sem renda que existem nesse país tão rico.

Flávia, em contato com o seu Sagrado, age para resolver, de alguma forma, o que o poder público ignora, e cria um espaço de acolhimento para essas crianças que estavam, naquele momento, privadas das escolas e sofrendo as tragédias cotidianas agravadas pelo vírus. Assim surge, em Pedreira Prado Lopes, numa favela da grande Belo Horizonte, a Escola no Quintal. O documentário apresenta como esse espaço propicia o ressurgimento de uma infância saudável e esquecida, e cada dia mais esmagada pelas telas e redes sociais. Ali, naquela roda, o jogo é outro, e lindo.

Celulares não são proibidos, mas naturalmente perdem sua importância pois não conseguem competir com a peteca, a bola, o peão… o rolar da tela é facilmente derrotado pelo soltar papagaio, amassar o pão e pisar no barro. É a criança podendo brincar novamente, livre, criativa e alegre.

Hoje, há inúmeras pesquisas em psicologia e neurociência que revelam os impactos positivos (e imprescindíveis) da brincadeira no desenvolvimento humano. E aqui, nessa roda, jogam também as mães. É tocante ouvir Aline, mãe aos 16 anos, que relata uma infância interrompida pela gravidez e parcialmente recuperada neste espaço, onde pôde brincar novamente, algo que já havia esquecido. A brincadeira revela, assim, seu potencial transformador.

O documentário apresenta como esse espaço propicia o ressurgimento de uma infância saudável e esquecida, e cada dia mais esmagada pelas telas e redes sociais. Ali, naquela roda, o jogo é outro, e lindo.

Alfabetização sem dor

Ancorada no que Flávia chama de “alfabetização sem dor”, a pedagogia apresentada no documentário mostra como a valorização da cultura da infância, do acolhimento, do corpo em movimento, da dança e das raízes afro-ameríndias produz impactos profundos em crianças e adultos envolvidos no projeto.

Nascido na tentativa de evitar que os ganhos do desenvolvimento se dissipassem durante a pandemia, a Escola no Quintal fez e faz muito mais: crianças e mães voltaram a escrever e se orgulhar do próprio nome. Mais que reforço escolar, vemos ali um espaço de acolhimento, de convivência saudável, de aprendizagem e de cura.

Resgatando saberes tradicionais, brincadeiras de avós e avôs, mandingas esquecidas pelo tempo, Flávia, juntamente com diversas professoras dedicadas, constroem e resgatam a autoestima e a potência de crianças invisibilizadas pelo sistema que move esse país. Assim, podemos assistir a uma jovem menina dizendo que sonha em ser médica, uma molecada alegre, mostrando diversas medalhas em olimpíadas de matemática, xadrez, comportamento… ou seja, pessoas reais se esquivando do golpe da vida e já subindo para o jogo.

Mais que reforço escolar, vemos ali um espaço de acolhimento, de convivência saudável, de aprendizagem e de cura.

Crianças e mães, as estrelas

O mais tocante do documentário é conhecer as mães. Ivanilde, Liliam, Valdirene, Juliana, Silvana e Aline, mulheres como milhões que existem nesse país, invisibilizadas por uma sociedade racista e misógina, encontrando na Escola no Quintal um espaço de reconhecimento, acolhimento e cuidado. Todas, sem exceção, mostram sua preocupação com seus filhos e a gratidão pelo que compartilham ali. E, mais que isso, suas vozes são ouvidas.

As estrelas do documentário são mesmo as crianças e essas mulheres incríveis, mas as participações do Mestre João e do capoeira/neurocientista Sidarta Ribeiro são o Médio, que acompanham e preenchem o som do Gunga, que comanda o ritmo e a roda. É um documentário curto, de cerca de 50 minutos de duração, que mostra que é possível criarmos mundos melhores, mais acolhedores, mais bonitos que permitem que as crianças se desenvolvam plenas, alegres, felizes e potentes.

Em um mundo cada dia mais agressivo e doente, não me admira que surja da capoeira a saída. Do esforço de preservar a cultura de seus povos surgiu uma arte que é, ao mesmo tempo, luta, resistência e beleza, assim como a Escola no Quintal. Mais uma vez, vale mergulhar no documentário: o link está aqui.

As estrelas do documentário são mesmo as crianças e essas mulheres incríveis, mas as participações do Mestre João e do capoeira/neurocientista Sidarta Ribeiro são o Médio, que acompanham e preenchem o som do Gunga, que comanda o ritmo e a roda.

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