Maria Beatriz Martins Linhares
Psicóloga – Professora Associada Sênior da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP
Laboratório de Pesquisa em Prevenção de Problemas do Desenvolvimento e Comportamento da Criança – LAPREDES
Membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância – NCPI
Membro da Rede CpE
Marília Souza Silva Branco
Psicóloga – Especialista em Psicologia do Desenvolvimento na área da Saúde
Mestre em Saúde Mental pela FMRP-USP
Laboratório de Pesquisa em Prevenção de Problemas do Desenvolvimento e Comportamento da Criança – LAPREDES
Maria Thereza Costa Coelho de Souza
Psicóloga – Professora Titular do Instituto de Psicologia da USP
Membro do Comitê Científico do Núcleo de Ciência pela Infância – NCPI
O uso de telas na primeira infância expõe as crianças a estímulos rápidos, intensos e altamente complexos, que diferem substancialmente das experiências sensório-motoras e sociais do mundo real.
Crianças expostas a mais de uma a duas horas diárias de telas apresentaram maior risco de atrasos no desenvolvimento cognitivo e da linguagem, incluindo dificuldades de compreensão, vocabulário e resolução de problemas.
Diretrizes para o uso de mídias digitais protegendo a saúde das crianças são recomendadas e precisam ser seguidas.
Pais, mães e cuidadores devem mediar o uso de telas, monitorar o tempo de exposição, selecionar conteúdos apropriados, assistir junto às crianças e modelar comportamentos saudáveis.
Maria Beatriz Martins Linhares
Psicóloga – Professora Associada Sênior da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP
Laboratório de Pesquisa em Prevenção de Problemas do Desenvolvimento e Comportamento da Criança – LAPREDES
Membro do Comitê Científico do Núcleo Ciência pela Infância – NCPI
Membro da Rede CpE
Marília Souza Silva Branco
Psicóloga – Especialista em Psicologia do Desenvolvimento na área da Saúde
Mestre em Saúde Mental pela FMRP-USP
Laboratório de Pesquisa em Prevenção de Problemas do Desenvolvimento e Comportamento da Criança – LAPREDES
Maria Thereza Costa Coelho de Souza
Psicóloga – Professora Titular do Instituto de Psicologia da USP
Membro do Comitê Científico do Núcleo de Ciência pela Infância – NCPI
ABRIL/MAIO 2026 |nº.6| Uso consciente, mediado e equilibrado de telas e tecnologias, aliado à valorização das interações sociais presenciais e do brincar, pode ser “vacina” para proteger o desenvolvimento humano
IMAGEM: ADOBESTOCK
A primeira infância, compreendida do nascimento aos seis anos de idade, constitui um período sensível para o desenvolvimento humano, no qual se estabelecem as bases neurobiológicas, cognitivas, emocionais e sociais que sustentam o funcionamento ao longo de todo o ciclo vital. As experiências vividas nessa fase possuem caráter estruturante e duradouro, sendo fortemente influenciadas pela qualidade dos estímulos ambientais, das interações sociais e dos vínculos afetivos estabelecidos com cuidadores e pares. Nas últimas décadas, os avanços tecnológicos e a ampla disseminação de dispositivos digitais conectados à internet transformaram profundamente os contextos de socialização, aprendizagem e lazer das crianças. Aprofundamos o tema em um documento para a coalizão de pesquisadores Núcleo de Ciência pela Infância (NCPI), intitulado “Proteção à primeira infância entre telas e mídias digitais”, que foi publicado em dezembro de 2025.
No documento mostramos que, embora tais tecnologias digitais ofereçam oportunidades relevantes, seu uso precoce, excessivo ou não mediado e supervisionado por adultos tem sido associado a riscos significativos ao desenvolvimento infantil, especialmente na primeira infância, marcada por intensa e fundamental plasticidade cerebral. Nessa fase, o cérebro é altamente sensível às experiências ambientais vivenciadas.
Desenvolvimento infantil e interações sociais
As interações sociais presenciais constituem o principal estímulo do desenvolvimento infantil. Trocas bidirecionais, sincrônicas, sensíveis e naturais entre crianças e seus cuidadores — envolvendo linguagem verbal, gestos, expressões faciais, contato físico, demonstração de emoções — promovem a aquisição da linguagem, a regulação emocional, a cognição social e a formação de vínculos afetivos seguros.
A sincronia interacional, caracterizada pelo “vai e vem” de trocas sociais entre o adulto e a criança, está associada a marcadores neurobiológicos relacionados à regulação emocional e à vinculação afetiva. As interações com mediação social qualificada, conforme proposto pelo psicólogo e pesquisador bielorrusso Lev Vygotsky, ampliam o desenvolvimento potencial da criança, permitindo aprendizagens que não ocorreriam de forma isolada.
Uso de telas e mídias digitais
O uso de telas na primeira infância expõe as crianças a estímulos rápidos, intensos e altamente complexos, que diferem substancialmente das experiências sensório-motoras e sociais do mundo real. Evidências mostram que crianças pequenas apresentam dificuldades em transferir aprendizagens das telas para situações reais. E o acesso a essas tecnologias tem ocorrido cada vez mais cedo.
O uso de telas na primeira infância expõe as crianças a estímulos rápidos, intensos e altamente complexos, que diferem substancialmente das experiências sensório-motoras e sociais do mundo real.
A pesquisa TIC Kids Online Brasil, realizada por meio de entrevistas com adultos de 21.170 domicílios brasileiros em 2024, indicou que 44% das crianças de 0 a 2 anos e 71% das crianças de 3 a 5 anos já têm acesso à internet. Esse fenômeno se intensificou de 2015 a 2024, sendo identificado em famílias de diferentes níveis socioeconômicos.
Desenvolvimento cerebral
Estudos de neuroimagem demonstraram associação entre maior tempo de uso de mídia digital e alterações estruturais em regiões do cérebro relacionadas ao processamento visual, linguagem, atenção e cognição social.
O uso excessivo e passivo de telas também foi associado a prejuízos em áreas responsáveis pela regulação emocional e controle inibitório de impulsos.
Crianças expostas a mais de uma a duas horas diárias de telas apresentaram maior risco de atrasos no desenvolvimento cognitivo e da linguagem, incluindo dificuldades de compreensão, vocabulário e resolução de problemas. Esses efeitos foram mais pronunciados em meninos e em crianças que viviam em contextos familiares em que as mães tinham menor escolaridade.
Crianças expostas a mais de uma a duas horas diárias de telas apresentaram maior risco de atrasos no desenvolvimento cognitivo e da linguagem, incluindo dificuldades de compreensão, vocabulário e resolução de problemas.
O uso excessivo de telas foi associado ainda a maior reatividade emocional, agressividade, problemas de atenção e dificuldades de autorregulação em crianças pequenas. A exposição precoce e prolongada compromete habilidades sociais essenciais desenvolvidas por meio da interação face a face.
O uso de telas, especialmente no período noturno, também esteve associado a distúrbios do sono, redução da melatonina, atraso do ritmo circadiano e prejuízos ao desenvolvimento emocional e cerebral. Foram observados ainda impactos negativos na alimentação, atividade física e saúde ocular.
A qualidade do conteúdo é outro importante componente a ser observado. A exposição a conteúdos adultos, violentos ou não apropriados à idade das crianças foi associada a problemas cognitivos, comportamentais e emocionais desde os primeiros anos do desenvolvimento.
Conteúdos violentos, mesmo em videogames “divertidos”, podem dessensibilizar as crianças à violência e aumentar comportamentos agressivos, ansiedade e medo, com alterações em circuitos cerebrais relacionados à regulação do comportamento.
Diretrizes para o uso de mídias digitais protegendo a saúde das crianças são recomendadas e precisam ser seguidas. Hoje se sabe que os efeitos do uso inadequado de telas não se restringem à primeira infância. Na segunda infância e na adolescência, observou-se associação entre maior tempo de uso de telas e problemas de saúde mental e de desempenho acadêmico, sintomas depressivos, bullying e cyberbullying.
Diretrizes para o uso de mídias digitais protegendo a saúde das crianças são recomendadas e precisam ser seguidas.
Papel da família e estratégias alternativas
No entanto, o uso mediado por adultos com supervisão e orientação, equilibrado e com qualidade das tecnologias digitais, pode oferecer alguns benefícios. Interações por videochamadas com familiares, conteúdos educativos adequados à idade das crianças e aplicativos interativos mediados por adultos podem favorecer a linguagem, alfabetização inicial e funções executivas.
No contexto educacional, intervenções pedagógicas bem estruturadas com uso de tecnologia, conduzidas por professores qualificados, podem favorecer aprendizagens específicas, como matemática e leitura. Tecnologias assistivas também promovem a inclusão de crianças com necessidades educativas especiais.
A parentalidade positiva é um fator central de proteção ao desenvolvimento das crianças. Pais, mães e cuidadores devem mediar o uso de telas, monitorar o tempo de exposição, selecionar conteúdos apropriados, assistir junto às crianças e modelar comportamentos saudáveis.
Pais, mães e cuidadores devem mediar o uso de telas, monitorar o tempo de exposição, selecionar conteúdos apropriados, assistir junto às crianças e modelar comportamentos saudáveis.
O uso excessivo de telas pelos próprios adultos pode interromper interações afetivas e prejudicar o desenvolvimento socioemocional infantil. O uso de telas como estratégia para acalmar crianças compromete exatamente o desenvolvimento da autorregulação emocional e comportamental que é um processo que se dá na fase da primeira infância.
Destaca-se ainda o fenômeno negativo do sharenting, uma junção dos termos em inglês share (compartilhar) e parenting (cuidado parental) para definir a ação dos pais que expõem crianças nas redes, com riscos à sua privacidade, identidade e segurança digital, exigindo reflexão ética e responsabilidade parental.
Na primeira infância, deve-se estimular atividades tais como o brincar livremente, leitura compartilhada, contação de histórias, atividades ao ar livre, esportes e contato com a natureza, que são fundamentais para o desenvolvimento infantil. O brincar, especialmente o faz-de-conta, promove funções executivas, linguagem, criatividade e habilidades sociais. O uso de telas restringe o acesso às atividades que são estimuladoras do desenvolvimento das crianças, que são brincar e interagir socialmente.
Leis, guias e políticas públicas
O Brasil possui um robusto arcabouço legal de proteção à infância, incluindo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Marco Legal da Primeira Infância, a Lei Geral de Proteção de Dados, legislações contra o cyberbullying e normas de regulação do uso de celulares nas escolas.
Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria, da Organização Mundial da Saúde e de outras associações e organizações nacionais e internacionais recomendam evitar telas antes dos dois anos, limitar o tempo de uso nas idades subsequentes e priorizar a mediação adulta. Destaca-se o Guia sobre uso de dispositivos digitais para crianças e adolescentes, produzido pelo Governo do Brasil. Recentemente, avanços consideráveis foram realizados com o ECA Digital, que propõe a regulação efetiva das plataformas digitais e estratégias de monitoramento e controle protetivo às crianças e adolescentes.
O principal foco de ação deve ser na criação de políticas públicas efetivas com abordagens intersetoriais baseadas em evidências, promovendo educação digital, proteção de direitos, formação de profissionais, campanhas de conscientização e criação de espaços seguros e comunitários para as crianças brincarem.
Proteger a primeira infância frente aos desafios da era digital é um imperativo humano, ético e social para a garantia dos direitos das crianças. O uso consciente, mediado e equilibrado das tecnologias, aliado à valorização das interações presenciais e do brincar, constitui a estratégia mais eficaz para promover um desenvolvimento saudável. A primeira infância é uma fase que se leva para a vida toda. Portanto, investir na primeira infância equivale a uma “vacina” para o desenvolvimento humano, com benefícios duradouros para indivíduos e para a sociedade. A leitura completa do material para o NCPI que embasa essa conclusões está disponível neste link.
O principal foco de ação deve ser na criação de políticas públicas efetivas com abordagens intersetoriais baseadas em evidências, promovendo educação digital, proteção de direitos, formação de profissionais, campanhas de conscientização e criação de espaços seguros e comunitários para as crianças brincarem.


