Fernando Louzada
Neurocientista e professor titular da Universidade Federal do Paraná
Coordenador-adjunto da Rede CpE e Membro do Comitê Editorial de Yvirá
Evidências empíricas indicaram perdas significativas de aprendizagem, particularmente em matemática, além de redução no percentual de estudantes que atingiram níveis adequados de desempenho em diferentes etapas de ensino.
Essas mudanças foram acompanhadas por uma redução do chamado jetlag social, indicando maior alinhamento entre os ritmos biológicos e os horários de sono.
Evidências iniciais sugerem que modelos de horários escolares mais flexíveis são viáveis e podem trazer benefícios, embora ainda seja necessário aprofundar as pesquisas sobre seus impactos.
Fernando Louzada
Neurocientista e professor titular da Universidade Federal do Paraná
Coordenador-adjunto da Rede CpE e Membro do Comitê Editorial de Yvirá
OUTUBRO/NOVEMBRO 2026 | nº 9 | Com retorno às atividades presenciais, impacto positivo da flexibilização dos horários foi negligenciado, especialmente no contexto escolar CRÉDITO: ILUSTRAÇÃO: C. FLEURY COM GEMINI
Durante a pandemia da Covid-19, o cotidiano passou a ser marcado por perdas, medo, ansiedade e incertezas, ao mesmo tempo em que emergiram importantes dilemas éticos, especialmente relacionados à alocação de recursos escassos e às restrições de mobilidade e interação social. Esse contexto gerou um conjunto significativo de lições em diversas áreas, incluindo saúde, educação e organização social. No campo educacional, a pandemia provocou uma ruptura sem precedentes, afetando cerca de 1,6 bilhão de estudantes em todo o mundo e levando ao fechamento prolongado de escolas em muitos países.
As consequências do ensino remoto emergencial foram amplas e desiguais. Professores relataram dificuldades em manter o ritmo de aprendizagem e em cobrir os conteúdos previstos, enquanto estudantes, especialmente os de menor nível socioeconômico, enfrentaram obstáculos adicionais, como falta de acesso a recursos digitais e ambientes adequados de estudo.
Essas desigualdades aprofundaram problemas estruturais já existentes, com impactos mais severos sobre grupos vulneráveis, incluindo alunos em situação de insegurança alimentar e aqueles com deficiência. Evidências empíricas indicaram perdas significativas de aprendizagem, particularmente em matemática, além de redução no percentual de estudantes que atingiram níveis adequados de desempenho em diferentes etapas de ensino.
Evidências empíricas indicaram perdas significativas de aprendizagem, particularmente em matemática, além de redução no percentual de estudantes que atingiram níveis adequados de desempenho em diferentes etapas de ensino.
Além dos prejuízos acadêmicos, houve impactos importantes no bem-estar emocional. O aumento de sintomas de ansiedade entre estudantes e a intensificação da carga de trabalho docente foram amplamente observados. Professores precisaram adaptar rapidamente suas práticas pedagógicas, muitas vezes de forma autodidata, o que também contribuiu para o desenvolvimento acelerado de competências digitais.
Nesse processo, termos como ensino remoto, aulas síncronas e assíncronas e ensino híbrido passaram a integrar o cotidiano educacional. A pandemia, portanto, atuou como catalisadora da incorporação de tecnologias digitais, evidenciando tanto seu potencial quanto a necessidade de políticas de formação continuada.
Alinhamento de ritmos biológicos e sono
Paralelamente, a pandemia também impactou a saúde de forma ampla, incluindo alterações relevantes no sono. Estudos indicaram piora na qualidade do sono, aumento de despertares noturnos e maior tempo para adormecer, frequentemente associados ao aumento de problemas de saúde mental. Contudo, também foram observadas mudanças que sugerem efeitos potencialmente positivos: houve aumento da duração do sono, atraso nos horários de dormir e acordar e maior frequência de cochilos diurnos. Entre adolescentes, por exemplo, aumentou significativamente a proporção daqueles que conseguiam dormir o tempo recomendado.
Essas mudanças foram acompanhadas por uma redução do chamado jetlag social, indicando maior alinhamento entre os ritmos biológicos e os horários de sono. A flexibilização imposta pelo lockdown permitiu que muitos indivíduos ajustassem seus horários de acordo com suas necessidades biológicas, evidenciando a influência das estruturas sociais rígidas sobre a organização do tempo. Também foram observadas alterações em outros comportamentos rítmicos, como os horários de alimentação, reforçando a ideia de que o sistema circadiano é altamente sensível a mudanças no contexto social.
Essas mudanças foram acompanhadas por uma redução do chamado jetlag social, indicando maior alinhamento entre os ritmos biológicos e os horários de sono.
Com o retorno às atividades presenciais, muitas dessas mudanças foram gradualmente revertidas, com a retomada de horários mais rígidos e a redução da duração do sono. No entanto, esse retorno também trouxe à tona uma importante lição que, em grande medida, foi negligenciada: o impacto positivo da flexibilização dos horários, especialmente no contexto escolar. Apesar das evidências, ao final da pandemia os horários escolares voltaram a ser estruturados de forma rígida, frequentemente incompatíveis com as necessidades de sono dos estudantes, particularmente adolescentes.
Horários escolares mais flexíveis
A pandemia evidenciou que não existe um único horário ideal que atenda a todos, dada a variabilidade individual nos ritmos biológicos. Nesse sentido, propostas de flexibilização dos horários escolares ganham relevância. Isso não implica eliminar o ensino presencial, que continua sendo fundamental para o desenvolvimento social, mas sim integrar modelos mais flexíveis que combinem atividades presenciais e remotas. Uma possível abordagem envolve a manutenção de uma base comum presencial, complementada por atividades em ambientes virtuais, permitindo maior adaptação dos tempos e espaços de aprendizagem.
Outro aspecto central diz respeito à regularidade dos horários de sono, que tem sido apontada como tão ou mais importante que sua duração total para a saúde. A flexibilização, nesse contexto, não significa ausência de estrutura, mas sim a criação de condições para que os estudantes mantenham rotinas mais consistentes e alinhadas aos seus ritmos biológicos.
Evidências iniciais sugerem que modelos de horários escolares mais flexíveis são viáveis e podem trazer benefícios, embora ainda seja necessário aprofundar as pesquisas sobre seus impactos.
Evidências iniciais sugerem que modelos de horários escolares mais flexíveis são viáveis e podem trazer benefícios, embora ainda seja necessário aprofundar as pesquisas sobre seus impactos.
Em síntese, a pandemia revelou fragilidades importantes, mas também abriu oportunidades para repensar a organização dos sistemas educacionais. Ignorar os aprendizados desse período, especialmente aqueles relacionados à relação entre sono, saúde e aprendizagem, significa perder uma oportunidade valiosa de promover mudanças fundamentadas em evidências. A construção de um sistema educacional mais inclusivo, flexível e adaptado às necessidades dos estudantes depende da incorporação dessas lições, sem renunciar à convivência presencial, mas buscando torná-la mais eficaz e saudável.


