Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
AGOSTO/SETEMBRO 2026 | nº8
Vale nota VIVÊNCIAS DIVERSAS, DIRETO DAS SALAS DE AULA

A educação que construímos juntos na Maré

Relato concedido a Elisa Martins
Jornalista, especial para a Yvirá

O direito à educação vai muito além do acesso: exige permanência, aprendizagem, inclusão, valorização dos profissionais da educação e condições para que nenhuma criança tenha sua trajetória interrompida pela violência armada, pelo racismo ou pelas desigualdades.

Essa transformação começou em 1998, com a criação do Curso Pré-Vestibular da Maré, que se tornou um patrimônio do território. Naquele momento, chegar à universidade era uma realidade para pouquíssimos moradores. Hoje, mais de 1.300 estudantes já ingressaram no ensino superior.

Esse trabalho se articula a uma agenda permanente de incidência política, que reúne monitoramento de indicadores, diálogo com o poder público e participação em espaços de formulação e controle social.

Relato concedido a Elisa Martins
Jornalista, especial para a Yvirá

AGOSTO/SETEMBRO 2026 | nº 8 | Diversidade de iniciativas que acompanham crianças, adolescentes, jovens e adultos oferece oportunidade de ampliar horizontes e transformar trajetórias FOTOS: REPRODUÇÃO “REDES DA MARÉ”

Quando chegou ao Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, em 2001, para trabalhar em um projeto de atividades extracurriculares nas escolas da região, Andréia Martins não imaginava que aquele seria o início de uma jornada que transformaria sua vida. Foi ali que a hoje diretora da Redes da Maré, uma organização da sociedade civil que nasceu da mobilização comunitária a partir dos anos 1980, conheceu a força de um território capaz de transformar a educação em um instrumento de transformação social.

Em relato para YVIRÁ, Andréia conta como diferentes iniciativas mudaram a realidade local, ampliando o direito à educação para além do acesso à escola. Hoje, as 15 comunidades que formam o bairro da Maré, onde residem mais de 140 mil pessoas, contam com 45 escolas municipais e quatro estaduais, uma conquista coletiva que permitiu que milhares de estudantes passassem a estudar mais perto de casa e sem sua trajetória interrompida pela violência armada, pelo racismo ou pelas desigualdades. Confira a seguir.

Andréia Martins
Diretora da Redes da Maré
Técnica em Assuntos Educacionais da UFRJ
Doutora em Educação (PUC-Rio)

A Maré que encontrei em 2021 tinha apenas 22 escolas públicas para atender milhares de crianças, adolescentes, jovens e adultos. A falta de vagas era uma realidade, sobretudo na Educação Infantil e na Educação de Jovens e Adultos. Garantir o direito à educação significava, antes de tudo, garantir a existência de escolas.

As mudanças não aconteceram por acaso. Em 2010, o projeto  Maré Que Queremos reuniu associações de moradores e a Redes da Maré e transformou reivindicações históricas em propostas concretas para o poder público, entre elas a ampliação da rede pública de ensino.

A mobilização deu resultado. Hoje, a Maré conta com 45 escolas municipais e quatro estaduais, uma conquista coletiva que permitiu que milhares de estudantes passassem a estudar mais perto de casa e reafirmou que a participação social produz mudanças reais.

Contudo, aprendemos que o direito à educação vai muito além do acesso: exige permanência, aprendizagem, inclusão, valorização dos profissionais da educação e condições para que nenhuma criança tenha sua trajetória interrompida pela violência armada, pelo racismo ou pelas desigualdades.

O direito à educação vai muito além do acesso: exige permanência, aprendizagem, inclusão, valorização dos profissionais da educação e condições para que nenhuma criança tenha sua trajetória interrompida pela violência armada, pelo racismo ou pelas desigualdades.

A Carta que nasceu da voz da Maré

Nenhum momento, talvez, represente melhor essa caminhada do que a construção da Carta para a Educação na Maré, em 15 de junho de 2023, durante o 4º Seminário de Educação da Maré: Diálogos e possibilidades para garantia do direito à educação.

A Carta nasceu do diálogo entre professores, estudantes, famílias, gestores, pesquisadores e moradores. Mais do que um documento, expressa o compromisso coletivo com uma educação pública inclusiva, antirracista, democrática e acolhedora para as 49 escolas públicas da Maré.

Quando olho para essa trajetória, vejo que a educação permanece como um dos pilares da atuação da Redes da Maré pela garantia de direitos em um território onde vivem cerca de 140 mil pessoas. Apesar dos avanços, um desafio continua evidente: Dados do Censo Escolar de 2024 apontam que a Maré tem mais de  41 mil crianças e adolescentes de 0 a 17 anos, mas apenas cerca de 20 mil estudantes estão matriculados nas escolas públicas locais. Esse dado mostra que ampliar o acesso à educação de qualidade continua sendo uma das nossas principais lutas.

Ao longo dessa caminhada, tive o privilégio de acompanhar histórias que dão sentido a tudo o que foi construído, coletivamente. Vi jovens transformarem o que antes parecia um sonho inalcançável em realidade, ao cruzarem os portões de universidades públicas de excelência. Vi estudantes conquistarem vagas em escolas de referência e famílias inteiras voltarem a estudar. Vi mulheres serem alfabetizadas já adultas ou idosas.

Essa transformação começou em 1998, com a criação do Curso Pré-Vestibular da Maré, que se tornou um patrimônio do território. Naquele momento, chegar à universidade era uma realidade para pouquíssimos moradores. Hoje, mais de 1.300 estudantes já ingressaram no ensino superior. Em 2025, comemoramos 40 aprovações, sendo 37 em universidades públicas. O Curso Preparatório para o Ensino Médio também já contribuiu para a aprovação de 467 estudantes, 333 deles em escolas públicas de excelência. 

Essa transformação começou em 1998, com a criação do Curso Pré-Vestibular da Maré, que se tornou um patrimônio do território. Naquele momento, chegar à universidade era uma realidade para pouquíssimos moradores. Hoje, mais de 1.300 estudantes já ingressaram no ensino superior.

O futuro que seguimos construindo

A conquista de cada uma dessas pessoas nos inspira e nos desafia a ir além, ampliando a compreensão sobre o papel que uma instituição da sociedade civil pode ter na defesa do direito à educação. Percebemos que a experiência acumulada no território precisava também produzir conhecimento capaz de qualificar o debate público e fortalecer a incidência política. A Incidência Política da Redes da Maré é uma frente estratégica que articula ações para promover transformações concretas na forma como as políticas públicas são pensadas, implementadas e monitoradas nas 15 favelas da Maré.

Foi assim que pesquisas e publicações, como  Educação pública no conjunto de favelas da Maré: desafios e potencialidades e Análises: O Direito à Educação na Maré passaram a transformar a realidade vivida nas escolas da Maré em evidências, registrando não apenas as desigualdades, mas também as experiências, resistências e soluções construídas coletivamente pela comunidade. Esse trabalho se articula a uma agenda permanente de incidência política, que reúne monitoramento de indicadores, diálogo com o poder público e participação em espaços de formulação e controle social.

Esse trabalho se articula a uma agenda permanente de incidência política, que reúne monitoramento de indicadores, diálogo com o poder público e participação em espaços de formulação e controle social.

Entre os principais desafios que seguimos denunciando está o impacto da violência armada sobre o direito à educação. Dados da 9ª edição do Boletim de Segurança Pública na Maré mostram que, entre 2016 e 2025, as escolas deixaram de funcionar por cerca de 163 dias em decorrência de operações policiais.

Essas evidências fortaleceram nossa atuação pela garantia dos 200 dias letivos e contribuíram para a homologação do Parecer CNE/CEB nº 3/2026 pelo Ministério da Educação, formalizada pela publicação da Resolução CNE/CEB nº 3/2026, que estabelece Diretrizes Nacionais para garantir os 200 dias letivos em contextos de crise, incluindo situações de violência armada. Mais do que celebrar esse avanço, seguimos comprometidos em acompanhar sua implementação para que as diretrizes se traduzam em proteção efetiva ao direito à educação nas favelas e periferias.

É dessa compreensão que nasce a campanha Vamos pra Escola, que em 2026 chegou à 5ª edição. Ela mobiliza moradores para garantir o acesso às matrículas e reafirma que a educação é um direito coletivo.

Hoje seguimos desenvolvendo iniciativas  no Eixo Educação que acompanham crianças, adolescentes, jovens e adultos em diferentes trajetórias escolares, reafirmando que garantir o direito à educação exige presença permanente no território. Ao longo dessa caminhada, milhares de pessoas encontraram na educação a oportunidade de ampliar seus horizontes e transformar suas trajetórias.

Que o direito dos moradores de favelas e periferias sejam assegurados e ampliados!

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