Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
ABRIL/MAIO 2026 | nº6
Vale nota VIVÊNCIAS DIVERSAS, DIRETO DAS SALAS DE AULA

‘Educar pessoas idosas é exercício de escuta ativa e humildade acadêmica’

Relato concedido a Elisa Martins
Jornalista, especial para a Yvirá

Meu papel ali não é o de “transferir” conhecimento, mas o de mediar o encontro entre as suas experiências de vida e as novas ferramentas do mundo contemporâneo.

Como educadora, percebi que o tempo na educação 60+ tem outra cadência.

Entretanto, nem tudo são flores. Existe o preconceito estrutural, o etarismo, que muitas vezes vem de dentro da própria família.

Vejo pessoas que reaprenderam a ler para contar histórias para os bisnetos, homens que aprenderam a cozinhar após a viuvez e mulheres que descobriram o feminismo aos 80 anos.

Reports given to Elisa Martins
Journalist, special for Yvirá

ABRIL/MAIO | nº6 | Na educação 60+, não há pressa para bater metas curriculares rígidas, mas há uma urgência silenciosa em dar sentido ao que se aprende, e cada conceito precisa ser ancorado na realidade

Se o assunto é literatura, a discussão em sala de aula não é apenas sobre a estrutura do texto, mas sobre como aquela história conversa com as memórias de juventude dos alunos. Se o tema é cidadania, discutem-se os direitos que eles conquistaram a duras penas. Funciona assim o dia a dia na sala de aula da professora Jaqueline Rosa da Cunha, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS – Campus Porto Alegre), educadora com 26 anos de experiência na Educação de Jovens e Adultos (EJA). 

Na convivência com os alunos de mais de 60 anos, Jaqueline transformou sua visão sobre o próprio envelhecimento. Nesse ambiente de afeto e escuta, e em meio a um desafio cognitivo real e estigmas como o etarismo, aprendeu com eles que o conhecimento é o único bem que, quanto mais se compartilha, mais se possui. “Nessa faixa etária, o processo de aprendizado é intrinsecamente ligado à afetividade. Se o ambiente não for acolhedor, se não houver espaço para o erro sem julgamento, a barreira cognitiva se torna intransponível”, afirma. “A plasticidade cerebral continua lá — a ciência já provou que o cérebro idoso é capaz de ativar novas conexões — mas o motor que impulsiona essa mudança é a motivação emocional”. Confira a seguir.

Jaqueline Rosa da Cunha
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul –
Campus Porto Alegre
Professora da EJA (Educação de Jovens e Adultos) há 26 anos

Meu papel ali não é o de “transferir” conhecimento, mas o de mediar o encontro entre as suas experiências de vida e as novas ferramentas do mundo contemporâneo.

“Quando entrei na sala de aula pela primeira vez para lecionar especificamente para o público 60+, eu tinha 23 anos. Confesso que carregava comigo um roteiro estruturado sob o viés da pedagogia tradicional, já que não tinha experiência de sala de aula e pouca experiência de vida. Imaginei que encontraria estudantes ávidos por preencher lacunas de um tempo em que a educação lhes fora negada ou interrompida. O que encontrei, contudo, foi um espelho que me forçou a desaprender para, finalmente, começar a ensinar.

Educar pessoas idosas é, antes de tudo, um exercício de escuta ativa e humildade acadêmica. Diferente de uma criança, que é um campo aberto para o novo, esse é um território densamente povoado. Essas pessoas chegam à sala com uma bagagem de seis, sete ou mais décadas de vivências, perdas, vitórias e, principalmente, de saberes práticos que muitas vezes valem mais do que qualquer teoria acadêmica. Meu papel ali não é o de “transferir” conhecimento, mas o de mediar o encontro entre as suas experiências de vida e as novas ferramentas do mundo contemporâneo.

Lembro-me de uma estudante, Dona Sirlei, de 64 anos. No início do curso de inclusão digital, ela olhava para o computador como se fosse um artefato de outro planeta. Suas mãos, marcadas pelo tempo e pelo trabalho, tremiam levemente. O maior obstáculo da Dona Sirlei não era a complexidade do sistema operacional, mas o medo. O medo de errar, o medo de “estragar o aparelho”, o medo de parecer inadequada em uma era que parece correr em uma velocidade que ela já não desejava mais acompanhar.

Como educadora, percebi que o tempo na educação 60+ tem outra cadência. Entretanto, nem tudo são flores. Existe o preconceito estrutural, o etarismo, que muitas vezes vem de dentro da própria família.

Aprendizado e afetividade

Nessa faixa etária, o processo de aprendizado é intrinsecamente ligado à afetividade. Se o ambiente não for acolhedor, se não houver espaço para o erro sem julgamento, a barreira cognitiva se torna intransponível. A plasticidade cerebral continua lá — a ciência já provou que o cérebro idoso é capaz de ativar novas conexões — mas o motor que impulsiona essa mudança é a motivação emocional. 

Quando outro estudante, Hélio, de 70 anos, conseguiu enviar sua primeira mensagem por e-mail para o professor de informática, vi o exato momento em que o aprendizado se transformou em empoderamento. Ele não estava apenas “mexendo no computador”. Estava recuperando o direito de pertencer ao agora e expressou a seguinte frase: “Agora estou no mundo igual a vocês! Tudo vai chegar pra mim também.” E batia palmas, sorrindo de felicidade feito um menino que havia ganhado o presente tão sonhado.

Como educadora, percebi que o tempo na educação 60+ tem outra cadência. Não há pressa para bater metas curriculares rígidas, mas há uma urgência silenciosa em dar sentido ao que se aprende. Cada conceito precisa ser ancorado na realidade. Se estamos falando de literatura, não discutimos apenas a estrutura do texto, mas como aquela história conversa com as memórias da juventude deles. Se falamos de cidadania, discutimos os direitos que eles conquistaram a duras penas.

O desafio cognitivo é real. A memória de curto prazo pode oscilar e o processamento de informações pode ser mais lento, mas a capacidade de síntese e o pensamento crítico da pessoa idosa são fenomenais. Elas possuem o que chamamos de inteligência cristalizada — a habilidade de usar conhecimentos adquiridos ao longo da vida para resolver problemas. 

Em minhas aulas, incentivo que contem como sobreviveram a crises econômicas ou como se organizavam em uma comunidade sem internet. A sala de aula se torna um laboratório de história viva e a turma, heterogênea em idade, encanta-se com as histórias da sociedade, da cultura e das inter-relações sociais que vão se construindo.

Entretanto, nem tudo são flores. Existe o preconceito estrutural, o etarismo, que muitas vezes vem de dentro da própria família.

Etarismo e estigma

Entretanto, nem tudo são flores. Existe o preconceito estrutural, o etarismo, que muitas vezes vem de dentro da própria família. “Para que você quer estudar isso agora, nessa altura da vida?”, é uma frase que muitos ouvem. Esse estigma social gera uma autossabotagem perigosa. Minha missão, portanto, transcende o ensino de conteúdos: eu atuo na reconstrução da autoestima. 

Educar para a longevidade é convencer o sujeito de que o ato de aprender só termina com o último suspiro. A aposentadoria pode ser do mercado de trabalho, mas nunca da curiosidade.

O retorno que recebo é desproporcional ao que ofereço. A gratidão de estudantes 60+ é profunda e leal.  Valorizam o minuto, o olhar atento e a paciência. Aprendi com essas pessoas que a educação na terceira idade é uma forma de resistência contra o isolamento social. A escola é um ponto de encontro, um clube, um refúgio e um novo começo.

Ao final de cada semestre, olho para minha turma e vejo rostos que antes eram cansados e agora brilham com a satisfação da descoberta. Vejo pessoas que reaprenderam a ler para contar histórias para os bisnetos, homens que aprenderam a cozinhar após a viuvez e mulheres que descobriram o feminismo aos 80 anos.

Minha experiência como educadora nesse grupo transformou minha visão sobre o próprio envelhecimento. Hoje, não vejo a velhice como um declínio, mas como uma fase de colheita e de novas semeaduras. 

Educar o público 60+ me ensinou que o conhecimento é o único bem que, quanto mais se compartilha, mais se possui. E que nunca, sob nenhuma circunstância, é tarde demais para ser quem você ainda não teve tempo de ser. O aprendizado na maturidade não é sobre acumular diplomas, mas sobre manter viva a chama da autonomia e o brilho do pertencimento.”

Vejo pessoas que reaprenderam a ler para contar histórias para os bisnetos, homens que aprenderam a cozinhar após a viuvez e mulheres que descobriram o feminismo aos 80 anos.

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