Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
NOVEMBRO/ DEZEMBRO 2025 | nº4
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O poder da criatividade nas práticas de sala de aula

Denise de Souza Fleith
Instituto de Psicologia
Universidade de Brasília

Para que produzam novos conhecimentos e solucionem problemas eficientemente, os estudantes precisam aprender a fazer perguntas, pensar de forma divergente, compreender e respeitar as necessidades e interesses dos outros
Não se trata de ter ou não ter criatividade. Essa não é uma questão de 8 ou 80. Ao contrário: a criatividade é um processo de construção e de desenvolvimento

Um currículo escolar que promove a criatividade também encoraja a identificação e discussão de problemas ainda não solucionados em diferentes áreas do conhecimento e articula diferentes linguagens e tecnologias.

O mero uso da tecnologia não aumenta automaticamente a criatividade em sala de aula. É necessário preparar educadores a utilizarem essa ferramenta de maneira intencional e crítica, além de alinhada ao currículo escolar.

Denise de Souza Fleith
Instituto de Psicologia
Universidade de Brasília

NOVEMBRO/DEZEMBRO 2025 | n°.4 |Quando a escola possibilita que os estudantes mergulhem nesse universo,  favorece o desenvolvimento de habilidades cognitivas e promove a expressão de competências socioemocionais

FOTO: ADOBESTOCK

A criatividade tem sido considerada uma das habilidades mais importantes a serem desenvolvidas no século XXI frente aos desafios que se apresentam nas diferentes esferas da vida humana. O Fórum Econômico Mundial, por exemplo, aponta o pensamento criativo como uma das 10 habilidades mais necessárias no mundo do trabalho, associando-a a um perfil profissional inovador, flexível, colaborativo e resiliente. Já a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ao discutir o futuro da educação, chama atenção para a necessidade de se investir nas competências “transformadoras”. Podemos transpor essas reflexões para a sala de aula. Afinal, para que produzam novos conhecimentos e solucionem problemas eficientemente, os estudantes precisam aprender a fazer perguntas, pensar de forma divergente, compreender e respeitar as necessidades e interesses dos outros. Além disso, necessitam lidar com ideias contraditórias, ter mentalidade aberta, pensar reflexivamente e fortalecer uma postura ética. E a criatividade é essencial em todo esse processo.

Recentemente, o pensamento criativo também passou a ser foco do Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA). Interessante observar que a maioria dos países que obtiveram pontuação acima da média no pensamento criativo também tiveram o mesmo resultado em matemática, leitura e ciências. Os países que tiveram melhor desempenho na avaliação da criatividade foram Singapura, Coreia do Sul, Canadá e Austrália. No caso do Brasil, mais de 50% dos estudantes não alcançaram o nível básico de proficiência em pensamento criativo. Isso significa que tiveram dificuldades em pensar em ideias apropriadas e originais para uma variedade de tarefas.

Diante desse cenário, surge a pergunta: Como as escolas podem preparar os estudantes para valorizar diferentes perspectivas, propor soluções inovadoras, interagir de forma respeitosa e colaborativa com os colegas, persistir diante dos obstáculos e tomar atitudes responsáveis a favor da sustentabilidade e do bem-estar individual e coletivo?

Para que produzam novos conhecimentos e solucionem problemas eficientemente, os estudantes precisam aprender a fazer perguntas, pensar de forma divergente, compreender e respeitar as necessidades e interesses dos outros.

Estratégias para desenvolver a criatividade em sala de aula

Estimular a criatividade em sala de aula favorece não apenas o desenvolvimento de habilidades cognitivas do estudante, tais como identificar, definir e solucionar problemas, analisar uma situação sob diferentes perspectivas, levantar múltiplas hipóteses, organizar informações em novas configurações e examinar cenários criticamente, mas também promove a expressão de competências socioemocionais. Entre elas, salientam-se a defesa de ideias e a consciência dos próprios pontos fortes, contribuindo para uma autoimagem positiva, bem como a postura colaborativa, empática e perseverante, favorecendo o protagonismo no processo de aprendizagem dos estudantes.

Não se trata de ter ou não ter criatividade. Essa não é uma questão de 8 ou 80. Ao contrário: a criatividade é um processo de construção e de desenvolvimento

Não se trata de ter ou não ter criatividade. Essa não é uma questão de 8 ou 80. Ao contrário: a criatividade é um processo de construção e de desenvolvimento. Criatividade também não consiste em um lampejo de inspiração, um momento de “eureca!”, em que as ideias surgem espontaneamente. Na realidade, criatividade envolve preparação e trabalho árduo.

Bagagem de conhecimento é outro elemento necessário para a emergência de ideias originais. Não se cria no vazio. Além disso, a criatividade está associada ao bem-estar psicológico. O envolvimento em atividades criativas pode trazer benefícios ao promover experiências de flow (estado psicológico de imersão total e prazer em uma atividade), aumentar emoções positivas e ajudar os indivíduos a encontrarem sentido em situações conflituosas.

Outro ponto relevante é que a geração de ideias ou produtos criativos não depende exclusivamente do indivíduo, mas das interações que se estabelecem entre a pessoa e os ambientes nos quais ela está inserida. Por isso, é preciso criar condições, em diferentes contextos, inclusive na escola, que possibilitem ao indivíduo desenvolver e expressar suas habilidades criativas.

É importante fornecer feedback informativo a respeito do trabalho do aluno, detalhando os pontos positivos e os que merecem reformulação, em vez de avaliações vagas e genéricas

Práticas de ensino

Vale lembrar que a criatividade é um fenômeno multifacetado, dinâmico e interativo, que transforma a maneira com que o indivíduo se relaciona com o mundo, com os outros e consigo mesmo. Assim, é essencial que a escola planeje e implemente intencionalmente práticas que possibilitem aos estudantes mergulharem no universo da criatividade. Entre as práticas de ensino, destacam-se:

  1. Dar ao estudante oportunidade de escolha, levando em consideração seus interesses e habilidades. Além disso, é importante fornecer feedback informativo a respeito do trabalho do aluno, detalhando os pontos positivos e os que merecem reformulação, em vez de avaliações vagas e genéricas.
  2. Criar um ambiente de respeito e aceitação, no qual todos possam compartilhar suas ideias sem medo de serem criticados.
  3. Encorajar o estudante a não se satisfazer com a primeira resposta que surgir. É necessário incentivá-lo a produzir muitas ideias. A fluência, aliás, é uma das características do pensamento criativo.
  4. Dar tempo ao aluno para pensar e desenvolver novas ideias.
  5. Orientar o estudante a buscar informações adicionais sobre temas de seu interesse.
  6. Oferecer ao aluno oportunidades para explorar diversos materiais e equipamentos.
  7. Incentivar o estudante a refletir sobre seus próprios processos e estratégias de pensamento ao resolver um problema ou gerar uma ideia ou produto, e a compartilhar suas ideias em sala de aula.
  8. Estimular o aluno a identificar lacunas e contradições no conhecimento.
  9. Encorajar o estudante a fazer perguntas e a avaliar o próprio trabalho.
  10. Considerar o erro como uma etapa do processo de aprendizagem. Isso implica evitar dar ênfase a uma única tarefa ou resposta, dar oportunidades para o aluno refazer seus trabalhos e dar opções para tomada de decisões.
  11. Relacionar objetivos do conteúdo às experiências do estudante. Tornar o processo de aprendizado significativo para ele.
  12. Variar as formas de avaliação do conteúdo ou dar opções de avaliação ao aluno.
  13. Estimular o estudante a percorrer caminhos diferentes, quebrando a rotina.
  14. Evitar comentários que podem destruir uma ideia: “isso não vai funcionar”; “é uma mudança muito radical”; “não temos tempo”; “alguém já tentou isso antes?”.

Práticas de ensino

Vale lembrar que a criatividade é um fenômeno multifacetado, dinâmico e interativo, que transforma a maneira com que o indivíduo se relaciona com o mundo, com os outros e consigo mesmo. Assim, é essencial que a escola planeje e implemente intencionalmente práticas que possibilitem aos estudantes mergulharem no universo da criatividade. Entre as práticas de ensino, destacam-se:

  1. Dar ao estudante oportunidade de escolha, levando em consideração seus interesses e habilidades. Além disso, é importante fornecer feedback informativo a respeito do trabalho do aluno, detalhando os pontos positivos e os que merecem reformulação, em vez de avaliações vagas e genéricas.
  2. Criar um ambiente de respeito e aceitação, no qual todos possam compartilhar suas ideias sem medo de serem criticados.
  3. Encorajar o estudante a não se satisfazer com a primeira resposta que surgir. É necessário incentivá-lo a produzir muitas ideias. A fluência, aliás, é uma das características do pensamento criativo.
  4. Dar tempo ao aluno para pensar e desenvolver novas ideias.
  5. Orientar o estudante a buscar informações adicionais sobre temas de seu interesse.

Um currículo escolar que promove a criatividade também encoraja a identificação e discussão de problemas ainda não solucionados em diferentes áreas do conhecimento e articula diferentes linguagens e tecnologias.

  1. Oferecer ao aluno oportunidades para explorar diversos materiais e equipamentos.
  2. Incentivar o estudante a refletir sobre seus próprios processos e estratégias de pensamento ao resolver um problema ou gerar uma ideia ou produto, e a compartilhar suas ideias em sala de aula.
  3. Estimular o aluno a identificar lacunas e contradições no conhecimento.
  4. Encorajar o estudante a fazer perguntas e a avaliar o próprio trabalho.
  5. Considerar o erro como uma etapa do processo de aprendizagem. Isso implica evitar dar ênfase a uma única tarefa ou resposta, dar oportunidades para o aluno refazer seus trabalhos e dar opções para tomada de decisões.
  6. Relacionar objetivos do conteúdo às experiências do estudante. Tornar o processo de aprendizado significativo para ele.
  7. Variar as formas de avaliação do conteúdo ou dar opções de avaliação ao aluno.
  8. Estimular o estudante a percorrer caminhos diferentes, quebrando a rotina.
  9. Evitar comentários que podem destruir uma ideia: “isso não vai funcionar”; “é uma mudança muito radical”; “não temos tempo”; “alguém já tentou isso antes?”.

O mero uso da tecnologia não aumenta automaticamente a criatividade em sala de aula. É necessário preparar educadores a utilizarem essa ferramenta de maneira intencional e crítica, além de alinhada ao currículo escolar.

O papel do currículo escolar

O currículo escolar também é uma dimensão importante a ser considerada quando discutimos o papel da escola no desenvolvimento da criatividade. Como poderíamos, então, caracterizar um currículo favorável à promoção das habilidades criativas?

É aquele, por exemplo, que aborda problemas do mundo atual, valoriza o uso da imaginação e é flexível de maneira a contemplar as necessidades intelectuais e afetivas dos estudantes. Outras características essenciais: o currículo incentiva o desenvolvimento de competências socioemocionais, tais como autoestima, liderança, empatia, tolerância à frustração e comunicação, discute a ética na produção criativa e valoriza as artes tanto quanto as ciências. Por fim, um currículo escolar que promove a criatividade também encoraja a identificação e discussão de problemas ainda não solucionados em diferentes áreas do conhecimento e articula diferentes linguagens e tecnologias.

 

Tecnologia e criatividade

Não há dúvida de que a tecnologia é uma ferramenta que pode oferecer uma ampla gama de oportunidades para novas e variadas formas de expressão, aprendizado e inovação. Ela também promove a autonomia dos estudantes, pois eles aprendem fazendo, autorregulando-se Ou seja, eles sentem-se no controle do próprio processo de aprendizagem e, portanto, protagonistas de sua própria aprendizagem. Mas tudo depende de como ela é utilizada.

O mero uso da tecnologia não aumenta automaticamente a criatividade em sala de aula. É necessário preparar educadores a utilizarem essa ferramenta de maneira intencional e crítica, além de alinhada ao currículo escolar. Caso contrário, ela será utilizada como uma “inovação conservadora”, o que significa utilizar a tecnologia para realizar tarefas que poderiam ser executadas com a mesma eficiência utilizando ferramentas tradicionais de sala de aula.

Desenvolver a criatividade em sala de aula não só é possível como deve ser um objetivo educacional a ser almejado e alcançado. Em pleno século XXI, é imperativo preparar os estudantes a lidarem com múltiplas realidades, muitas marcadas por oportunidades limitadas e díspares, a compartilharem e trocarem conhecimentos, a acolherem ideias originais, a agirem de maneira positiva e colaborativa e a encontrarem caminhos inovadores e transformadores que contribuam para uma vida digna e próspera. A criatividade é um instrumento poderoso e viável de ser implementado a todo vapor nas escolas.

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