Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
NOVEMBRO/ DEZEMBRO 2025 | nº4
Vale nota VIVÊNCIAS DIVERSAS, DIRETO DAS SALAS DE AULA

Quem tem medo do Enem?

Relatos concedidos a Giselle Soares e Marília Zaluar Guimarães Rede CpE

O imediatismo típico da juventude faz com que muitos encarem o exame como a “única oportunidade”. Isso amplia o estresse e o medo de fracassar. Nessas situações, nosso papel como educadores é acolher, ouvir e orientar.

A atenção sustentada, popularmente conhecida como concentração, depende da regulação emocional. Portanto, conseguir mantê-la é importantíssimo para o melhor desempenho possível em termos de todas as funções cognitivas, como a memória.

Relatos concedidos a Giselle Soares e Marília Zaluar Guimarães Rede CpE

NOVEMBRO/DEZEMBRO 2025 | n°.4 | Acolhimento e autorregulação emocional: como ajudar os alunos a lidarem com a ansiedade às vésperas do exame

FOTO: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

A prova acontece todo ano, mas cada ano é único para os que sonham com um bom desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o ingresso em um curso de nível superior. A preparação é semelhante à de uma maratona: exige disciplina e regularidade nas práticas de estudo e gera grande ansiedade na reta final. Com a proximidade do Enem deste ano, Yvirá compartilha dois relatos que podem ajudar professores e alunos nesse processo.

O primeiro, de uma educadora, reforça a importância do docente no papel de acolher, ouvir e orientar os alunos. Já o segundo relato, de uma neuropsicóloga, mostra como a autorregulação emocional é essencial em situações de elevado estresse como essa – mesmo que a autorregulação ainda não esteja totalmente madura na adolescência. Confira no texto a seguir.

Rafaela Oliveira Araújo
Licenciada em Ciências Biológicas, professora de Biologia na rede estadual de ensino da Paraíba, mestre em Biologia Celular e Molecular (UFPB) e doutoranda em Neurociência Cognitiva e Comportamento (UFPB)

O imediatismo típico da juventude faz com que muitos encarem o exame como a “única oportunidade”. Isso amplia o estresse e o medo de fracassar. Nessas situações, nosso papel como educadores é acolher, ouvir e orientar.

“O período de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é, para a maioria dos estudantes, um momento marcado por grande pressão psicológica. Medo de esquecer o conteúdo, de se atrasar no dia da prova ou de não corresponder às expectativas próprias e de familiares são sentimentos frequentemente relatados. A insegurança é regra, e não exceção. Como professora de instituição pública, percebo diariamente esse peso sobre os alunos, tanto no ensino médio regular quanto na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Procuro sempre reforçar que o Enem, apesar de importante, não define o valor de ninguém. Ressalto que existem outras chances, outros caminhos e que o futuro não se resume a uma única prova.

No entanto, o imediatismo típico da juventude faz com que muitos encarem o exame como a “única oportunidade”. Isso amplia o estresse e o medo de fracassar. Nessas situações, nosso papel como educadores é acolher, ouvir e orientar. Muitas vezes, uma palavra de incentivo, uma conversa franca ou até um momento de descontração em sala já ajuda a aliviar a ansiedade. Ainda assim, sabemos que o apoio que oferecemos tem limites.

A dimensão emocional e psicológica exigida por um exame como o Enem pede suporte especializado, para além dos limites da atuação docente, diante de questões de ordem psicológica. Isso ainda é pouco acessível à maioria dos jovens. Muitos estudantes não dispõem de condições de buscar atendimento psicológico, e, por isso, seria extremamente benéfico que esse acompanhamento estivesse presente dentro das próprias instituições escolares.                        

Após a aplicação da prova, é recorrente o relato de que o nervosismo foi o principal fator de comprometimento do desempenho. Grande parte dos alunos acredita que poderia ter obtido melhores resultados se tivesse conseguido controlar a ansiedade, demonstrando assim a urgência de investir em estratégias de cuidado com a saúde mental dos estudantes, entendendo que o rendimento acadêmico está diretamente relacionado ao bem-estar emocional.                                         

É indispensável que a preparação para o Enem seja pensada de forma integral. O estudo dos conteúdos deve vir acompanhado de ações voltadas para o equilíbrio psicológico, buscando ensinar estratégias de autocontrole, respiração e organização do tempo. Somente dessa maneira será possível oferecer aos alunos condições mais justas de enfrentar o exame, unindo conhecimento, segurança e equilíbrio emocional.”.

Rochele Paz Fonseca
Professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Pós-Graduação Saúde da Criança e do Adolescente e membro da Diretoria da International Neuropsychological Society – INS

A atenção sustentada, popularmente conhecida como concentração, depende da regulação emocional. Portanto, conseguir mantê-la é importantíssimo para o melhor desempenho possível em termos de todas as funções cognitivas, como a memória.

“A autorregulação emocional envolve automonitoramento e muito controle inibitório, além de autoconhecimento das emoções, ou seja, de funções executivas, mais ligadas aos complexos circuitos neurais localizados no lobo frontal. Estas funções são responsáveis pelo gerenciamento da nossa energia mental e da distribuição dela para múltiplas tarefas que têm algum grau de novidade e para as quais não podemos usar nosso piloto automático.

Na adolescência, a autorregulação emocional não está totalmente madura ainda e necessita de mais esforço para ser eficiente e suficiente em situações de elevado estresse e demanda. O primeiro passo para controlar e usar eficientemente a autorregulação emocional é a conscientização de que o momento envolve emoções complexas e ansiedade.

O segundo passo requer estratégias de manejo da ansiedade, como respiração diafragmática profunda, soltando o ar em seis etapas curtas, além de pensamentos do que é produtivo ou improdutivo para o momento, entre outras.

O terceiro passo é lembrar dos objetivos a serem alcançados com a avaliação por vir, tais como conquistar a entrada na universidade no curso que deseja e escolher uma carreira acadêmica e profissional que faça sentido com os valores de cada um.

O quarto passo trata de valorizar o caminho percorrido até a prova, com gratidão, aceitando os limites do que não foi estudado ou tão bem aprofundado.

A atenção sustentada, popularmente conhecida como concentração, depende da regulação emocional. Portanto, conseguir mantê-la é importantíssimo para o melhor desempenho possível em termos de todas as funções cognitivas, como a memória, por exemplo. Para evocar informações ou recordar de algo estudado é necessário um mecanismo de relaxamento mínimo.

As funções executivas quentes, mais dependentes de emoção, necessitam ser estimuladas no cotidiano, com enfrentamento e exposição a situações e a atividades que as demandem mais, como diferentes simulados do Enem. A cada exposição, maior será a dessensibilização, ou seja, uma habituação ao estímulo ocorrerá e ele deixará de provocar reações adversas como a ansiedade, ou terá seu impacto cada vez mais reduzido.

Um recurso importante para o aprendizado da autorregulação emocional é a psicoterapia cognitivo-comportamental. Há evidências de melhora no processamento emocional e atencional com esta abordagem terapêutica, com foco principal na redução da ansiedade e na aplicabilidade de recursos próprios de identificação e manejo das emoções predominantemente negativas.

A autorregulação emocional é, portanto, um conjunto de habilidades que podem ser aprimoradas ao longo da vida, devendo ser alvo de autopercepção e de autoconsciência constantes.”.

“Essas ações têm permitido um número crescente de grupos de alunos interagindo dentro e fora da sala de aula, e isso parece estar se estendendo para além dos muros do colégio.”

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