Elisa Martins
Jornalista, especial para Yvirá
A escrita à mão é um foco muito importante no contexto da aprendizagem da escrita e da leitura.
Há muito a ser feito em sala de aula, portanto, para estimular a escrita à mão, para além do período mais constante e óbvio dos anos iniciais do Fundamental.
Elisa Martins
Jornalista, especial para Yvirá
ABRIL/MAIO | Edição nº6 | Para além da aprendizagem escolar, resgatar essa prática revela inúmeros benefícios, da memória à concentração, processamento da informação, organização temporal e espacial.
Ilustração: C. Borges com Gemini.
Numa época em que celulares, tablets, computadores e outras tecnologias digitais entram cada vez mais no nosso dia a dia, a escrita à mão vai perdendo espaço. Muito presente nos anos iniciais de alfabetização, ela se reduz ao longo da vida escolar e mais ainda na vida adulta, substituída por teclas e teclados. Resgatar o hábito e o gosto pela escrita à mão, porém, traz inúmeros benefícios às crianças, assim como aos jovens e adultos. YVIRÁ conversou com especialistas para entender os diferentes sentidos dessa prática para quem escreve. E sugere, mais adiante, como estimular a escrita manual em sala de aula e em casa. Afinal, a escrita é parte da nossa história há muito, muito tempo.
“O Homo sapiens passou quase 70 mil anos provavelmente só falando. A escrita é muito recente, tem cerca de 5 mil anos. E ela surgiu para permitir a permanência da fala, para não depender só do som. A escrita grafa os sons da fala, isso fica claro nos estudos de educação e alfabetização”, afirma a professora Maria Regina Maluf, do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Dessa necessidade de grafar os sons da fala nasceram diferentes sistemas de escrita, lembra a especialista em Psicologia da Educação. Alguns desses sistemas, inclusive, exigiam que a pessoa aprendesse milhares de caracteres. A invenção do sistema alfabético data de 4 mil anos atrás e simplificou a escrita. O sistema que herdamos de latinos e gregos tem 26 letras e é o sistema mais utilizado no mundo todo.
“Todas as civilizações que conhecemos utilizaram a mão para representar coisas. Há muitos vestígios disso”, diz a professora Maria Regina Maluf. “E, desde a invenção da escrita, a mão é usada para representar os sinais do sistema alfabético que representam a fala. Mas não só a mão, outros objetos também, seja uma vareta, algo para riscar no solo, riscar no barro. Hoje, com os recursos tecnológicos, não se precisaria mais de nada disso, nem mesmo de papel”.
Não precisaria – em teoria. Parece suficiente utilizar tecnologia e ferramentas que dispensam papel e lápis? As pesquisas ainda não oferecem uma resposta conclusiva sobre o tema.
“Podemos refletir sobre essas questões sob focos diferentes, mas é interessante partir da utilidade. Para que serve escrever? E por que escrever à mão?”, reflete a especialista.
Para os primeiros anos do Ensino Fundamental, responder a essa questão é fácil: “A escrita à mão é um foco muito importante no contexto da aprendizagem da escrita e da leitura. Hoje, as pesquisas são muito claras ao mostrar que escrita e leitura são dois lados da mesma moeda”, afirma Maria Regina Maluf.
A escrita à mão confere autonomia, independência e flexibilidade, acrescenta, e é bom lembrar que não depende de bateria nem energia elétrica. Mas há mais.
A escrita à mão é um foco muito importante no contexto da aprendizagem da escrita e da leitura.
Do planejamento ao papel
No início da vida escolar, acontece uma ampliação gradual, mas contínua, da coordenação motora, que requer o envolvimento do corpo como um todo: olhos, coluna, ombros, cotovelos, punhos, dedos. Isso contribui para o aperfeiçoamento e a maturação da habilidade de escrever, explica a professora Mariluza da Silva Lucchese, mestre em Educação nas Ciências com ampla experiência em coordenação pedagógica no Ensino Fundamental e na docência do Ensino Fundamental e Médio e membro da Rede CpE.
Do 1º ao 3º ano do Ensino Fundamental, reforça, escrever à mão é uma das atividades mais exigidas, mais intensas e mais frequentes, tanto em sala de aula quanto em tarefas de casa. Na sequência da vida escolar, a escrita segue sendo uma atividade importante, mas, à medida que os anos avançam, alerta a especialista, o registro gráfico divide espaço com outras atividades, outras ferramentas e propostas que constituem o contexto da produção escolar.
“Esta é uma das razões pelas quais durante o Ensino Fundamental 2 os alunos diminuem a constância e o gosto pela escrita, e os professores oferecem outros recursos e metodologias, diminuindo a exigência do registro escrito. O tempo fragmentado das aulas parece determinar pressa ao registro escrito com qualidade”, afirma a educadora.
A esses, somam-se outros obstáculos à constância da escrita à mão. Desde os anos 1980, tradicionalmente no Brasil e na América Latina como um todo se olha muito para a escrita, mas não para a fluência da escrita, que é adquirida, principalmente, quando se pratica a escrita à mão.
“Esta envolve todo um processo grafo-motor, de planejamento do que se vai escrever, do movimento com a mão, a pressão no papel. Tudo isso é muito importante porque ajuda a criança a fortalecer as relações entre letras e sons e a fortalecer essa capacidade de escrever com mais rapidez, coesão e coerência”, afirma o professor e neurocientista Renan Sargiani, doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP), com parte do doutorado realizado no Graduate Center of The City University of New York (GC-CUNY) e pós-doutorado na Harvard Graduate School of Education.
“Quando escrevemos à mão, paramos para pensar em qual palavra escrever, como ela deve ser escrita, rabiscamos, escrevemos, paramos, escrevemos mais uma vez. Hoje, infelizmente, temos trabalhado pouco a fluência na escrita, e a própria escrita à mão, como uma habilidade que prepara a criança para ser um escritor fluente, não escritor de profissão, mas uma pessoa que escreve – inclusive no computador, no futuro”, acrescenta o também fundador do Instituto Edube, que promove práticas educacionais baseadas em evidências.
Nos últimos anos, diz ele, vários países têm investido em pesquisas sobre a prática da escrita. Portugal e Finlândia, por exemplo, têm estudos recentes ligando a necessidade de maior estímulo à escrita manual a benefícios como melhor desenvolvimento do aprendizado e da memória.
“Escrita e leitura são habilidades diferentes, mas dependem de uma base comum e partilham muitos elementos em comum. Na leitura e na escrita, é preciso aprender primeiro quais são as letras e que sons elas representam, quer dizer, os grafemas e fonemas. A união entre grafemas e fonemas, que chamamos mapeamento ortográfico, consiste na conexão de letras, seus sons e os significados na pronúncia das palavras. E justamente a principal tarefa de quem está aprendendo a ler e escrever é aprender esse mapeamento ortográfico. Para isso, é muito importante não apenas a prática visual, auditiva ou falada, mas também a grafomotricidade, que envolve essa prática da escrita manual”, afirma Sargiani.
Estudos comportamentais cognitivos, conta o especialista, mostram que a criança que pratica a escrita à mão geralmente tem mais capacidade de recuperar os sons das palavras, de selecionar os grafemas corretos e produzir a forma da letra correta. Na prática, significa que a escrita à mão fortalece a aprendizagem das letras e o desenvolvimento da escrita (e da leitura), contribuindo para o mapeamento ortográfico.
“A formação da memória ortográfica, que vai ser muito importante a partir do mapeamento ortográfico, ajuda também a integrar melhor os sistemas cognitivo, linguístico e motor no cérebro”, diz Sargiani. “Isso é muito claro nas pesquisas, que indicam melhorias na retenção do conteúdo e uma produção textual mais fluente”.
Benefícios para além da alfabetização
Os benefícios não se resumem ao início da vida escolar. A professora Mariluza da Silva Lucchese lembra que escrever à mão pode ter diferentes sentidos para quem escreve: pode significar de um recurso, como uma lista de compras, a uma técnica, como a transcrição de um trecho para memorização ou treino de tipologia de letra. Também pode ser um hábito, como o de produzir rascunhos antes de digitar, ou uma necessidade, como o registro de fragmentos do cotidiano em diários ou para descrever emoções.
“Em qualquer uma destas situações, ou em outras não citadas, a escrita manual contribui em aspectos fundamentais na construção do conhecimento, primeiramente porque escrever à mão exige presença, quer dizer, estar ali naquele exato momento, pensando ou lembrando, registrando, lendo ou relendo, reescrevendo, selecionando palavras, organizando e reorganizando ideias”, afirma a educadora.
A escrita manual, assim, é um processo que ativa a concentração, a memória, a capacidade de síntese e o processamento da informação.
“Enquanto escreve, o estudante precisa mobilizar habilidades cognitivas de aprendizagem, como atenção, foco, concentração, silêncio intencional e autocontrole”, explica Mariluza. “Há outras implicações motoras importantes na relação do aluno com o seu livro ou caderno que precisam ser observadas, como margens, espaços, separações entre palavras e atividades, sequência de páginas, ou seja, organização espacial”.
Numa situação de erro ortográfico ou um desvio de traçado, acrescenta, a criança apaga com a borracha. Já na digitação ela deleta, o que é uma forma de apagar que não deixa marcas – e ainda pode utilizar o corretor ortográfico disponível.
Concorrência não, complemento
Vale reforçar que não se trata de ver a escrita manual e a digital como concorrentes. Uma não precisa competir com a outra, mas conviver e complementar-se.
“Os movimentos motores e as habilidades cognitivas envolvidas nestas duas formas de registro envolvem contextos diferentes na significação do aprendizado. Na digitação, o teclado do computador dispõe o conjunto de letras do alfabeto e exige da criança a identificação da letra a ser usada, por exemplo. Na escrita à mão, a criança precisa identificar a letra e pensar sobre o traçado e transpor do pensamento para a ação”, exemplifica a professora Mariluza Lucchese.
Numa situação de erro ortográfico ou um desvio de traçado, acrescenta, a criança apaga com a borracha. Já na digitação ela deleta, o que é uma forma de apagar que não deixa marcas – e ainda pode utilizar o corretor ortográfico disponível.
“As marcas da borracha no registro escrito à mão ensinam a reescrita, a revisão, o sentido de nova oportunidade, de fazer de outro jeito”, diz a educadora.
Há, ainda, uma diferença no tempo como valor investido em cada uma das situações. Traçar a escrita no caderno consome tempo, paciência e persistência, enquanto digitar contribui para a aceleração do pensamento e do tempo, numa rapidez em concluir a tarefa solicitada, lembra a educadora.
Outro fator interessante da escrita à mão tem relação com a memória. O professor e pesquisador Renan Sargiani relata a existência de estudos que mostram que as pessoas que tomam notas manuais em situações diversas, como aulas, palestras etc., têm maior capacidade de armazenamento e consolidação das informações.
“Quando repetimos aquilo que o outro está falando, o cérebro faz uma espécie de reensaio do que está sendo dito. Funciona como um mecanismo de aprendizagem”, afirma.
Não quer dizer que a escrita digital não ajude nessa memorização. Mas o movimento de coordenação da escrita manual, mais difícil do que o de apertar o dedo na tecla, demandaria mais concentração e reflexão sobre o que se escreve.
“A escrita manual exige esse planejamento, envolvendo processos cognitivos, linguísticos e motores. É preciso planejar a motricidade, a pressão no papel, a velocidade da escrita, o espaço na folha”, enumera.
Mudanças na prática
O chamado letramento tecnológico é, e seguirá sendo, importante na formação das crianças e até a vida adulta. Por outro lado, concordam os especialistas ouvidos por YVIRÁ, a escrita à mão traz uma complexidade que não deve ser perdida totalmente para a escrita digital.
“Estudos aprofundados desde os anos 2000 mostram que as redes neurais ativadas durante a escrita manual contribuem para o desenvolvimento motor, linguístico e emocional”, afirma Alexandre Tadeu Rosa, professor do Ensino Médio e pesquisador do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
O professor diz perceber os benefícios da prática da escrita manual em sala de aula. Ao passar um planejamento de texto, por exemplo, quando os alunos estão pensando o que fazer, ele orienta que, quando possível, privilegiem fazer o trabalho no caderno, em vez de usar o Ipad.
“Não é questão de proibir o uso digital, mas converso e explico os benefícios da escrita manual. Na primeira versão de um trabalho, oriento que escrevam à mão, corrijo e dou um feedback. Sugiro, então, que deixem a digitação para a segunda versão do texto, depois dessa etapa de correção e conversa”, conta.
“Tenho pedido também para que façam em sala de aula algumas tarefas que antes escreviam de casa. Isso ajuda a acompanhar a preparação para a escrita, organizar as anotações e conversar sobre o processo, sem a influência de inteligência artificial e outras tecnologias”, afirma.
Os ganhos se revelam ao longo do desenvolvimento escolar, relata o professor, reforçando o conteúdo, a memória e o aprendizado dos estudantes.
“Em alunos que já vêm de uma cultura de escrita digital, noto ansiedade quando peço que escrevam à mão. Eles querem fazer o trabalho e terminar logo, mas quando começam a escrever à mão são obrigados a desacelerar. A escrita manual exige uma seleção mais ativa das informações. Demanda gerenciar diferentes níveis de linguagem, da macro à microestrutura do texto, que compreende a ortografia, a pontuação, o sentido da frase, do parágrafo, o número de argumentos”, explica o professor.
Nas práticas em sala de aula, completa ele, a percepção é que os alunos passam a ter um refinamento da linguagem que vai além de léxico e gramática.
“É um refinamento de estrutura, de metáforas, com sentenças mais bem elaboradas, como se o texto ganhasse um significado mais profundo, em comparação a fazer o mesmo digitando”, diz.
O professor explica que este é um processo que vale a pena e que pode ser introduzido aos poucos em sala, sem atribuição de notas ou penalizações. Ao contrário: é importante que os alunos tenham segurança emocional e se envolvam na tarefa, em vez de se sentirem ameaçados ou pressionados por ela.
“Às vezes é preciso sair um pouco da tecnologia e investir em práticas que levem nosso sistema cognitivo a ‘fazer ginástica’”, afirma.
A escrita manual, nesse sentido, age como se recuperasse o que está na nossa memória. Enquanto se faz esse planejamento mental do que escrever e como, ativa-se também todo um repertório pessoal, explica. A prática nos convoca a conhecer as palavras, os tópicos, os formatos de texto. Sem uma escrita consolidada, não será fácil fazer isso. Ao contrário: o processo vai ficando com lacunas, sobrecarrega a memória, e vem a dificuldade de colocar tudo que se pensa no papel.
Mãos à obra
Há muito a ser feito em sala de aula, portanto, para estimular a escrita à mão, para além do período mais constante e óbvio dos anos iniciais do Fundamental. Para começar, os professores podem estimular os alunos a planejarem. Planejar o espaço da página, planejar como fazer o texto parecer aquilo que se pretende, de um bilhete a uma carta, um e-mail, uma receita, uma redação.
“É preciso ajudar a criança a desenvolver essa habilidade de planejar. Isso é metacognição. É essa capacidade às vezes definida como aprender a aprender, às vezes definida como raciocínio sobre a aprendizagem, mas que de modo geral significa planejar antes de executar”, explica o professor e pesquisador Renan Sargiani.
“Muitas vezes os alunos já querem fazer a versão final do texto. Dizem que dá trabalho planejar, depois passar o texto a limpo. Mas, sem esse planejamento, as escritas não fluem”, afirma.
Esse planejamento é bem diferente de fazer cópias, uma tradição que infelizmente segue presente em escolas pelo Brasil, diz o professor. Trata-se, neste caso, de uma escrita que é basicamente a reprodução do que outra pessoa escreveu, sem autonomia ou reflexão no processo.
“É muito importante trabalhar com o aluno a capacidade de ele escrever com atenção, planejando e refletindo. Para isso, o professor ou professora podem planejar dentro das disciplinas deles momentos em que seja necessário utilizar a escrita de modo produtivo. Se vão fazer uma visita de campo, os alunos podem entender como funciona um relatório de visita de campo. Se vão a um museu, podem propor aos alunos fazer um relatório. Eles têm de anotar o nome do lugar, suas características físicas, qual foi o horário de chegada, quantas pessoas havia e quais serviços estavam disponíveis. Cabe aos professores ajudarem a planejar essa escrita. E darem feedbacks corretivos que validem o que o aluno fez, ao mesmo passo que mostram como ele pode melhorar naquela habilidade”, sugere.
Uma técnica que ajuda a pensar nessas diferentes propostas pedagógicas, diz, é a chamada teoria da liberação gradual de responsabilidade. Parte-se da ideia do “eu faço”, depois “nós fazemos” e, então “vocês fazem”.
“O professor pode fazer um modelo de texto, para mostrar como é. Depois escreve junto com os alunos, pensa, discute que palavras usar, por que não outras. Depois, passa a atividade para ser realizada em pequenos grupos, com os alunos aprendendo também com os próprios pares. Depois, seria a vez da prática individual, na qual recebem um feedback mais assertivo do professor sobre dificuldades pontuais, até que o aluno ganhe cada vez mais autonomia. Esse é um princípio geral que se aplica a qualquer atividade e pode ser usado para ensinar diferentes gêneros textuais ou simplesmente praticar a escrita criativa”, recomenda Sargiani.
Isso pode ser feito para diferentes disciplinas a partir do Fundamental 2: “É importante lembrar dessa transdisciplinaridade da escrita nessa fase. Professores de Matemática, História, Filosofia, também ensinam a escrever. Na aula de Educação Física, podem escrever as regras de um esporte, entregar um trabalho escrito sobre outro, pesquisar sobre o impacto de determinada atividade física em nosso organismo. A escrita à mão pode estar, inclusive, num planejamento de cartazes e murais sobre a conscientização de bons hábitos, por exemplo”, completa.
Engajamento e o gosto pela escrita
A ideia de os professores serem o modelo de um primeiro texto escrito, e depois fazerem a construção junto com os alunos, reitera o professor Alexandre Tadeu Rosa, é uma prática que ajuda a manter a atenção em sala e tem um componente emocional interessante, de os estudantes sentirem que o texto escrito também é deles.
“O engajamento é extremamente importante. E, ao sustentar a atenção dos alunos, podemos monitorar erros e ajudar os alunos a persistirem e finalizarem o texto”, afirma. “Geralmente, estudo o texto que os alunos precisam escrever e, uma aula antes, dou a eles uma lista do que eles vão precisar fazer. E dou exemplos sobre o tipo de texto, a estrutura, a conclusão. Depois trabalhamos juntos, discutimos, e então eles fazem, num trabalho estruturado que é importante e que ajuda a ter um equilíbrio maior entre a escrita digital e a, digamos, analógica, que vai se perdendo com o tempo”.
A professora Mariluza Lucchese afirma que professores podem despertar o gosto pela escrita à mão em seus alunos propondo a eles uma participação na escolha de temas para as produções textuais.
“Acompanhei o projeto de uma professora de Língua Portuguesa, em turmas de 6º ano, durante dois anos. Ela propôs nas primeiras aulas do início do ano letivo, como tarefa de casa, que cada aluno fizesse uma pequena lista de temas e assuntos sobre os quais gostaria de escrever ao longo do ano. As listas individuais foram entregues à professora, que organizou os temas mais sugeridos em fichas e colocou numa caixinha. Ela fez um cronograma de tempo para escrita durante a sequência das aulas e, nas datas marcadas, logo após o sorteio, os alunos escreviam livremente à mão, em um caderno específico para esta atividade”, conta.
“Ao final, o aluno entregava o caderno à professora, sinalizando que queria que a professora lesse a sua produção. Depois de ler a produção do aluno, a professora escrevia com sua própria letra uma apreciação destacando algo positivo e enriquecedor para a escrita”, relata.
Os resultados foram incríveis, destaca a educadora. Entre eles, uma produção escrita ampliada e qualificada, autocorreção da escrita, confiança na orientação da professora quando o aluno buscava saber sobre como melhorar sua escrita e envolvimento integral dos alunos na atividade.
“É fundamental os professores criarem, em horário de aula, uma rotina de escrita planejada intencionalmente, mas construída com os alunos, possibilitando o espaço de escrita a partir do que eles consideram importante compartilhar, narrar, argumentar, descrever”, opina Mariluza.
“A autorização à leitura do professor desenvolve um vínculo de genuína confiança porque o aluno sabe que nesta produção não vai ser avaliado, mas apreciado sobre aquilo que conseguiu produzir. E isto muda completamente a relação, sem contar que o professor encontra ali uma excelente possibilidade de interação humana para além da pedagógica, que talvez seja a mais educativa”, acrescenta, recomendando ainda respeito à produção do aluno e ao processo individual da escrita, com um olhar focado sobre o conteúdo produzido e com atividades que gerem a confiança do aluno sobre sua própria produção.
A professora e pesquisadora Maria Regina Maluf lembra a importância de incentivar a escrita à mão de forma lúdica. “A escola pode usar jogos de escrita. Por exemplo, brincar de escrever nomes de bichos, e as outras crianças têm de adivinhar o que foi escrito. Depois, outras têm de ler o que estava escrito à mão no papel. Aos poucos, os professores podem reforçar a importância de escrever, a importância de ler”, sugere. “Lembro de uma colega, cujo neto estava escrevendo algo num papel, e ela foi perguntar o que tanto ele escrevia. Ele respondeu ‘Assim eu guardo o meu pensamento’”.
Prática em casa
Pais, mães e cuidadores também podem incentivar a prática da escrita à mão entre as crianças.
“No processo de leitura e escrita, que começa desde muito cedo, ler para os filhos e com os filhos é determinante para despertar e estimular o interesse também pela escrita. Sobre as aprendizagens escolares, é importante que os pais dediquem um tempo de qualidade para ver, comentar, e valorizar toda produção escrita da criança destacando o que ela consegue produzir até aquele momento, sem apontar erros”, afirma a professora Mariluza Lucchese.
“Em casa, no cotidiano apressado, quando as crianças são pequenas, é possível deixar pequenos bilhetes amorosos, lembretes de tarefas curtas, jogar jogos de escritas rápidas, solicitar auxílio na elaboração de listas para compras, escrever cartões em datas especiais e fazer breves relatos de atividades durante períodos de ausências são atividades possíveis quando as crianças ainda são pequenas”, sugere ela.
Mais tarde, quando a escrita já se tornou mais madura, diz, pais e filhos podem ser coautores de relatos de viagens, de momentos prazerosos de lazer e registros de acontecimentos de família nos finais de semana. “Atividades desta natureza fortalecem laços, constroem memórias afetivas e agregam valor à vida e à escrita”, afirma a professora.
Os benefícios e recomendações sobre a escrita à mão não se restringem às crianças. Que adulto nunca se deparou com uma anotação e teve dificuldade de reconhecer ou entender a própria caligrafia? E não se trata apenas de estética. Da mesma forma que para as crianças, os adultos se beneficiam de ganhos em concentração e memória, organização temporal e organização espacial, sem contar a reflexão sobre o que se escreve e como se escreve, lembra Mariluza.
“A escrita torna-se ainda, algumas vezes, um excelente recurso para a organização socioemocional das pessoas, em diferentes fases da vida. Pode ser um hábito de acolhimento das demandas emocionais em uma forma mais imediata ou mesmo de forma intermediada por outro, estimulando o autoconhecimento, a empatia e a resiliência”, diz a professora.
“Registros de narrativas, sejam elas de cunho pessoal, comunitário ou institucional, podem restituir a memória, a valorização e o pertencimento do sujeito ao meio social, contribuindo fortemente para a autoestima e o reconhecimento dos sujeitos e sua importância como ser humano e social. Tudo isto, sem esquecer de que escrever à mão contribui para mantermos a coordenação fina ativa para as variadas atividades diárias de cuidado ou necessidade social ou produtiva e para o lazer”, acrescenta ela.
Podem anotar (à mão, claro): é hora de resgatar cadernos e bloquinhos e… mãos à obra!


