Yvirá Cátedra UNESCO de Educação e Diversidade Cultural UNESCO
NOVEMBRO/ DEZEMBRO 2025 | nº4
Cadê a prova? ARTIGO

Saúde mental na escola: para voltarmos a esperançar

Natália Mota 

Instituto de Psiquiatria

Universidade Federal do Rio de Janeiro

A cognição social demanda um grande investimento que compensa no final. Para fazer sentido, esse aprendizado adaptativo carrega marcas do ambiente social em que cada um cresceu.

Ficar sozinho nas savanas dos leões não era nada bom. É como se esse medo constante de sobrevivência nos empurrasse para o efeito oposto, amplificando a resposta imediata e mais primitiva da programação inicial.

Na escola, a criança treina e cria suas habilidades sociais de forma cada vez mais independente e autônoma da sua família. Faz suas escolhas, testa suas ideias.

Assim como controlamos doenças infectocontagiosas mais com higiene do que com antibióticos, precisamos pensar em atitudes que promovam um verdadeiro “saneamento mental” nos ambientes escolares.

JANEIRO/FEVEREIRO 2026 | nº5 | Assim como causas do problema podem ser sociais, respostas devem mirar ambientes e comunidades cada vez mais saudáveis

Natália Mota 

Instituto de Psiquiatria

Universidade Federal do Rio de Janeiro

IMAGEM: ADOBESTOCK

Saúde mental, como definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), vai além da ausência de transtornos: consiste em lidar com desafios e se manter produtivo, aprendendo, contribuindo para a comunidade. Isso significa que, ao longo do desenvolvimento, um indivíduo constrói alicerces que lhe permitem tomar decisões assertivas, faz e mantém relações saudáveis, contribuindo para a comunidade, aprendendo com ela a se adaptar a esses desafios próprios e do coletivo. É um tema que tem ampla relação com um melhor ambiente escolar, e este artigo pretende esclarecer por quê.

Esse senso de aprendizado coletivo é importante por sermos extremamente sociais. Se pararmos para pensar o que fez um primata de porte mediano sem grandes presas ou garras se tornar tão bem-sucedido sobrevivendo nas savanas dos leões, não conseguiremos entender olhando apenas para o indivíduo. É que esse primata desenvolveu habilidades sociais tão sofisticadas que se tornou capaz de formar grupos coesos para resolver seus problemas. A esse conjunto de habilidades temos a construção de uma cognição social (um conjunto de habilidades cognitivas como expressar emoções e reconhecer as dos outros) que é fundamental para a construção de saúde mental.

A cognição social demanda um grande investimento que compensa no final. Para fazer sentido, esse aprendizado adaptativo carrega marcas do ambiente social em que cada um cresceu. É um processo longo e caracterizado pelas respostas sociais que vão acontecendo ao longo da vida de cada indivíduo. Por isso mesmo, são habilidades que demandam muito tempo para se desenvolver, social, psicológica e neurobiologicamente.

A cognição social demanda um grande investimento que compensa no final. Para fazer sentido, esse aprendizado adaptativo carrega marcas do ambiente social em que cada um cresceu.

Medo e aprendizado

Essas habilidades vão se tornando cada vez mais sofisticadas à medida que há aprendizado com as experiências vividas, espelhando o próprio amadurecimento neurológico que se conclui apenas no fim da adolescência. Esse desenvolvimento lento ajuda a ter adaptações às condições ambientais de cada um. Um exemplo acontece com as reações emocionais. Nascemos já dotados de um sistema muito primitivo de percepção de emoções (o sistema límbico). Ele garante nossa sobrevivência com reações muito imediatas a sensações como o medo, por exemplo.

FONT: ADAPTADO DE JOSEPH NOVAK (2006)

Regiões que fazem parte do sistema límbico.(Imagem tirada do livro “Cem bilhões de neurônios?”, de Roberto Lent)

Vamos vivendo e experimentando medo em diversas situações, e ao longo do desenvolvimento aprendemos que podemos reconhecer o medo e nem por isso sair correndo, ou brigar para nos defender. Quanto mais nos comunicamos com os mais experientes inseridos nesse ambiente social, mais aprendemos a ter reconhecimentos e reações mais adaptativas aos desafios do mesmo ambiente. Isso gera aprendizado e ajuda a ligar o sistema límbico (rede de regiões ligadas às emoções básicas) com estruturas muito mais sofisticadas de processamento cognitivo, como o córtex pré-frontal.

Quanto mais falamos e solidificamos esse aprendizado funcional, recebendo boas respostas da comunidade, mais vamos nos sentindo pertencentes, integrados, e isso é fundamental para nossa espécie. Ficar sozinho nas savanas dos leões não era nada bom. É como se esse medo constante de sobrevivência nos empurrasse para o efeito oposto, amplificando a resposta imediata e mais primitiva da programação inicial. Para além disso, quanto mais treinamos e compreendemos respostas mais funcionais e menos imediatas ou óbvias às emoções, mais engajamos controle inibitório e racionalização, conseguindo ter calma para pensar antes de agir.

Em termos neurológicos, o pleno desenvolvimento dessas habilidades demanda alguns bons anos para acontecer, amadurecendo apenas no final da adolescência, em torno de uns 24 anos de jornada. Aqui quando me refiro a amadurecimento não seria apenas no sentido psicológico, mas um desenvolvimento biológico mesmo. Isso porque é necessário o amadurecimento de estruturas cerebrais bem sofisticadas para isso.

Ficar sozinho nas savanas dos leões não era nada bom. É como se esse medo constante de sobrevivência nos empurrasse para o efeito oposto, amplificando a resposta imediata e mais primitiva da programação inicial.

Formação dos indivíduos

O problema é que na adolescência temos uma situação ingrata nessa jornada de desenvolvimento neurobiológico. Esse período que inicia na puberdade é marcado por um amadurecimento inicial do sistema límbico, permitindo perceber situações emocionais cada vez mais complexas, mas o amadurecimento do córtex pré-frontal (marcado em amarelo na figura acima) e a completa mielinização de suas vias vão se completar só no final da adolescência. Ou seja, passamos pelo menos uns 10 anos sentindo o mundo com muita intensidade, mas ainda sem estrutura para entender tanta emoção. Se esse ambiente social é muito desafiador, se não há recurso de comunicação, nem pertencimento à comunidade, o cenário pode ser ainda mais difícil.

É aqui que reflito com vocês sobre o papel muito mais amplo da escola na formação dos indivíduos. Na escola, a criança treina e cria suas habilidades sociais de forma cada vez mais independente e autônoma da sua família. Faz suas escolhas, testa suas ideias. Na adolescência, esse processo se aprofunda através da busca por identidade, experimentando muitas vezes uma identificação com diferentes grupos sociais.

Pode acontecer por observarem o jeito de se vestir, as músicas que gostam, as ideias que disseminam. Aqui é a hora de voar para fora do ninho mesmo, testar seu jeito de pensar o mundo, ouvindo muito mais os seus pares, muitas vezes desapegando abruptamente dos laços familiares mais seguros. A questão é lembrar que o sistema límbico está processando um monte de emoções difíceis de entender, o que pode gerar uma identificação saudável com um grupo, ou não.

Vamos tomar como exemplo hipotético um garoto que começa a se sentir atraído pelas meninas da turma, mas é inseguro demais para lidar com isso. Na sua timidez, escolhe não falar com os colegas que as conhecem, e prefere buscar informações em redes sociais, encontrando meninos que culpam aquelas garotas que eles nem conhecem pelo desconforto e insegurança experimentados por eles. A raiva passa a estar associada a essa atração, e aquele garoto que nem tentou ainda ter uma experiência com alguém já começa a sentir algo que pode evoluir para misoginia, ou seja, sentimentos como raiva e até ódio pela condição de ser mulher. 

Esses construtos sociais podem levar a várias dificuldades de relacionamento, incluindo uma predisposição à violência contra a mulher, trazendo consequências para meninas e mulheres com quem ele venha a se relacionar, mas também ao próprio indivíduo, que pode se isolar e encontrar cada vez mais dificuldade de experimentar uma sexualidade saudável. Tais fatores contribuem e muito, inclusive, para o surgimento e a exacerbação de desordens mentais.

Na escola, a criança treina e cria suas habilidades sociais de forma cada vez mais independente e autônoma da sua família. Faz suas escolhas, testa suas ideias.

Cada vez mais cedo

Desde 2010, a comunidade acadêmica aponta com muita preocupação a epidemia crescente de problemas em saúde mental ocorrendo cada vez mais cedo. Até 2010, a prevalência nessa faixa etária era em torno de 10%. Hoje, está em 30% na maioria dos países que recolhem esses dados, chegando a quase 50% (metade!) se olharmos para dados norte-americanos com recorte de gênero (em meninas). Atualmente, o pico de início de sintomas está em torno dos 15 anos de idade. O que poderia explicar essa crescente tão abrupta?

Entendendo que problemas em saúde mental são multifatoriais, muitas vezes decorrentes de vulnerabilidades genéticas que se expressam em situações ambientais adversas, de 2010 para cá ainda não deu tempo de termos mudado no globo a vulnerabilidade genética da população. Isso nos leva então a olhar para potenciais causas sociais.

Na última década, tivemos mudanças profundas na socialização mediada por tecnologia. As redes sociais tornam acessíveis e sem qualquer regulamentação a exposição a conteúdos de forte teor emocional (para causar engajamento), disseminando muitas vezes pensamentos disfuncionais e distorcidos da realidade. Se essa situação já é ruim para adultos, imaginem as consequências para quem ainda não tem o amadurecimento neurológico necessário para poder refletir de fato sobre isso.

Além disso, vivemos desafios globais que impactam essa geração com uma força ainda maior: mudanças climáticas profundas, guerras e precarização do mercado de trabalho, promovendo um ambiente de insegurança e incertezas. Tudo isso traz um profundo aumento de desesperança no futuro, principalmente para aqueles que têm todo o futuro pela frente.

Assim, da mesma forma que as causas devem ser sociais, as respostas também precisam ser nesse sentido, quer dizer, amplificando a visão de prevenção e promoção de saúde mental mirando ambientes e comunidades cada vez mais saudáveis. A proposta é de um olhar de muito cuidado ao ambiente escolar. Assim como controlamos doenças infectocontagiosas mais com higiene do que com antibióticos, precisamos pensar em atitudes que promovam um verdadeiro “saneamento mental” nos ambientes escolares. 

Promover ambientes seguros para falar sobre emoções, trazer informações sobre psicoeducação, até promover ferramentas úteis de auto-regulação emocional (como meditação), podem ser formas de alcance em escala que atingem direta ou indiretamente todos os que convivem nesse ambiente. Não quer dizer tratar um terço de uma geração, mas cuidar dos ambientes onde essas comunidades se desenvolvem, para que possam esperançar novamente.

Assim como controlamos doenças infectocontagiosas mais com higiene do que com antibióticos, precisamos pensar em atitudes que promovam um verdadeiro “saneamento mental” nos ambientes escolares.

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