Andrea Deslandes
Pesquisadora e professora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ
Coordenadora do Laboratório de Neurociência do Exercício (Lanex) – Universidade Federal do Rio de Janeiro
O estudo mostrou que crianças que tinham aulas de capoeira durante um semestre apresentaram melhor desempenho nas funções executivas.
Os pesquisadores buscaram entender os desafios enfrentados diariamente por famílias de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e como eles percebem as mudanças geradas com a prática de aulas de capoeira.
A capoeira pode ser indicada como forma de estimular o desempenho motor, cognitivo, sensorial e emocional de crianças com TEA.
Andrea Deslandes
Pesquisadora e professora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ
Coordenadora do Laboratório de Neurociência do Exercício (Lanex) – Universidade Federal do Rio de Janeiro
ABRIL/MAIO 2026 | nº.6 | Estudo utiliza a Capoeira como forma de estimular o desempenho motor, cognitivo, sensorial e emocional de crianças com transtorno do espectro autista
ILUSTRAÇÃO: ADOBESTOCK
A capoeira, manifestação cultural afro-brasileira, abriu a roda para incluir lugares bem distantes, levando o nosso patrimônio cultural imaterial da humanidade para ajudar no desenvolvimento de crianças de todo o planeta. Além da sua característica multissensorial e da complexidade dos seus gestos motores, fomenta um senso de comunidade e afetividade, capaz de promover um ambiente especial para estimular a cognição infantil. No espaço ritualístico da roda de capoeira, todos têm uma função, e a multiplicidade dos estímulos imprevisíveis (como o toque do berimbau e o som dos cantos, os espaços da roda e os movimentos dos praticantes) precisa ser observada, avaliada e respondida a cada instante com a melhor decisão motora, em um ambiente de muita camaradagem.
No Brasil, o pesquisador e mestre de capoeira Valter Fernandes, em colaboração com pesquisadores da Rede CpE e do Canadá, realizou um estudo pioneiro sobre a capoeira e as funções executivas de crianças em 2022. O estudo mostrou que crianças que tinham aulas de capoeira durante um semestre apresentaram melhor desempenho nas funções executivas. Apontou ainda que, quanto mais aulas, melhor era o resultado, o que chamamos em pesquisa de “efeito dose-resposta”.
Em uma revisão sistemática da literatura, este mesmo autor, em colaboração com outros pesquisadores, verificou que a capoeira ativa diversas áreas do cérebro relacionadas ao processamento motor, cognitivo e emocional. Os resultados ecoaram na grande roda do nosso planeta e, em 2025, pesquisadores da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Ariel, em Israel, descreveram o efeito da capoeira em crianças com transtorno do espectro autista.
O estudo mostrou que crianças que tinham aulas de capoeira durante um semestre apresentaram melhor desempenho nas funções executivas.
Integração bem-sucedida
Neste estudo piloto, os pesquisadores israelenses utilizaram uma abordagem “ascendente”, que explora o problema científico não apenas pela visão do pesquisador, mas sim a partir das percepções e vivências das pessoas investigadas, aproximando as pesquisas das necessidades específicas de quem mais importa: a sociedade.
Os pesquisadores buscaram entender os desafios enfrentados diariamente por famílias de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e como eles percebem as mudanças geradas com a prática de aulas de capoeira.
Essa metodologia pode contribuir para o desenvolvimento de pesquisas quantitativas futuras e facilitar a posterior implementação das evidências na vida real. Os pesquisadores buscaram entender os desafios enfrentados diariamente por famílias de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e como elas percebem as mudanças geradas com a prática de aulas de capoeira.
Outro foco dos autores foi identificar mecanismos e fatores que contribuem para a integração bem-sucedida das crianças, como o papel dos instrutores de capoeira e suas técnicas de ensino.
Entrevistas semiestruturadas foram realizadas com sete mães e três pais de crianças e adolescentes com diagnóstico de TEA que praticavam regularmente aulas de capoeira por pelo menos um ano.
Mudanças no desenvolvimento
A entrevista incluiu perguntas relacionadas ao histórico e ao diagnóstico da criança, o envolvimento da criança com a capoeira e as mudanças percebidas no desenvolvimento, nas emoções ou no comportamento relacionadas à participação na capoeira. Por fim, a entrevista abordou a relação entre pais e instrutores e como o ambiente da capoeira apoiava a inclusão.
Os resultados principais mostraram as seguintes melhorias com a capoeira: melhor regulação sensorial, coordenação motora, consciência corporal e comunicação social; aumento da motivação, independência, senso de pertencimento e integração; e aumento da autoconfiança, iniciativa, consciência dos outros e transferência de habilidades para além do contexto de treinamento.
A conclusão reforça o que os pesquisadores brasileiros já haviam demonstrado em estudos com crianças neurotípicas: a capoeira pode ser indicada como forma de estimular o desempenho motor, cognitivo, sensorial e emocional de crianças com TEA.
É a capoeira abrindo a roda da inclusão para promover o pertencimento, a autonomia, a competência e o letramento corporal. Axé!
A capoeira pode ser indicada como forma de estimular o desempenho motor, cognitivo, sensorial e emocional de crianças com TEA.


